sexta-feira, 21 de junho de 2013

Cuba pela cubana Dra. Patricia Ares Muzio


C U B A Havana. 22 de Maio, de 2013
Uma olhada ao modelo cubano de bem-estar
Dra. PATRICIA ARES MUZIO

EM muitas ocasiões, perguntei aos meus estudantes quais seriam as principais razões para dizer que em Cuba é bom viver. A maioria das vezes as respostas estão relacionadas com o acesso à saúde, à educação e à previdência social e, com certeza, estes são os pilares do nosso modelo socialista, mas para as pessoas jovens constituem realidades tão assumidas, a partir do cotidiano, que se tornam demasiado habituais ou ficam congeladas num discurso que, com a força da repetição, se torna irrelevante.

Eu me atreveria a dizer que existe um modelo cubano de bem-estar, que tem sido assumido com tanta naturalidade acrítica e que fica invisível para os nossos olhos ou, contraditoriamente instalado na voz de muitos dos que já não estão, depois de tê-lo perdido, ou de visitantes que vivem outras realidades em seus países de origem. Da vida cotidiana em Cuba, o mais das vezes, se fala das dificuldades, sobretudo de tipo econômico, mas poucas vezes se escuta falar das nossas bondades e fortalezas.

Algumas experiências profissionais me fazem pensar muito em nosso socialismo, visto como cultura e civilização alternativa. Naquela ocasião, quando um grupo de psicólogos e especialistas participamos do retorno do garoto Elián González, este tema apareceu com muita força. Recentemente, em consultas, conversando com algumas pessoas idosas repatriadas, com crianças que por decisão de seus pais devem ir a residir a outros países ou com jovens que retornaram da Espanha, depois de viver a experiência de ficar sem trabalho e sem dinheiro para pagar a renda, volta a ressurgir, a partir de suas vivências, a ideia do modelo cubano de bem-estar.

Lembro que quando o garoto Elián González estava nos EUA e o avô Juanito lhe dizia pelo telefone que lhe estava construindo um rolimã para quando retornasse, depois, no outro dia, o garoto aparecia na tevê com um carro elétrico (um brinquedo) que parecia de verdade, que lhe tinham dado como presente. Se os avós ou o pai lhe diziam que o cachorro tinha saudades dele, no outro dia Elián aparecia com um cachorro de Lavrador que lhe tinham presenteado. Se lhe diziam que lhe tinham comprado um livrinho de Elpidio Valdés, depois Elián aparecia vestido de Batman. Contudo, o carinho de sua família, o amor de todos os que o esperaram, a solidariedade de seus amigos da sala de aula, de suas professoras, puderam mais do que todas as coisas materiais do mundo.

Há pouco, conversando com um idoso que decidiu não retornar aos EUA, depois de ter vivido 19 anos nesse país, me dizia: "É verdade doutora, lá se vive com muitas comodidades, mas isso não é tudo na vida, lá a gente não existe para ninguém". Contou-me que passava muito tempo sozinho na casa, esperando que os filhos e os netos retornassem do trabalho e da escola, que não podia sair, pois segundo eles não podia conduzir sozinho, e que durante o dia o bairro em que vivia sempre estava desolado, que ninguém tinha tempo de conversar com ele. Numa visita que fez a outra filha que vive aqui em Cuba, decidiu não retornar. Agora diz que faz exercícios no parque, que joga dominó, que ajuda o neto nas tarefas da escola e a dois amigos que tem; que conseguiu recuperar alguns amigos que deixou aqui em Cuba e que com o dinheiro que lhe enviam e com a ajuda de sua família aqui, tem suficiente para cobrir seus gastos. Em suas palavras textuais, me disse: "Alguns conhecidos diziam-me que ia vir para o inferno, mas realmente, sinto-me no paraíso". Evidentemente, o modo de vida que tem agora não será o paraíso, mas lhe provoca maior bem-estar.

