segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Escravidão, e não corrupção, define a sociedade brasileira.

LEITURA INDISPENSÁVEL para quem está tentando entender o Brasil:

Jessé Souza:
"Escravidão, e não corrupção, define a sociedade brasileira."

(ILUSTRÍSSIMA, Folha/UOL, 22/09)

Quem sintetizou a interpretação dominante do Brasil, que todos aprendemos nas escolas e nas universidades, foi Gilberto Freyre (1900-87). É a ideia de que viemos de Portugal e que de lá herdamos um jeito específico de ser. Para o autor de "Casa-Grande e Senzala" e para seguidores como Darcy Ribeiro (1922-97), essa herança era positiva ou, pelo menos, ambígua.

Sérgio Buarque de Holanda (1902-82), outro filho de Freyre, reinterpreta a ideia como pura negatividade em registro liberal. Cria, assim, o brasileiro como vira-lata, pré-moderno, emotivo e corrupto. Tal visão prevaleceu, e quase todos a seguem, de Raymundo Faoro (1925-2003), Fernando Henrique Cardoso e Roberto DaMatta a Deltan Dallagnol e Sergio Moro.

Essa é a única interpretação totalizante da sociedade brasileira que existe até hoje.

A "esquerda", entendida como a perspectiva que contempla os interesses da maioria da sociedade, jamais construiu alternativa a essa leitura liberal e conservadora. Existem contribuições tópicas geniais, mas elas esclarecem fragmentos da realidade social, não a sua totalidade, permitindo que, por seus poros e lacunas, penetre a explicação dominante.

A ausência de interpretação própria fez com que a esquerda sempre fosse dominada pelo discurso do adversário. Reescrever essa história é a ambição de meu novo livro, "A Elite do Atraso - Da Escravidão à Lava Jato" [Leya, 240 págs., R$ 44,90]. O fio condutor é a ideia de que a escravidão nos marca como sociedade até hoje —e não a suposta herança de corrupção, como se convencionou sustentar.

Para Faoro, por exemplo, a história do Brasil é a história da corrupção transplantada de Portugal e aqui exercida pela elite do Estado. Nessa narrativa, senhores e escravos raramente aparecem e nunca têm o papel principal.

Essa abordagem seria apenas ridícula se não fosse trágica. Faoro imagina a semente da corrupção já no século 14, em Portugal, quando não havia nem sequer a concepção de soberania popular, que é parteira da noção moderna de bem público. É como ver um filme sobre a Roma antiga cheio de cenas românticas que foram inventadas no século 18. Não obstante, o país inteiro acredita nessa bobagem.

ESCRAVIDÃO

Os adeptos dessa interpretação dominante parecem não se dar conta de que, em uma sociedade, cada indivíduo é criado pela ação diária de instituições concretas, como a família, a escola, o mundo do trabalho.

No Brasil Colônia, a instituição que influenciava todas as outras era a escravidão (que não existia em Portugal, a não ser de modo tópico). Tanto que a (não) família do escravo daquele período sobrevive até hoje, com poucas mudanças, na (não) família das classes excluídas: monoparental, sem construir os papéis familiares mais básicos, refletindo o desprezo e o abandono que existiam em relação ao escravo.

Também no mundo do trabalho a continuidade impressiona. A "ralé de novos escravos", mais de um terço da população, é explorada pela classe média e pela elite do mesmo modo que o escravo doméstico: pelo uso de sua energia muscular em funções indignas, cansativas e com remuneração abjeta.

Em outras palavras, os estratos de cima roubam o tempo dos de baixo e o investem em atividades rentáveis, ampliando seu próprio capital social e cultural (com cursos de idiomas e pós-graduação, por exemplo) e condenando a outra classe à reprodução de sua miséria.

A classe que chamo provocativamente de ralé é uma continuação direta dos escravos. Ela é hoje em grande parte mestiça, mas não deixa de ser destinatária da superexploração, do ódio e do desprezo que se reservavam ao escravo negro. O assassinato indiscriminado de pobres é atualmente uma política pública informal de todas as grandes cidades brasileiras.

A nossa elite econômica também é uma continuidade perfeita da elite escravagista. Ambas se caracterizam pela rapinagem de curto prazo. Antes, o planejamento era dificultado pela impossibilidade de calcular os fatores de produção. Hoje, como o recente golpe comprova, ainda predomina o "quero o meu agora", mesmo que a custo do futuro de todos.

