C
U B A Havana. 22 de Maio, de 2013
Uma
olhada ao modelo cubano de bem-estar
Dra.
PATRICIA ARES MUZIO
EM
muitas ocasiões, perguntei aos meus estudantes quais seriam as
principais razões para dizer que em Cuba é bom viver. A maioria das
vezes as respostas estão relacionadas com o acesso à saúde, à
educação e à previdência social e, com certeza, estes são os
pilares do nosso modelo socialista, mas para as pessoas jovens
constituem realidades tão assumidas, a partir do cotidiano, que se
tornam demasiado habituais ou ficam congeladas num discurso que, com
a força da repetição, se torna irrelevante.
Eu
me atreveria a dizer que existe um modelo cubano de bem-estar, que
tem sido assumido com tanta naturalidade acrítica e que fica
invisível para os nossos olhos ou, contraditoriamente instalado na
voz de muitos dos que já não estão, depois de tê-lo perdido, ou
de visitantes que vivem outras realidades em seus países de origem.
Da vida cotidiana em Cuba, o mais das vezes, se fala das
dificuldades, sobretudo de tipo econômico, mas poucas vezes se
escuta falar das nossas bondades e fortalezas.
Algumas
experiências profissionais me fazem pensar muito em nosso
socialismo, visto como cultura e civilização alternativa. Naquela
ocasião, quando um grupo de psicólogos e especialistas participamos
do retorno do garoto Elián González, este tema apareceu com muita
força. Recentemente, em consultas, conversando com algumas pessoas
idosas repatriadas, com crianças que por decisão de seus pais devem
ir a residir a outros países ou com jovens que retornaram da
Espanha, depois de viver a experiência de ficar sem trabalho e sem
dinheiro para pagar a renda, volta a ressurgir, a partir de suas
vivências, a ideia do modelo cubano de bem-estar.
Lembro
que quando o garoto Elián González estava nos EUA e o avô Juanito
lhe dizia pelo telefone que lhe estava construindo um rolimã para
quando retornasse, depois, no outro dia, o garoto aparecia na tevê
com um carro elétrico (um brinquedo) que parecia de verdade, que lhe
tinham dado como presente. Se os avós ou o pai lhe diziam que o
cachorro tinha saudades dele, no outro dia Elián aparecia com um
cachorro de Lavrador que lhe tinham presenteado. Se lhe diziam que
lhe tinham comprado um livrinho de Elpidio Valdés, depois Elián
aparecia vestido de Batman. Contudo, o carinho de sua família, o
amor de todos os que o esperaram, a solidariedade de seus amigos da
sala de aula, de suas professoras, puderam mais do que todas as
coisas materiais do mundo.
Há
pouco, conversando com um idoso que decidiu não retornar aos EUA,
depois de ter vivido 19 anos nesse país, me dizia: "É verdade
doutora, lá se vive com muitas comodidades, mas isso não é tudo na
vida, lá a gente não existe para ninguém". Contou-me que
passava muito tempo sozinho na casa, esperando que os filhos e os
netos retornassem do trabalho e da escola, que não podia sair, pois
segundo eles não podia conduzir sozinho, e que durante o dia o
bairro em que vivia sempre estava desolado, que ninguém tinha tempo
de conversar com ele. Numa visita que fez a outra filha que vive aqui
em Cuba, decidiu não retornar. Agora diz que faz exercícios no
parque, que joga dominó, que ajuda o neto nas tarefas da escola e a
dois amigos que tem; que conseguiu recuperar alguns amigos que deixou
aqui em Cuba e que com o dinheiro que lhe enviam e com a ajuda de sua
família aqui, tem suficiente para cobrir seus gastos. Em suas
palavras textuais, me disse: "Alguns conhecidos diziam-me que ia
vir para o inferno, mas realmente, sinto-me no paraíso".
Evidentemente, o modo de vida que tem agora não será o paraíso,
mas lhe provoca maior bem-estar.