Um dia, trouxeram à minha consulta uma criança, filho de dois diplomatas, que veio de férias e não queria retornar com os pais; dizia que ela queria ficar com a avó, que ela não queria ir embora de novo, que não gostava de estar lá. Quando perguntei aos pais o que acontecia à criança, contaram-me que lá tinha que viver encerrada por razões de segurança, que quase não tinha amigos para compartilhar depois da escola, e que não estavam os primos aos quais adorava. "Assim que chega aqui a Cuba é como se estivesse livre — contaram-me os pais — vai para o parque com os amigos do bairro, vai passear com os primos, joga beisebol e futebol na rua, sempre está acompanhada dos avós, dos primos, dos tios". Na entrevista com o garoto, me contou que os primos lhe diziam que ele era tolo, porque queria ficar em Cuba, tendo a oportunidade de estar noutro país. E ainda me contou que quando estava em Cuba sentia imensas saudades da pizza de pimento, mas que era capaz de trocar um milhão dessas pizzas por ficar aqui em Cuba.

Um jovem que veio da Espanha, contou-me que lá ficou sem trabalho e, logicamente, não tinha dinheiro para pagar a renda. A dona do apartamento lhe deu três meses de prazo, mas como não tinha dinheiro teve que ir para a rua, e que o mais triste do caso era que ninguém, nem seus amigos, o ajudaram, e teve que retornar porque a opção que tinha era dormir no metrô ou retornar para Cuba com seus pais. "Sempre é a família que te recebe", contou-me.

Então, eu penso muito nestes depoimentos, que muito bem poderiam servir para tantos jovens que não encontram nenhum bem-estar no fato de viverem em Cuba e que somente imaginam uma vida "de progresso" no exterior, ou avaliam a vida no exterior como uma vida de sucesso e oportunidades, mas eu pergunto: o que temos aqui que falta noutros lugares? O que descobriram a criança, o idoso ou o jovem que veio da Espanha, a partir de suas experiências lá, que nós não vemos aqui? Realmente, o modelo de vida que propõem as sociedades capitalistas contemporâneas constitui, atualmente, um modelo de bem-estar, apesar de ser vendido pelos meios de comunicação como o "sonho do progresso prometido"? Hoje, falamos da boa vida ou de viver bem, de vida cheia ou vida plena? 
Necessariamente, o desenvolvimento econômico e tecnológico é a única coisa que garante o bem-estar pessoal e social?
Vou fazer um esforço de síntese, a partir destas experiências profissionais, naquilo que, segundo eu considero, radicam algumas das bases do nosso modelo cubano de bem-estar.

EM PRIMEIRO LUGAR, NÃO SENTIR-SE EXCLUÍDO, NÃO VIVER A "ANOMIA SOCIAL"

Este é um tema de profundas conotações espirituais e éticas. Quando a gente chega a um bairro em Cuba e pergunta por uma pessoa, geralmente lhe dizem: "Mora naquela casa".Todos os cubanos temos um nome e uma biografia, porque todos temos espaço de pertença (família, escola, comunidade, local de trabalho) e de participação social, todos temos assumido alguma responsabilidade no bairro participamos das reuniões, votamos na mesma urna, compramos os produtos no mercado. Com certeza, nalgum momento temos dito: "Os mesmos rostos todos os dias, mas justamente aí radica um cenário vital de grandes dimensões humanistas e solidárias".

A anomia social ou, de acordo com as palavras do idoso que eu entrevistei, a frase "Você não existe", é contrária ao que vivemos em Cuba, é a experiência de viver sem ter um lugar, sem ser reconhecido ou advertido, e não se trata dum lugar físico, mas sim dum lugar simbólico, um lugar de pertença e participação, um lugar que dá sentido à vida. Viver num lugar assim é sentir-se isolado, em solidão existencial, é sentir-se estranho, e esse é um dos problemas do mundo atual. Inclusive, os lugares onde hoje coexistem muitas pessoas, mais do que lugares de encontros são especialmente "não lugares". É inconcebível que num metrô possam ir diariamente centenas de pessoas que não trocam uma palavra e que mostram maior contato com os meios tecnológicos, numa espécie de autismo técnico, que de pessoa a pessoa.