É importante destacar essa diferença. Em outros países, as elites também ficam com a melhor fatia do bolo do presente, mas além disso planejam o bolo do futuro. Por aqui, a elite dedica-se apenas ao saque da população via juros ou à pilhagem das riquezas naturais.

INTERMEDIÁRIAS

Historicamente, a polarização entre senhores e escravos em nossa sociedade permaneceu até o alvorecer do século 20, quando surgiram dois novos estratos por força do capitalismo industrial: a classe trabalhadora e a classe média.

Em relação aos trabalhadores, a violência e o engodo sempre foram o tratamento dominante. Com a classe média, porém, a elite se viu contraposta a um desafio novo.

A classe média não é necessariamente conservadora. Tampouco é homogênea. O tenentismo, conhecido como nosso primeiro movimento político de classe média, na década de 1920, já revelava essas características, pois abrigava múltiplas posições ideológicas.

A elite paulistana, tendo perdido o poder político em 1930, precisava fazer com que a heterodoxia rebelde da classe média apontasse para uma única direção, agora em conformidade com os interesses das camadas mais abastadas. Como naquele momento os endinheirados de São Paulo não controlavam o Estado, o caminho foi dominar a esfera pública e usá-la como arma.

O que estava em jogo era a captura intelectual e simbólica da classe média letrada pela elite do dinheiro, para a formação da aliança de classe dominante que marcaria o Brasil dali em diante.

O acesso ao poder simbólico exige a construção de "fábricas de opiniões": a grande imprensa, as grandes editoras e livrarias, para "convencer" seu público na direção que os proprietários queriam, sob a máscara da "liberdade de imprensa" e de opinião.

A imprensa, todavia, só distribui informação e opinião. Ela não cria conteúdo. A produção de conteúdo é monopólio de especialistas treinados: os intelectuais. A elite paulistana, então, constrói a USP, destinando-a a ser uma espécie de gigantesco "think tank" do liberalismo conservador brasileiro, de onde saem as duas ideias centrais dessa vertente: as noções de patrimonialismo e de populismo.

LAVA JATO

Enquanto conceito, o patrimonialismo procede a uma inversão do poder social real, localizando-o no Estado, não no mercado. Abre-se espaço, assim, para a estigmatização do Estado e da política sempre que se contraponham aos interesses da elite econômica. Nesse esquema, a classe média cooptada escandaliza-se apenas com a corrupção política dos partidos ligados às classes populares.

A noção de populismo, por sua vez, sempre associada a políticas de interesse dos mais pobres, serve para mitigar a importância da soberania popular como critério fundamental de uma sociedade democrática —afinal, como os pobres ("coitadinhos!") não têm consciência política, a soberania popular sempre pode ser posta em questão.

É impressionante a proliferação dessa ideia na esfera pública a partir da sua "respeitabilidade científica" e, depois, pelo aparato legitimador midiático, que o repercute todos os dias de modos variados.

As noções de patrimonialismo e de populismo, distribuídas em pílulas pelo veneno midiático diariamente, são as ideias-guia que permitem à elite arregimentar a classe média como sua tropa de choque.

Essas noções legitimam a aliança antipopular construída no Brasil do século 20 para preservar o privilégio real: o acesso ao capital econômico por parte da elite e o monopólio do capital cultural valorizado para a classe média. É esse pacto que permite a união dos 20% de privilegiados contra os 80% de excluídos.

A atual farsa da Lava Jato é apenas a máscara nova de um jogo velho que completa cem anos.

Em conluio com a grande mídia, não se atacou apenas a ideia de soberania popular, pela estigmatização seletiva da política e de empresas supostamente ligadas ao PT —o saque real, obra dos oligopólios e da intermediação financeira, que capturam o Estado para seus fins, ficou invisível como sempre. Destruiu-se também, com protagonismo da Rede Globo nesse particular, a validade do próprio princípio da igualdade social entre nós.

O ataque seletivo ao PT, de 2013 a 2016, teve o sentido de transformar a luta por inclusão social e maior igualdade em mero instrumento para um fim espúrio: a suposta pilhagem do Estado.

Desqualificada enquanto fim em si mesma, a demanda pela igualdade se torna suspeita e inadequada para expressar o legítimo ressentimento e a raiva que os excluídos sentem, mas que agora não podem mais expressar politicamente.

Assim, abriu-se caminho para quem surfa na destruição dos discursos de justiça social e de valores democráticos —Jair Bolsonaro como ameaça real é filho do casamento entre a Lava Jato e a Rede Globo.

