quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A evolução, a internet e o mundo real (coitado), por Denis R. Burgierman

A evolução com seu sistema de recompensas manda bem demais. Mas o Zuckerberg hackeou

A evolução é muito esperta. Incríveis as coisas que ela faz: baleias-azuis, mitocôndrias, sequóias gigantes, fotossíntese, tiranossauros rex. Uma das sacadas mais espetaculares que a evolução inventou foi dotar os animais de um brilhante sistema de recompensas: a cada vez que fazemos algo certo, ganhamos de presente uma dose de prazer. É dopamina, que nos deixa felizões, e querendo mais. E aí aprendemos a continuar fazendo coisas certas.

Só por causa desse sistema seguimos existindo neste mundo. É ele que nos premia a cada vez que terminamos um trabalho bem feito, ou fazemos sexo, ou nos alimentamos bem. É ele também que nos estimula a investir tempo e energia na coisa mais difícil que existe: relações sociais e afetivas. Não fosse a busca por dopamina, que estímulo teríamos para cuidar dos filhos, dos amigos, da comunidade? Ficaríamos sozinhos, de papo para o ar, sem vontade para juntar uma galera e caçar um mamute, quanto mais para construir uma civilização ultra tecnológica globalmente conectada.

O problema é que essa civilização ultratecnológica globalmente conectada hackeou nosso sistema de recompensas. Mark Zuckerberg e sua turma descobriram um substituto de baixo custo para o prêmio que conseguimos cultivando relações complicadas. Basta uma fotografia fofa, uma piada engraçada ou – o mais eficaz de todos – uma declaração de ódio indignado e contagiante, e logo começam a pipocar afagos virtuais – joinhas, coraçõezinhos, gargalhadas, ou mesmo rostos furiosos cheios de empatia. São manifestações de aprovação à distância, suficientes para estimular o sistema de recompensas e inundar neurônios de dopamina. E aí o cérebro cuida do resto: aprende a querer mais. Viramos seres sedentos de curtidas.

O problema é que curtidas não servem para nada – experimente tentar pagar o supermercado com uma bacia de joinhas virtuais para você ver o que o caixa vai te dizer. Nosso sistema de recompensas, desenvolvido ao longo de milênios para nos induzir a fazer coisas certas, foi sequestrado pela tecnologia e agora é obrigado a nos dar uma dose, mesmo quando não fazemos nada de muito útil para a espécie.

Até aí, tudo bem. Nada demais. Faz séculos que deturpamos a finalidade do sistema de recompensas do cérebro para gerar pequenos prazeres. Usar drogas, apostar no caça-níqueis, jogar videogame – não faltam exemplos de comportamentos inúteis ou mesmo nocivos que são premiados com dopamina, e que acabam gerando dependência. Só que, no geral, nada disso resulta em consequências muito sérias para a sociedade. O dependente de drogas ou jogo faz mal para si mesmo, às vezes para quem está em volta, mas dificilmente vai muito além disso.

Só que dessa vez fomos um pouco longe demais na hackeada. Construímos um mundo virtual, movido a curtidas e a compartilhamentos, habitamos esse mundo com bilhões de avatares, e muitos de nós estamos passando boa parte dos dias lá dentro, entre posts do Facebook e mensagens do Whatsapp. Apesar de ser um mundo bidimensional, sem estímulo tátil, nem olfativo, nem gustativo, sem espaço para nossos corpos nem a possibilidade de tocar a pele de alguém, ele é vasto o suficiente para nos dar a ilusão de que a vida transcorre lá. Nossos amigos estão lá. Nossos ídolos também. E, quando trocamos curtidas ou mensagens, temos a ilusão de que estamos atando laços sociais e afetivos. Os mecanismos que a evolução nos deu para nos aliarmos a outras pessoas e fazermos coisas grandiosas – casas, cidades, civilizações – estão sendo empregados para construir grupos virtuais.

Esses grupos, motivados por curtidas e compartilhamentos, vão ficando cada vez maiores e mais importantes para a vida de seus membros. Nos últimos anos, começamos a ter um vislumbre da distopia que pode estar nos aguardando no caso de continuarmos imersos nesses mundos virtuais, desconectados das coisas reais. A hackeada tomou conta da política.