Outro "não lugar" são os aeroportos e os grandes mercados (catedrais do consumo): muitas pessoas juntas e absolutamente nenhum contato. Se a pessoa cair ao chão, ninguém a auxilia, porque, além do mais, existem tantas leis de "direitos cidadãos" que supostamente protegem as pessoas a partir de uma visão individualista, que ninguém a toca, sob o risco de ser acusado de acosso sexual. O "não contato" e a indiferença estão legislados.

Hoje em dia, a realidade social noutros países faz com que cada vez estejamos mais excluídos que incluídos. Independentemente das desigualdades sociais, como consequência das realidades econômicas atuais em Cuba, nossas políticas promovem a inclusão social, com o objetivo de eliminar a distância de gênero, cor da pele, capacidades físicas, orientação sexual. Cuba, como sistema social, apesar de todas as dificuldades e contradições, tenta construir um mundo para todos, onde a reciprocidade humana espontânea exista, a partir destas condições. Na "outra geografia", no mapa da globalização neoliberal, dividida em classes, os vínculos entre as pessoas estão afetados por diferenças dissímeis; as pessoas ficam afastadas entre elas por fronteiras invisíveis, que dilaceram a integridade e a participação.

OS ESPAÇOS DE SOCIALIZAÇÃO

Os espaços de socialização são muito importantes na vida, o conjunto social é o recurso, o sustento para todo sujeito, pois é claro que certamente é nele que uma pessoa pode desenvolver-se em seu potencial com plenitude. As famílias vivem atualmente isoladas, em muitas partes do mundo, e enquanto maior é o nível de vida, maior é o modo de vida enclaustrado.

Ninguém conhece o vizinho mais próximo, ninguém sabe como se chama, dentro das casas os membros não têm muito espaço face a face, pois a invasão da tecnologia é tal que um pai pode estar chateando com um colega no Japão, sem ter a menor ideia do que acontece com o filho no outro cômodo. Segundo estudos realizados noutras partes do mundo, o tempo de conversação olho nos olhos, que um pai dedica aos filhos, não passa de dez minutos diários.

Um dos grandes impactos do modelo capitalista hegemônico atual é o pouco tempo para a família ou para outros espaços comunitários, os dias entre semana a família como grupo "não existe", os horários extensivos e intensivos de trabalho dos pais, para poder cobrir as cada vez maiores exigências do consumo, fazem com que aqueles velhos rituais e tradições familiares sejam eliminados da vida cotidiana. Os psicólogos e sociólogos de muitos países expressam que os maiores impactos desta realidade são a solidão infantil e a ausência de vínculos com os idosos. Muitos jovens da classe média ou média alta chegam da escola sem que no lar apareça um rosto adulto, até horas avançadas, ou permanecem com uma pessoa que os cuida e lhes dá de comer, mas essa pessoa não substitui o carinho e a atenção dos pais.

Os meios tecnológicos aparecem como o antídoto à sociedade, mas sem nenhuma restrição dos adultos, o que pode produzir adição aos vídeogames, incrementar a violência, etc. É pouco frequente que as crianças e adolescentes dispunham, no mundo atual, das praças públicas, das ruas, dos parques ao ar livre como lugares de encontro porque não há segurança cidadã para isso. Os espaços temporais da rede urbana destinados para a juventude são vistos pelos adultos como lugares de ameaça e perigo, mais do que de lazer e construção de nexos sociais. Em Cuba, os parques e as praças continuam sendo lugares de socialização de diferentes gerações.

A família cubana é tecida em redes sociais de intercâmbio, com os moradores, com as organizações sociais, com a escola, com os familiares, incluídos os emigrados. O característico do modo de vida dos cubanos são os espaços de socialização, o tecido social que não exclui nem deixa sem nome ninguém. Eu diria que a célula básica da sociedade em Cuba, além da família como lar, o constitui a rede de intercâmbio social familiar e dos moradores do bairro; esse tecido social em redes representa uma das maiores fortalezas invisíveis do modelo cubano de bem-estar, é precisamente aí onde radica o maior sucesso do nosso processo social, a solidariedade social, a contenção social, o intercâmbio social permanente. Esse capital é somente perceptível para aquele que o perde e começa a viver outra vida fora do país.