O pacto antipopular das classes alta e média não significa apenas manter o abandono e a exclusão da maioria da população, eternizando a herança da escravidão. Significa também capturar o poder de reflexão autônoma da própria classe média (assim como da sociedade em geral), que é um recurso social escasso e literalmente impagável."

JESSÉ SOUZA, 57, doutor em sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha), é autor de "A Tolice da Inteligência Brasileira" e "A Radiografia do Golpe" (Leya), além de professor de sociologia da UFABC.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

OS ESQUERDOPATAS

Do blog "socialista morena"

Fernando Horta
20 de setembro de 2017, 16h56
   

Quando você tiver sido molestada ou estuprada e ninguém estiver ao seu lado, sabe quem vai lutar com você? As feministas, aquelas esquerdopatas.
Quando você for demitido sem direitos e sem receber absolutamente nada para que possa sustentar sua família, sabe quem vai te defender? Os trabalhistas, aqueles esquerdopatas.
Quando você sofrer violência policial, for agredido, intimidado, sequestrado… Sabe quem vai te ouvir, acolher e ajudar nesta luta? Os defensores dos direitos humanos, aqueles mesmos esquerdopatas.
Quando tirarem de você as escolas públicas ou a oportunidade de um ensino superior gratuito e de qualidade, sabe quem vai estar lá fazendo greve e apanhando da PM pelos teus direitos? Os professores, aqueles esquerdopatas.
Quando passarem a te servir comida transgênica sem pesquisas suficientes e inundadas de agrotóxicos, sabe quem estará lá para te defender e lutar pela tua saúde alimentar? O MST, aqueles esquerdopatas.
Quando os juros forem tão altos e os salários tão baixos que você tenha perdido a dignidade social, sabe quem estará lá em greves, fazendo piquetes, organizando estudos contrapondo os absurdos? Os partidos de esquerda, obviamente esquerdopatas…
Quando você não acreditar que estão retirando teus direitos, tua aposentadoria e vendendo as riquezas do teu país, sabe quem estará lá votando contra, xingando, travando votação e etc.? Os esquerdopatas
Quando você estiver sendo agredido ou prejudicado em função do Deus que você ora, sabe quem estará lá ao seu lado encarando os fundamentalistas? Os ateus e defensores do estado laico, aqueles esquerdopatas.
Quando você estiver sem forças para negociar aumento de salário ou melhorias necessárias para o teu trabalho, sabe quem estará lá na linha de frente tomando bomba e gás na cara? Isso mesmo, os sindicalistas, aqueles esquerdopatas.
Quando você não acreditar que o governo, o Judiciário o Legislativo estejam retirando teus direitos, tua aposentadoria e vendendo as riquezas do teu país, sabe quem estará lá votando contra, xingando, travando votação e etc.? Os partidos de esquerda, cheios de esquerdopatas.
Enquanto isto, sabe onde estão o teu deputado defensor da “família”, o teu pastor defensor de “cristo”, o teu senador defensor da “liberdade” ou o teu ídolo defensor do “livre mercado”? Estão em casa descansando, aproveitando o dinheiro que ganharam defendendo os que eram contra ti e prometendo continuar te entregando em troca de mais dinheiro e poder.
“Esquerdopatas” são como as mãos, os pés, ou qualquer outro membro que você só sente falta quando perde. E este é o momento em que todos estamos perdendo. Pense.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O teatro que foi a cartaz na audiência em Curitiba

O teatro que foi a cartaz na audiência em Curitiba

Analisar um caso dentro da Operação Lava Jato exige casca nas mãos, pois já são anos dando murros em ponta de faca. Vale dizer que todo debate que se propõe a analisar o caso de forma imparcial para leitores e leitoras pressupõe, muitas vezes por má-fé, que o caso em questão será julgado da forma que se espera do bom funcionamento da máquina estatal, no caso o Poder Judiciário. Procurador acusa, defesa defende, juiz julga e cada um faz seu papel quando as instituições funcionam normalmente. Infelizmente, como muito se sabe e se percebe, há muito tempo não é assim na Operação Lava Jato. 
Segundo o Ministério Público Federal, Lula teria sido pago com dois imóveis a título de corrupção – no sentido moral e jurídico do termo -, em razão de oito contratos firmados entre a Petrobrás e a construtora Odebrecht. Um imóvel seria na rua Haberbeck Brandão, em São Paulo, onde supostamente viria a ser um dia a sede do próprio Instituto Lula. Já o outro imóvel seria o apartamento vizinho ao imóvel onde o ex-presidente mora em São Bernardo do Campo.
No caso que levou o ex-presidente Lula a Curitiba nessa semana, a militância petista e milhares de policiais fortemente armados – com altíssimo custo público de deslocamento, encargos extras e uso de equipamentos – para os arredores do Fórum Federal, não foi diferente. O caso, como se verá, cumpre o script judicial farsesco que é aplaudido por muitas pessoas informadas sobre todos os abusos, mas que nada falam ou protestam contra isso, seja por apatia, seja por conveniência política e social, seja por ignorância. 
Vamos ao caso no que se refere à acusação ao ex-presidente*.