Um
dia, trouxeram à minha consulta uma criança, filho de dois
diplomatas, que veio de férias e não queria retornar com os pais;
dizia que ela queria ficar com a avó, que ela não queria ir embora
de novo, que não gostava de estar lá. Quando perguntei aos pais o
que acontecia à criança, contaram-me que lá tinha que viver
encerrada por razões de segurança, que quase não tinha amigos para
compartilhar depois da escola, e que não estavam os primos aos quais
adorava. "Assim que chega aqui a Cuba é como se estivesse livre
— contaram-me os pais — vai para o parque com os amigos do
bairro, vai passear com os primos, joga beisebol e futebol na rua,
sempre está acompanhada dos avós, dos primos, dos tios". Na
entrevista com o garoto, me contou que os primos lhe diziam que ele
era tolo, porque queria ficar em Cuba, tendo a oportunidade de estar
noutro país. E ainda me contou que quando estava em Cuba sentia
imensas saudades da pizza de pimento, mas que era capaz de trocar um
milhão dessas pizzas por ficar aqui em Cuba.
Um
jovem que veio da Espanha, contou-me que lá ficou sem trabalho e,
logicamente, não tinha dinheiro para pagar a renda. A dona do
apartamento lhe deu três meses de prazo, mas como não tinha
dinheiro teve que ir para a rua, e que o mais triste do caso era que
ninguém, nem seus amigos, o ajudaram, e teve que retornar porque a
opção que tinha era dormir no metrô ou retornar para Cuba com seus
pais. "Sempre é a família que te recebe", contou-me.
Então,
eu penso muito nestes depoimentos, que muito bem poderiam servir para
tantos jovens que não encontram nenhum bem-estar no fato de viverem
em Cuba e que somente imaginam uma vida "de progresso" no
exterior, ou avaliam a vida no exterior como uma vida de sucesso e
oportunidades, mas eu pergunto: o que temos aqui que falta noutros
lugares? O que descobriram a criança, o idoso ou o jovem que veio da
Espanha, a partir de suas experiências lá, que nós não vemos
aqui? Realmente, o modelo de vida que propõem as sociedades
capitalistas contemporâneas constitui, atualmente, um modelo de
bem-estar, apesar de ser vendido pelos meios de comunicação como o
"sonho do progresso prometido"? Hoje, falamos da boa vida
ou de viver bem, de vida cheia ou vida plena?
Necessariamente, o
desenvolvimento econômico e tecnológico é a única coisa que
garante o bem-estar pessoal e social?
Vou
fazer um esforço de síntese, a partir destas experiências
profissionais, naquilo que, segundo eu considero, radicam algumas das
bases do nosso modelo cubano de bem-estar.
EM
PRIMEIRO LUGAR, NÃO SENTIR-SE EXCLUÍDO, NÃO VIVER A "ANOMIA
SOCIAL"
Este
é um tema de profundas conotações espirituais e éticas. Quando a
gente chega a um bairro em Cuba e pergunta por uma pessoa, geralmente
lhe dizem: "Mora naquela casa".Todos os cubanos temos um
nome e uma biografia, porque todos temos espaço de pertença
(família, escola, comunidade, local de trabalho) e de participação
social, todos temos assumido alguma responsabilidade no bairro
participamos das reuniões, votamos na mesma urna, compramos os
produtos no mercado. Com certeza, nalgum momento temos dito: "Os
mesmos rostos todos os dias, mas justamente aí radica um cenário
vital de grandes dimensões humanistas e solidárias".
A
anomia social ou, de acordo com as palavras do idoso que eu
entrevistei, a frase "Você não existe", é contrária ao
que vivemos em Cuba, é a experiência de viver sem ter um lugar, sem
ser reconhecido ou advertido, e não se trata dum lugar físico, mas
sim dum lugar simbólico, um lugar de pertença e participação, um
lugar que dá sentido à vida. Viver num lugar assim é sentir-se
isolado, em solidão existencial, é sentir-se estranho, e esse é um
dos problemas do mundo atual. Inclusive, os lugares onde hoje
coexistem muitas pessoas, mais do que lugares de encontros são
especialmente "não lugares". É inconcebível que num
metrô possam ir diariamente centenas de pessoas que não trocam uma
palavra e que mostram maior contato com os meios tecnológicos, numa
espécie de autismo técnico, que de pessoa a pessoa.