Apesar de que temos dificuldades econômicas e problemas ainda sem resolver, em Cuba a família existe. A família cubana começa a viver intensamente, depois que as crianças saem da escola e os meninos, jovens e adolescentes fazem vida familiar-comunitária, a partir de que saem da escola.

A vida familiar em Cuba não se realiza à porta fechada. A porta dum lar cubano pode ser batida muitas vezes por muitas pessoas, pelos moradores do bairro, pela enfermeira, por um vendedor. O cubano tem que sair todos os dias para ir ao mercado, para visitar um vizinho, para ir à farmácia, para procurar os filhos na escola. A vida familiar em Cuba é vivida pelas várias gerações, onde todas as idades interagem, a maioria das pessoas idosas não vive em asilos, seu verdadeiro espaço, geralmente, é a comunidade.

A SOLIDARIEDADE SOCIAL NA CONTRAMÃO DO INDIVIDUALISMO

No cenário internacional atual o bem individual é mais importante que o bem social, o modelo de desenvolvimento econômico coloca as pessoas ante o desejo de viver "melhor" (às vezes, a custa dos demais) acima de viver todos bem. Hoje em dia, algumas pessoas dizem "eu não faço mal a ninguém, que ninguém me critique, eu gosto de fazer as coisas assim, é meu corpo, é minha vida, é meu espaço", escolhem a atuação que maximize os benefícios e os lucros. O "nós" se substitui pelo "eu". A conduta egoísta neste mundo hegemônico atual é denominada e bem ponderada como "racionalidade instrumental", quando realmente essa racionalidade oculta uma grande insensibilidade social.

Em nosso país, existe a solidariedade social, embora hoje vivamos uma sorte de paralelismo entre nossos comportamentos solidários e a insensibilidade de algumas pessoas. A socialização do transporte ou "dar carona", por exemplo, fazer dos teus vizinhos tua família, a socialização entre vizinhos dos telefones particulares, oferecer a casa particular como sala de aula depois dum furacão que afetou a escola, são exemplos do nosso intercâmbio solidário. Uma jovem contou-me numa ocasião que nas escolas, na hora da merenda, o grupo de amigas juntava o que traziam para comer e todas compartilhavam e comiam o mesmo. Para elas o mais importante era a amizade e a irmandade.

A CRIATIVIDADE E INTELIGÊNCIA COLETIVA

Em Cuba, além de que as pessoas podem conversar e intercambiar, pode dar-se o luxo de uma boa conversa com muitas pessoas. Nós todos sabemos de algo, todos podemos dar uma opinião ou podemos ter boas ideias, temos cultura política, cultura esportiva, ou alguns sabem muito de arte. Temos capital cultural acumulado e isso faz parte do nosso patrimônio social e do bem-estar invisível. Não somos ignorantes. Os cubanos e as cubanas impressionamos por nossa capacidade para conversar, para dar ideias e critérios. Um dos grandes problemas que tenho como psicóloga clínica é que o tempo passa muito rápido nas consultas, porque conversamos muito; algumas pessoas me trazem uma lista de coisas escritas para não esquecer o que desejam dizer. Estamos acostumados a dispor de muito tempo e isso é um luxo nos momentos atuais, quando ninguém tem tempo para nada, onde em todas as partes do mundo se vive a síndrome da pressa.

Nas minhas visitas para dar aulas em países latino-americanos, nos trabalhos de estudo sobre a família que os estudantes devem apresentar, a realidade familiar-social que apresentam me deixa perplexa, pelo número de problemas sociais acumulados, não só em famílias pobres, mas de qualquer classe social. Entendo pelo que escuto, que nós estamos a séculos de distância, porque o tema não é econômico, senão de ignorância, de pobreza mental acumulada, de estigmas sociais, preconceitos de classe, de gênero, de raça, violência contra a mulher, soluções mágicas aos problemas sem fundamento científico, abuso sexual infantil, poligamia, taras genéticas por uma sexualidade irresponsável ou sexo entre parentes, tudo isso são problemas cotidianos. São os problemas associados ao desamparo social, à ausência de programas sociais de prevenção. Para nós é exceção o que para eles é cotidiano.