A acusação
A acusação, contudo, apontou dois imóveis que são de posse e propriedade de outras pessoas. O apartamento está registrado no nome de Glaucos desde 2001 e o terreno – que nunca virou sede de Instituto nenhum, ora pois – esteve registrado no nome da construtora DAG e já foi, inclusive, passado para um terceiro. Atualmente, tal imóvel encontra-se à venda.
Do ponto jurídico, eis uma falha monumental acusatória: A ideia de que corrupção pode ser fundada em imóvel registrado em nome de outra pessoa física ou jurídica. Pessoas que não lidam com processo, acusação, defesa e prova podem até ter dificuldade para entender, mas quem se propõe a atuar na área jurídica e penal com seriedade sabe que posse e propriedade são conceitos sedimentados há séculos e que, na lógica jurídica, só é dono quem registra. Para tentar superar esse beco sem saída, a Lava Jato se apoia em um suposto conceito de propriedade de fato, algo que aos ouvidos de qualquer civilista soa capenga. 
Aplicado ao caso concreto, a hipótese acusatória fica ainda mais abalada, uma vez que no caso do imóvel pretensamente estabelecido a Lula só foi visitado por ele uma única vez (não havendo posse e nem propriedade, portanto), como também foi avaliado e rejeitado pela diretoria do partido. Já sobre Glaucos da Costamarques, proprietário do apartamento vizinho de Lula e apontado tanto como uma espécie de laranja, quando se olha o rastreamento do fluxo de seu dinheiro a compra do apartamento é anterior ao que teria recebido como propina para compra do imóvel. Essa propina seria referente à cessão de direitos do terreno pretensamente destinado, na visão acusatória, ao ex-presidente. Em outras palavras, o Ministério Público não conseguiu fechar a conta. 
A competência
A supercompetência da Lava Jato é um importantíssimo tema, mas que não recebe a atenção da mídia brasileira, e, consequentemente, não é de conhecimento do público em geral. Resumindo o debate: diversos juristas contestam o tamanho da abrangência da competência de Moro, que julga processos de todo o país e os mais variados contextos de acusação de corrupção.
A questão ganhou contornos ainda mais complexos quando o Supremo Tribunal Federal, ao julgar essa questão, afirmou que Moro somente poderia julgar casos de corrupção que tenha relação com a Petrobrás. Por isso, quando o magistrado e a força tarefa tem a intenção de julgar algo, basta que se levante uma argumentação de que o caso desejado tem conexão com a corrupção específica na companhia petrolífera brasileira. Nesses casos, o discurso da acusação e do magistrado é que estamos diante do “maior esquema de corrupção da história”.
A história, por funcionar por muito tempo, hoje é cristalizada sem grandes questionamentos que seriam necessários. Afinal, do ponto de vista jurídico, dizer o jargão  “maior esquema de corrupção da história” não diz quem, onde, por qual razão, quem pagou, quem recebeu, qual contrato da Petrobrás foi afetado, de que forma Lula interferiu e como foi a relevância para o resultado e demais explicações que seriam indispensáveis quando se acusa alguma pessoa sob a lógica processual penal brasileira. Acusação de tribunal deveria ser muito mais refinada e comprovada do que uma acusação de redes sociais.
Voltando, o debate é importante porque caso o MPF não responda todas essas questões – como, de fato, não respondeu – significa dizer que não foi comprovada a participação da Petrobrás e, logo, a competência para julgar não é de Sérgio Moro. Soma-se a isso o fato de Moro nítida e declaradamente ter uma disposição hercúlea para condenar, despindo-se completamente de qualquer remota possibilidade imparcial, como alertado no primeiro parágrafo desse artigo.
Na audiência, nenhuma pergunta foi feita sobre os 8 contratos da Petrobrás que justificariam a competência para a Lava Jato em Curitiba e que, na realidade, é a base da denúncia.
A audiência
Em meio a esse contexto, aconteceu uma audiência. Juiz e acusação sentaram-se em seus lugares com as formalidades e protocolos próprios de um ambiente jurídico, o qual cobre de verniz institucional um grande teatro com propósitos persecutórios. 
O verniz obriga o magistrado a fazer perguntas sem que esse contexto seja apresentado – o que traz, é claro, uma responsabilidade enorme dos veículos de mídia, que são em geral porta-vozes, meros reprodutores, ignorantes ou indiferentes quanto ao circo de Curitiba. Para quem assiste, fica a impressão de que algo sério está sendo perguntado ali, quando, na verdade, é só a fogueira que está sendo acesa.
Não à toa, depois do protocolo cumprido, de respostas dadas por um réu – o qual, tem suas contradições em vida, bem como desperta amor, ódio e ceticismo – a um juiz indisposto que irá distorcer o que foi dito, a audiência descamba para troca de farpas, como se fosse bate-boca de bar. Lula, enquanto cidadão réu de um processo injusto e político hábil, posiciona-se como mártir da democracia, um papel no mínimo exagerado, mas de outro lado compreensível porque a Operação Lava Jato ultrapassa qualquer limite de seriedade e confere toda a oportunidade para esse script.
Moro, de outro lado, aos poucos vai constrangendo cada vez seus fãs e a figura de herói se deteriora na velocidade em que mergulha nas contradições e incoerências morais que lhe são inevitáveis depois de tanto tempo perpetrando medidas abusivas. Seu lugar político tem cada vez mais decepcionado pessoas de convicções conservadoras esclarecidas, que não se confundem com séquitos de apoiadores de grupos de ultradireita e afins.
Quanto ao Ministério Público Federal, que vive uma crise institucional com seu chefe maior Rodrigo Janot em franca decadência e deterioração, não há mais na mesma intensidade a virulência de seus intocáveis contra tudo e todas. Quem lembra daquele profeta na coletiva do famigerado Power Point, decepciona-se ao vê-lo atualmente. Minha hipótese é que o tempo foi o senhor da razão, que cobra a conta, enverga e quebra quem vem há anos surfando no arbítrio. Profissionais decaíram no seu nível e a tendência é que se rebaixem ainda mais.
Por fim, a audiência também marca uma disputa nítida entre Moro e a Defesa do ex-presidente, ao passo que o magistrado tomou diversas medidas arbitrárias sobre as liberdades dos defensores, como, por exemplo, o grampo ilegal determinado contra pelo Juiz Federal contra todo escritório de advocacia capiteaneado neste processo por Cristiano Zanin Martins e Valeska Teixeira Zanin Martins. Soma-se a isso a ofensiva de Moro contra Roberto Teixeira Martins, advogado que foi denunciado no presente caso e que é fundador do Teixeira Martins Advogado. A relevância da série de abusos do magistrado contra a defesa decorre da percepção de que não se trata, no caso, de uma disputa acusação x defesa (como haveria de ser em um processo regular), mas sim de uma disputa juiz x defesa, o que torna a audiência ainda mais farsesca.
Brenno Tardelli é diretor de redação no Justificando.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Ferroviário 2 X 2 Fortaleza