Outro
"não lugar" são os aeroportos e os grandes mercados
(catedrais do consumo): muitas pessoas juntas e absolutamente nenhum
contato. Se a pessoa cair ao chão, ninguém a auxilia, porque, além
do mais, existem tantas leis de "direitos cidadãos" que
supostamente protegem as pessoas a partir de uma visão
individualista, que ninguém a toca, sob o risco de ser acusado de
acosso sexual. O "não contato" e a indiferença estão
legislados.
Hoje
em dia, a realidade social noutros países faz com que cada vez
estejamos mais excluídos que incluídos. Independentemente das
desigualdades sociais, como consequência das realidades econômicas
atuais em Cuba, nossas políticas promovem a inclusão social, com o
objetivo de eliminar a distância de gênero, cor da pele,
capacidades físicas, orientação sexual. Cuba, como sistema social,
apesar de todas as dificuldades e contradições, tenta construir um
mundo para todos, onde a reciprocidade humana espontânea exista, a
partir destas condições. Na "outra geografia", no mapa da
globalização neoliberal, dividida em classes, os vínculos entre as
pessoas estão afetados por diferenças dissímeis; as pessoas ficam
afastadas entre elas por fronteiras invisíveis, que dilaceram a
integridade e a participação.
OS
ESPAÇOS DE SOCIALIZAÇÃO
Os
espaços de socialização são muito importantes na vida, o conjunto
social é o recurso, o sustento para todo sujeito, pois é claro que
certamente é nele que uma pessoa pode desenvolver-se em seu
potencial com plenitude. As famílias vivem atualmente isoladas, em
muitas partes do mundo, e enquanto maior é o nível de vida, maior é
o modo de vida enclaustrado.
Ninguém
conhece o vizinho mais próximo, ninguém sabe como se chama, dentro
das casas os membros não têm muito espaço face a face, pois a
invasão da tecnologia é tal que um pai pode estar chateando com um
colega no Japão, sem ter a menor ideia do que acontece com o filho
no outro cômodo. Segundo estudos realizados noutras partes do mundo,
o tempo de conversação olho nos olhos, que um pai dedica aos
filhos, não passa de dez minutos diários.
Um
dos grandes impactos do modelo capitalista hegemônico atual é o
pouco tempo para a família ou para outros espaços comunitários, os
dias entre semana a família como grupo "não existe", os
horários extensivos e intensivos de trabalho dos pais, para poder
cobrir as cada vez maiores exigências do consumo, fazem com que
aqueles velhos rituais e tradições familiares sejam eliminados da
vida cotidiana. Os psicólogos e sociólogos de muitos países
expressam que os maiores impactos desta realidade são a solidão
infantil e a ausência de vínculos com os idosos. Muitos jovens da
classe média ou média alta chegam da escola sem que no lar apareça
um rosto adulto, até horas avançadas, ou permanecem com uma pessoa
que os cuida e lhes dá de comer, mas essa pessoa não substitui o
carinho e a atenção dos pais.
Os
meios tecnológicos aparecem como o antídoto à sociedade, mas sem
nenhuma restrição dos adultos, o que pode produzir adição aos
vídeogames, incrementar a violência, etc. É pouco frequente que as
crianças e adolescentes dispunham, no mundo atual, das praças
públicas, das ruas, dos parques ao ar livre como lugares de encontro
porque não há segurança cidadã para isso. Os espaços temporais
da rede urbana destinados para a juventude são vistos pelos adultos
como lugares de ameaça e perigo, mais do que de lazer e construção
de nexos sociais. Em Cuba, os parques e as praças continuam sendo
lugares de socialização de diferentes gerações.
A
família cubana é tecida em redes sociais de intercâmbio, com os
moradores, com as organizações sociais, com a escola, com os
familiares, incluídos os emigrados. O característico do modo de
vida dos cubanos são os espaços de socialização, o tecido social
que não exclui nem deixa sem nome ninguém. Eu diria que a célula
básica da sociedade em Cuba, além da família como lar, o constitui
a rede de intercâmbio social familiar e dos moradores do bairro;
esse tecido social em redes representa uma das maiores fortalezas
invisíveis do modelo cubano de bem-estar, é precisamente aí onde
radica o maior sucesso do nosso processo social, a solidariedade
social, a contenção social, o intercâmbio social permanente. Esse
capital é somente perceptível para aquele que o perde e começa a
viver outra vida fora do país.