Como professora, eu sinto que nossa população é culta e desenvolvida, e vivemos sem quase dar-nos conta. E embora o cotidiano aparentasse ser sem transcendência é o grande pano de fundo da história. Alguns jovens emigrados se dão conta desta realidade social tão diferente com a que têm que aprender a lidar.

COMO POTENCIALIZAR NOSSO MODELO CUBANO DE BEM-ESTAR?

O novo modelo econômico tem entre seus objetivos incrementar a produtividade. Com este novo modelo econômico o grande desafio é fortalecer nossa proposta cubana de bem-estar, que representa uma alternativa ao anti-modelo dominante, uma concepção que também compartilham e reiteram praticamente todos os povos indígenas do continente e do mundo e provem de uma grande tradição dentro de diversas manifestações religiosas.

Todas estas visões, incluída a cubana, é que o objetivo global do desenvolvimento, que não é ter cada vez mais, senão ser mais, não é entesourar mais riqueza, senão mais humanidade, se expressa em sua insistência de viver bem em vez de melhor, o que implica solidariedade entre todos, práticas de reciprocidade e o desejo de conseguir ou restaurar os equilíbrios com o meio ambiente e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de vida da população. Contudo, a melhora nas condições de vida não vai reverter sozinha os problemas de índole social que temos acumulado. A dimensão econômica não pode afastar-se das dimensões sociais, culturais, históricas e políticas que outorgam ao desenvolvimento um caráter integral e interdisciplinar, para recuperar como objeto fundamental o sentido do bem-estar e de convívio.

Não é preciso ser um cientista social para saber que, à margem das condições de vida, em nosso país existem muitas pessoas e famílias que mais do que pobreza material já têm instalada a pobreza espiritual. Algumas famílias têm pobreza mental, expressas em suas estratégias de vida afastadas dos mais elementares comportamentos decentes, em seus padrões de consumo distantes da realidade de nosso país, próximos da tendência material supérflua, em suas aspirações afastadas do bem-estar comum. Eis a cultura da banalidade e da frivolidade própria do modelo hegemônico atual.

A acumulação de problemas materiais, por causa da crise econômica da década de 90, deteriorou substancialmente os valores em nível social. Os valores não são só princípios, senão que devem ir acompanhados de comportamentos, para que não percam sua eficácia. 
Se a partir das práticas contradizemos os princípios, então estamos ante uma crise de valores.

Cuba não é alheia às influências hegemônicas do atual mundo unipolar e supostamente global. É preciso continuar tentando construirmos um modelo de bem-estar alternativo "à intempérie", sob todas as influências que gera a colonização da subjetividade, incluindo-nos, apesar do efeito modulador de nossas políticas sociais. No mercado não valem os ideais, mas sim a capacidade de consumo, os não-consumidores se tornam seres humanos "não reconhecidos", excluídos de todo tipo de reconhecimento social.

Atualmente, existe uma saturação de informação, algumas muito boas, mas outras cheias de mediocridade e superficialidade. Os meios de comunicação do atual modelo hegemônico fomentam a banalidade, com o objetivo de venderem mais. Somos saturados com romances, séries e filmes de violência que têm um poder de encantamento incrível porque cativam, mas corremos o risco de cair no ócio e na adição (drogas, álcool, sexo promíscuo, dinheiro fácil, videogames).

Quando o Prêmio Nobel da Paz, Gandhi, assinalou os sete pecados capitais da sociedade contemporânea referiu-se, precisamente, ao contexto global onde nos encontramos imersos: Riqueza sem trabalho, prazer sem consciência, conhecimento sem utilidade, comércio sem moralidade, ciência sem humildade, adoração sem sacrifício e política sem princípios.
No mais das vezes, a publicidade e o mercado associam o bem-estar ao prazer, a ter mais, ao sucesso, ao status.