    Não tem a ver com a realidade: tem a ver com a dopamina liberada com a indignação nas redes sociais

Dois anos atrás, a mais sólida democracia do mundo, os Estados Unidos, caiu na mão de um zé mané, que jamais havia feito uma coisa decente no mundo real – passava a maior parte de seus dias mendigando curtidas nas redes sociais. Donald Trump é um personagem público há décadas – herdeiro de uma fortuna bilionária, carente de atenção, corrupto e mentiroso. Quem o conhece no mundo real sabe que ele é um goiaba. Mas, nas redes, ele é um gigante. Passou tantos anos hipnotizado pelo celular vociferando aos ventos sua indignação e dando pequenas satisfações dopamínicas a seus seguidores virtuais que acabou convencendo milhões de que ele é um líder. Foi eleito presidente sem praticamente conhecimento algum sobre os desafios do mundo real e a forma de encará-los. Agora, presidente, trata problemas complexos com soluções simplistas e irreais, que não os resolvem, mas atraem milhões de curtidas.

O problema não parou nos Estados Unidos, espalhou-se pelo mundo. Agora foi a vez do Brasil, que elegeu uma imensa bancada e um executivo de youtubers revoltados e whatsappers compulsivos, quase todos com sérios problemas psicológicos e carências afetivas, nenhum com muita experiência em resolver problemas reais, no mundo real. O novo presidente é um velho legislador que nunca foi capaz de escrever uma única lei que preste. O deputado federal mais votado é o filho dele, e a segunda mais votada é uma teórica da conspiração, cuja carreira jornalística medíocre foi encerrada com uma série de acusações de plágio. O Legislativo e o Executivo estão cheios de gente cuja fama vem unicamente de sua indignação online, e de sua capacidade de mobilizar a dopamina alheia. A política deixou de ter relação com o mundo real: estamos votando nas pessoas pela capacidade delas de indignar as outras nas redes sociais.

Como o critério é esse, as políticas públicas que eles propõem não têm nada a ver com resolver problemas – vingam as ideias que mais geram indignação. Mesmo que sejam uma completa estupidez. Todo mundo que entende de educação sabe que a Escola Sem Partido é a fórmula para uma educação ideológica e ineficaz. Todo mundo que entende de comércio exterior sabe que transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém é o caminho para irritar parceiros comerciais importantes, sem ganhar nada em troca. Todo mundo que entende de saúde sabe que enxotar médicos cubanos sem antes ter ao menos um plano para substituí-los é garantia de uma hecatombe médica em milhares de municípios onde nenhum médico brasileiro quer trabalhar. Não importa. Não tem a ver com a realidade: tem a ver com a dopamina liberada com a indignação nas redes sociais.

Resta torcer para que haja um limite. Nos Estados Unidos, parece que houve: os erros na área da saúde pública, que Trump desmontou, foram longe demais. A oposição venceu a eleição parlamentar, no mês passado, expondo histórias reais ultrajantes de crianças com doenças congênitas que ficaram sem cobertura médica para que o presidente ganhasse umas curtidas.

Que o mundo real se imponha logo sobre as ilusões das redes sociais aqui também. Enquanto isso, vê lá se me dá uma curtida por este texto, que também não sou de ferro.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.
https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2018/A-evolu%C3%A7%C3%A3o-a-internet-e-o-mundo-real-coitado

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Natal, por Guilherme Boulos

Por Guilherme Boulos.

Hoje é Natal. Quase um terço da população mundial celebra o nascimento de Jesus Cristo. Só no Brasil são mais de 160 milhões de cristãos. A data, é verdade, se tornou mais que tudo um grande evento comercial, mas vale a pena aproveitarmos a ocasião natalina para uma breve reflexão.

Jesus Cristo, do modo como nos apresenta a Bíblia, não era um apologeta da ordem e da tradição. Enfrentou os poderosos de seu tempo e defendeu ideias que a consciência dominante não podia admitir.

Não por acaso morreu na cruz, depois de perseguido, preso e torturado. Como gosta de lembrar Frei Beto, Jesus não morreu de hepatite na cama nem atropelado por um camelo em alguma esquina de Jerusalém. Morreu como preso político nas mãos do prefeito Pôncio Pilatos e dos sacerdotes judeus. Isso, as escrituras nos dizem.

Nos falam também sobre as razões que fizeram de Jesus tão odiado pelos poderosos. Defendeu a igualdade e os mais pobres, condenando aqueles que se apegavam demais às riquezas: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” (Mateus 19-24).