Apesar
de que temos dificuldades econômicas e problemas ainda sem resolver,
em Cuba a família existe. A família cubana começa a viver
intensamente, depois que as crianças saem da escola e os meninos,
jovens e adolescentes fazem vida familiar-comunitária, a partir de
que saem da escola.
A
vida familiar em Cuba não se realiza à porta fechada. A porta dum
lar cubano pode ser batida muitas vezes por muitas pessoas, pelos
moradores do bairro, pela enfermeira, por um vendedor. O cubano tem
que sair todos os dias para ir ao mercado, para visitar um vizinho,
para ir à farmácia, para procurar os filhos na escola. A vida
familiar em Cuba é vivida pelas várias gerações, onde todas as
idades interagem, a maioria das pessoas idosas não vive em asilos,
seu verdadeiro espaço, geralmente, é a comunidade.
A
SOLIDARIEDADE SOCIAL NA CONTRAMÃO DO INDIVIDUALISMO
No
cenário internacional atual o bem individual é mais importante que
o bem social, o modelo de desenvolvimento econômico coloca as
pessoas ante o desejo de viver "melhor" (às vezes, a custa
dos demais) acima de viver todos bem. Hoje em dia, algumas pessoas
dizem "eu não faço mal a ninguém, que ninguém me critique,
eu gosto de fazer as coisas assim, é meu corpo, é minha vida, é
meu espaço", escolhem a atuação que maximize os benefícios e
os lucros. O "nós" se substitui pelo "eu". A
conduta egoísta neste mundo hegemônico atual é denominada e bem
ponderada como "racionalidade instrumental", quando
realmente essa racionalidade oculta uma grande insensibilidade
social.
Em
nosso país, existe a solidariedade social, embora hoje vivamos uma
sorte de paralelismo entre nossos comportamentos solidários e a
insensibilidade de algumas pessoas. A socialização do transporte ou
"dar carona", por exemplo, fazer dos teus vizinhos tua
família, a socialização entre vizinhos dos telefones particulares,
oferecer a casa particular como sala de aula depois dum furacão que
afetou a escola, são exemplos do nosso intercâmbio solidário. Uma
jovem contou-me numa ocasião que nas escolas, na hora da merenda, o
grupo de amigas juntava o que traziam para comer e todas
compartilhavam e comiam o mesmo. Para elas o mais importante era a
amizade e a irmandade.
A
CRIATIVIDADE E INTELIGÊNCIA COLETIVA
Em
Cuba, além de que as pessoas podem conversar e intercambiar, pode
dar-se o luxo de uma boa conversa com muitas pessoas. Nós todos
sabemos de algo, todos podemos dar uma opinião ou podemos ter boas
ideias, temos cultura política, cultura esportiva, ou alguns sabem
muito de arte. Temos capital cultural acumulado e isso faz parte do
nosso patrimônio social e do bem-estar invisível. Não somos
ignorantes. Os cubanos e as cubanas impressionamos por nossa
capacidade para conversar, para dar ideias e critérios. Um dos
grandes problemas que tenho como psicóloga clínica é que o tempo
passa muito rápido nas consultas, porque conversamos muito; algumas
pessoas me trazem uma lista de coisas escritas para não esquecer o
que desejam dizer. Estamos acostumados a dispor de muito tempo e isso
é um luxo nos momentos atuais, quando ninguém tem tempo para nada,
onde em todas as partes do mundo se vive a síndrome da pressa.
Nas
minhas visitas para dar aulas em países latino-americanos, nos
trabalhos de estudo sobre a família que os estudantes devem
apresentar, a realidade familiar-social que apresentam me deixa
perplexa, pelo número de problemas sociais acumulados, não só em
famílias pobres, mas de qualquer classe social. Entendo pelo que
escuto, que nós estamos a séculos de distância, porque o tema não
é econômico, senão de ignorância, de pobreza mental acumulada, de
estigmas sociais, preconceitos de classe, de gênero, de raça,
violência contra a mulher, soluções mágicas aos problemas sem
fundamento científico, abuso sexual infantil, poligamia, taras
genéticas por uma sexualidade irresponsável ou sexo entre parentes,
tudo isso são problemas cotidianos. São os problemas associados ao
desamparo social, à ausência de programas sociais de prevenção.