É verdade que, caso não termos muita cultura, a tendência a pensar que ter significa bem-estar, e deixar-nos apanhar por todas as propostas de consumo, que crescem como "erva má", é submeter-nos à ignorância. A ética do ser requer de uma formação moral, de uma preparação, uma educação familiar, em geral de uma educação de maior envergadura e a isso é que temos que apostar como sociedade.

FOMENTAR A SOLIDARIEDADE SOCIAL

Com o fortalecimento do trabalho independente, a comunidade constitui o espaço vital de muitas famílias. Família-comunidade-organizações-trabalho se fortalecem em seus vínculos. Contudo, os novos cenários constituem uma magnífica oportunidade para fortalecer a vida comunitária, além de potencializar o trabalho em benefício do bem-estar comum. Cuba contribuiu com a diferença no sentido de solidariedade e responsabilidade social que temos incorporado.

Torna-se necessário potencializar uma cultura solidária e uma responsabilidade social que sirva de antídoto à entrada da cultura do mercado. É importante que as pessoas mantenham sua ética solidária, que não se fragmente o projeto coletivo. Embora o nome, e não a ideia do trabalho independente esteja sugerindo uma certa desvinculação social, que não representa nossa ética solidária.

FORTALECER O ESPAÇO COMUNITÁRIO

A família e a comunidade têm ganho em importância em Cuba, como cenários da vida nos tempos atuais. Quando algum visitante conhece nosso modelo de vida comunitário, em ocasiões expressam que no seu país antes se vivia assim, mas há mais de dez anos que se vive "com a porta fechada" e as casas vazias durante boa parte do dia. Isto é devido, em sua maioria, ao surgimento de novas tecnologias, a horários de trabalho cada vez mais extensos, à frequência com que mudamos de trabalho e de casas, e a cidades cada vez maiores e povoadas. O crescimento do individualismo está tornando cada vez mais difícil encontrar uma sensação de comunidade. A comunidade foi reduzida ao núcleo familiar mínimo, e nestas circunstâncias é muito fácil cair no isolamento, que leva à depressão e à solidão, provocando um colapso social, com resultados drásticos.

Quando as pessoas de todas as idades, grupos sociais e culturas sentem que pertencem a uma comunidade, tendem a ser mais felizes e saudáveis, e criam uma rede social mais forte, estável e solidária. Uma comunidade forte traz muitos benefícios, tanto ao indivíduo como ao grupo, ajudando a criar uma sociedade melhor. Nosso grande desafio é que nossas portas não se fechem, que não percamos a sensibilidade pelos outros, por nosso bairro e entorno, que continuemos preocupando-nos pelo bem-estar comum.

As diferentes formas de inserção à economia não têm deteriorado o tecido social existente porque não somos uma sociedade estratificada em classes sociais, mas sim tecida em redes familiares, entre vizinhos e entes sociais e mantemos uma ética solidária.

Uma aspiração importante é que na comunidade se encontrem soluções para muitos dos problemas sociais que temos, baseadas fundamentalmente nessa visão de comunidade como espaço potencializado na solução dos problemas. Para isso, será necessário maior dinamismo da comunidade em sua capacidade de influir nos problemas locais.

É importante manter o envolvimento dos cidadãos na vida social, preservar o cuidado dos nossos espaços, o respeito às pessoas idosas, aos meninos, às mulheres, às pessoas deficientes e, sobretudo, manter a responsabilidade social na educação das novas gerações.

Tomando em consideração todos estes elementos, considero que temos uma grande responsabilidade social de não perder nosso modelo cubano de bem-estar, que nosso país tem condições sem precedentes para marcar a diferença, que é preciso continuar resistindo a colonização da cultura e da subjetividade, que o grande desafio é continuar propondo outros modelos de ser humano e de coletividade que realmente indiquem caminhos de verdadeira humanização.

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