Ferroviário 2 X 2 FORTALEZA - 15/01/2017
FICHA TÉCNICA
Fortaleza: 1-Marcelo Boeck; 2-Felipe, 3-Heitor, 4-Ligger e 19-Gastón Filgueira; 15-Jefferson (8-Vacaria), 5-Anderson Uchôa, 10-Rodrigo Andrade e 20-Cássio Ortega (6-Allan Vieira); 17-Gabriel Pereira (28-Maranhão) e 7-Juninho Potiguar. Técnico: Hemerson Maria.
Ferroviário: 1-Mauro; 2-Gustavo, 3-Erandir, 4-Túlio e 6-Jeanderson; 5-Jonathas, 8-Mimi (17-Glauber), 7-Vitor e 11-Raul (19-Carlos Alberto); 10-Valdeci (22-Adilton) e 9-Maxuell. Técnico: Marcelo Villar.
Subs: Sai Raul por Carlos Alberto aos 16min/2ºT, Sai Mimi por Glauber aos 18min/2ºT e Sai Valdeci por Adilton aos 22min/2ºT (Ferroviário); Sai Cássio Ortega por Allan Vieira aos 40min/1ºT, sai Gabriel Pereira por Maranhão aos 22min/2ºT e sai Jefferson por Vacaria aos 29min/2ºT (Fortaleza)
Gols: Maxuell aos 31min/1ºT e aos 24min/2ºT (Ferroviário); Gabriel Pereira aos 43min/1ºT e Jefferson aos 13min/2ºT (Fortaleza)
Cartões Amarelos: Gustavo e Jeanderson (Ferroviário); Anderson Uchôa (Fortaleza) 
Árbitro: Léo Simão - Assistentes: Armando Lopes e Batista Chaves 
Renda: R$ 97.995,00 - Público Pagante: 8.460 pessoas 