Para nós é exceção o que para eles é cotidiano.
Como
professora, eu sinto que nossa população é culta e desenvolvida, e
vivemos sem quase dar-nos conta. E embora o cotidiano aparentasse ser
sem transcendência é o grande pano de fundo da história. Alguns
jovens emigrados se dão conta desta realidade social tão diferente
com a que têm que aprender a lidar.
COMO
POTENCIALIZAR NOSSO MODELO CUBANO DE BEM-ESTAR?
O
novo modelo econômico tem entre seus objetivos incrementar a
produtividade. Com este novo modelo econômico o grande desafio é
fortalecer nossa proposta cubana de bem-estar, que representa uma
alternativa ao anti-modelo dominante, uma concepção que também
compartilham e reiteram praticamente todos os povos indígenas do
continente e do mundo e provem de uma grande tradição dentro de
diversas manifestações religiosas.
Todas
estas visões, incluída a cubana, é que o objetivo global do
desenvolvimento, que não é ter cada vez mais, senão ser mais, não
é entesourar mais riqueza, senão mais humanidade, se expressa em
sua insistência de viver bem em vez de melhor, o que implica
solidariedade entre todos, práticas de reciprocidade e o desejo de
conseguir ou restaurar os equilíbrios com o meio ambiente e, ao
mesmo tempo, melhorar as condições de vida da população. Contudo,
a melhora nas condições de vida não vai reverter sozinha os
problemas de índole social que temos acumulado. A dimensão
econômica não pode afastar-se das dimensões sociais, culturais,
históricas e políticas que outorgam ao desenvolvimento um caráter
integral e interdisciplinar, para recuperar como objeto fundamental o
sentido do bem-estar e de convívio.
Não
é preciso ser um cientista social para saber que, à margem das
condições de vida, em nosso país existem muitas pessoas e famílias
que mais do que pobreza material já têm instalada a pobreza
espiritual. Algumas famílias têm pobreza mental, expressas em suas
estratégias de vida afastadas dos mais elementares comportamentos
decentes, em seus padrões de consumo distantes da realidade de nosso
país, próximos da tendência material supérflua, em suas
aspirações afastadas do bem-estar comum. Eis a cultura da
banalidade e da frivolidade própria do modelo hegemônico atual.
A
acumulação de problemas materiais, por causa da crise econômica da
década de 90, deteriorou substancialmente os valores em nível
social. Os valores não são só princípios, senão que devem ir
acompanhados de comportamentos, para que não percam sua eficácia.
Se a partir das práticas contradizemos os princípios, então
estamos ante uma crise de valores.
Cuba
não é alheia às influências hegemônicas do atual mundo unipolar
e supostamente global. É preciso continuar tentando construirmos um
modelo de bem-estar alternativo "à intempérie", sob todas
as influências que gera a colonização da subjetividade,
incluindo-nos, apesar do efeito modulador de nossas políticas
sociais. No mercado não valem os ideais, mas sim a capacidade de
consumo, os não-consumidores se tornam seres humanos "não
reconhecidos", excluídos de todo tipo de reconhecimento social.
Atualmente,
existe uma saturação de informação, algumas muito boas, mas
outras cheias de mediocridade e superficialidade. Os meios de
comunicação do atual modelo hegemônico fomentam a banalidade, com
o objetivo de venderem mais. Somos saturados com romances, séries e
filmes de violência que têm um poder de encantamento incrível
porque cativam, mas corremos o risco de cair no ócio e na adição
(drogas, álcool, sexo promíscuo, dinheiro fácil, videogames).
Quando
o Prêmio Nobel da Paz, Gandhi, assinalou os sete pecados capitais da
sociedade contemporânea referiu-se, precisamente, ao contexto global
onde nos encontramos imersos: Riqueza sem trabalho, prazer sem
consciência, conhecimento sem utilidade, comércio sem moralidade,
ciência sem humildade, adoração sem sacrifício e política sem
princípios.
No
mais das vezes, a publicidade e o mercado associam o bem-estar ao
prazer, a ter mais, ao sucesso, ao status.
É
verdade que, caso não termos muita cultura, a tendência a pensar
que ter significa bem-estar, e deixar-nos apanhar por todas as
propostas de consumo, que crescem como "erva má", é
submeter-nos à ignorância. A ética do ser requer de uma formação
moral, de uma preparação, uma educação familiar, em geral de uma
educação de maior envergadura e a isso é que temos que apostar
como sociedade.
FOMENTAR
A SOLIDARIEDADE SOCIAL
Com
o fortalecimento do trabalho independente, a comunidade constitui o
espaço vital de muitas famílias.
Família-comunidade-organizações-trabalho se fortalecem em seus
vínculos. Contudo, os novos cenários constituem uma magnífica
oportunidade para fortalecer a vida comunitária, além de
potencializar o trabalho em benefício do bem-estar comum. Cuba
contribuiu com a diferença no sentido de solidariedade e
responsabilidade social que temos incorporado.
Torna-se
necessário potencializar uma cultura solidária e uma
responsabilidade social que sirva de antídoto à entrada da cultura
do mercado. É importante que as pessoas mantenham sua ética
solidária, que não se fragmente o projeto coletivo. Embora o nome,
e não a ideia do trabalho independente esteja sugerindo uma certa
desvinculação social, que não representa nossa ética solidária.
FORTALECER
O ESPAÇO COMUNITÁRIO
A
família e a comunidade têm ganho em importância em Cuba, como
cenários da vida nos tempos atuais. Quando algum visitante conhece
nosso modelo de vida comunitário, em ocasiões expressam que no seu
país antes se vivia assim, mas há mais de dez anos que se vive "com
a porta fechada" e as casas vazias durante boa parte do dia.
Isto é devido, em sua maioria, ao surgimento de novas tecnologias, a
horários de trabalho cada vez mais extensos, à frequência com que
mudamos de trabalho e de casas, e a cidades cada vez maiores e
povoadas. O crescimento do individualismo está tornando cada vez
mais difícil encontrar uma sensação de comunidade. A comunidade
foi reduzida ao núcleo familiar mínimo, e nestas circunstâncias é
muito fácil cair no isolamento, que leva à depressão e à solidão,
provocando um colapso social, com resultados drásticos.
Quando
as pessoas de todas as idades, grupos sociais e culturas sentem que
pertencem a uma comunidade, tendem a ser mais felizes e saudáveis, e
criam uma rede social mais forte, estável e solidária. Uma
comunidade forte traz muitos benefícios, tanto ao indivíduo como ao
grupo, ajudando a criar uma sociedade melhor. Nosso grande desafio é
que nossas portas não se fechem, que não percamos a sensibilidade
pelos outros, por nosso bairro e entorno, que continuemos
preocupando-nos pelo bem-estar comum.
As
diferentes formas de inserção à economia não têm deteriorado o
tecido social existente porque não somos uma sociedade estratificada
em classes sociais, mas sim tecida em redes familiares, entre
vizinhos e entes sociais e mantemos uma ética solidária.
Uma
aspiração importante é que na comunidade se encontrem soluções
para muitos dos problemas sociais que temos, baseadas
fundamentalmente nessa visão de comunidade como espaço
potencializado na solução dos problemas. Para isso, será
necessário maior dinamismo da comunidade em sua capacidade de
influir nos problemas locais.
É
importante manter o envolvimento dos cidadãos na vida social,
preservar o cuidado dos nossos espaços, o respeito às pessoas
idosas, aos meninos, às mulheres, às pessoas deficientes e,
sobretudo, manter a responsabilidade social na educação das novas
gerações.
Tomando
em consideração todos estes elementos, considero que temos uma
grande responsabilidade social de não perder nosso modelo cubano de
bem-estar, que nosso país tem condições sem precedentes para
marcar a diferença, que é preciso continuar resistindo a
colonização da cultura e da subjetividade, que o grande desafio é
continuar propondo outros modelos de ser humano e de coletividade que
realmente indiquem caminhos de verdadeira humanização.
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