Não foi um bom jogo. Também não esperava nada além num começo de temporada.
Um time se dispôs a se defender e utilizar os contra-ataques. O outro rodava com a bola sem dar consequências. Apesar disso, quem levou mais perigo foi quem se dispôs a jogar no contra-ataque.
Não me cabe falar das estratégias e jogo do Ferrim. É um time fraco, que decidiu por uma estratégia e deu certo.
Não esperava um primor de jogo, mas esperava mais de alguns jogadores e, principalmente, um melhor posicionamento do Leão.
Não gosto de time que não posiciona meias ou atacantes abertos. Torna o lateral a única opção e abdica de ocupar aproximadamente 30 % da área de ataque.
Desta forma, o lateral chega sem forças para se confrontar com o outro lateral, que está descansado esperando. Creio que o lateral adversário teria de se preocupar com um meia ou atacante posicionado pelos lados do campo, e que a passagem de nosso lateral seria motivo adicional de preocupação para um dos volantes adversários.
Havendo isto, ou seja, o avanço do lateral, o mesmo pode se dar pela margem do campo ou afunilando, o que aumenta a preocupação do adversário, pois um dos zagueiros será obrigado a se posicionar para uma possível cobertura.
Creio que esse foi o principal erro de posicionamento do Leão, e que facilitou por demais o jogo do Ferrim.

Uma pitada de futebol II

Uma pitada de futebol II

Gostaria de escrever sobre coisas boas, mas parece difícil em nossa república de bananas. Só num mundo onde o fígado é o órgão encarregado do sentir e do pensar que se vive uma sensação de ódio latente.
Que o Felipe foi infeliz em suas declarações não se discute. Mas é o sonho de todo jogador jovem, inclusive de muitos desses que chegaram agora. É o sonho do garoto que está disputando a copinha em São Paulo.
O sonho é jogar num time maior. O sonho é jogar Real ou Barcelona. É jogar Chelsea ou Manchester.
Mas não enxergar uma promessa de suar e honrar a camisa, presente na mesma declaração, só como consequência da demência oriunda desse golpe paraguaio de 2016.
Mudando de assunto ...
Há tempos atrás escrevi sobre nosso calendário. O calendário do futebol brasileiro é feito para uma “meia dúzia” de clubes do sul “maravilha” e para atender às necessidades da rede globo. Nem quero discutir sobre o quanto a CBF ganha com esta opção de calendário.
O grande impasse e impedimento para um calendário justo, racional e competitivo é a presença da rede globo de televisão.
Não é o futebol que define suas prioridades, mas parece que as necessidades da globo provocam adequações no calendário, não se vendo o futebol como um todo, mas apenas a deliberada manutenção de uma “elite” de clubes, localizada nos estados “desenvolvidos”.
Essa elite, de apenas 15 times aproximadamente, tem suas necessidades atendidas.
Dane-se o futebol. Dane-se os outros clubes.

Uma pitada de futebol I

Uma pitada de futebol I

Hoje vejo serenidade na montagem do time. Arrotar grandeza nunca fez um time ser grande.
A grandeza histórica, nos moldes capitalistas, resulta de trabalho, resultados e história.
Lembro de quando caímos pela primeira vez para a série C. Tínhamos no ataque Artuzinho e Edmar, ex-seleção. Mas com atrasos nos pagamentos.
Prefiro um trabalho construído aos poucos, mas com planejamento e serenidade.
Um time só coloca em campo onze jogadores. Porque se contrataria trinta jogadores para o início de temporada?
Deveríamos contratar uma base para lapidarmos a partir dela, utilizando jogadores da base. Mas surge o primeiro problema: não temos bons jogadores na base.
Não posso culpar a atual diretoria com exclusividade. Mas também não posso absolvê-la. Afinal, já são passados dois anos dessa gestão.