Defendeu a divisão dos bens, como signo da igualdade social: “Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos” (Lucas 1, 53). E assim o fez, partilhou o pão e os peixes entre todos (Marcos 6,41).

Jesus enfrentou também decididamente os preconceitos, como mostra o caso bíblico da mulher samaritana (João 4, 1-42). Acolheu os marginalizados (Marcos 7, 31) e foi misericordioso com as prostitutas (Lucas 7, 36-50). Combateu o ódio e intolerância.

Hoje, mais de dois milênios depois, nosso mundo permanece profundamente desigual. Os 2% mais ricos da população mundial detêm mais da metade de todas as riquezas, enquanto os 50% mais pobres detêm apenas 1%. Os donos do poder, via de rega, continuam atuando para manter esta estrutura de privilégios e reprimir o povo quando ousa enfrentá-la.

Muitos dos que hoje se dizem cristãos consideram a desigualdade como fato imutável e a legitimam pelo discurso hipócrita da meritocracia. Sem falar no ódio e na intolerância. Defendem o linchamento público de “marginais”, silenciam como cumplicidade ante a chacina da juventude negra nas periferias, ofendem homossexuais e toleram a agressão à mulheres.

Jesus dedicou sua vida à igualdade, justiça e paz entre os povos. Se reaparecesse em 2014, no Brasil, ficaria espantado com o que dizem e fazem muitos dos cristãos. Seria achincalhado com palavras inomináveis nas seções de comentários da internet. Seria chamado de bolivariano na avenida Paulista. Certa comentarista de telejornal o mandaria levar para casa a mulher adúltera que ele salvou do apedrejamento. E alguém, de dentro de algum carro no Leblon, gritaria a ele: “Vai pra Cuba, Jesus!”

Um coisa é certa. O Jesus de que a Bíblia nos conta, se vivesse hoje, estaria ao lado dos direitos sociais e humanos. Estaria com os sem-teto e os sem-terra, com os negros, as mulheres violentadas e os homossexuais vítimas de preconceito. Estaria com os imigrantes haitianos e defendendo – como o papa Francisco – o fim do vergonhoso embargo à Cuba.

Talvez fosse preso e torturado, do mesmo modo que milhares de brasileiros que não há muito lutavam por igualdade e justiça. Seria sem dúvida crucificado, desta vez não pelas autoridades romanas e os sacerdotes judeus, mas crucificado moralmente por muitos dos cristãos que, em seu nome insistem em combater tudo aquilo que ele defendeu.

Dizem que o Natal e a passagem de ano são momentos para reflexões e mudanças. Assim seja. Espero que muitos dos que partilham da fé cristã possam aproveitar a oportunidade natalina para inspirarem-se mais no exemplo de seu mestre.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Pobres milionários, por Cristiane Alves

https://jornalggn.com.br/noticia/pobres-milionarios-por-cristiane-alves

O problema do pobre é julgar que as conquistas são direitos adquiridos, logo, inalienáveis. Nada é inalienável ao sem poder.

Não ter consciência de classe faz com que o pobre ressoe a consciência alheia.

Fala por exemplo que "pobre" é acomodado, de uma posição só explicada pelos teóricos da experiência pós morte ou quase morte. Ali o individuo observa a si mesmo, seu corpo e os demais envolvidos, descreve tudo como se presente, no entanto a despeito de suas narrativas cheias de detalhes atestáveis pelos outros presentes, não estava ali. Ao menos não consciente.

Essa apropriação da consciência alheia é até bonita, porque pobre não pode ter riqueza, não pode ter auxílio do Estado, não pode ter afirmação, mas pode pensar no outro pobre como um fardo, o que não lhe trará riqueza mas alívio. No Brasil temos pobres de "almas ricas", quanto menos possuem mais milionariamente se expressam.

O despossuído que quer o iPhone, mesmo sem ter o dinheiro do bilhete de metrô pensa no objeto de desejo como uma passagem para a riqueza. Se possuem, estão autorizados a esmagar quem não tem. Querem ostentar a riqueza dos ricos e fazem.

Falam como ricos, mas cheios de erros de português. Um detalhe pouco importante. São norte americanos (quase), já que se sentem assim, se vêem nos filmes, se identificam. Só não falam inglês, detalhe só.

Então os ricos compram a mídia, que lhes representa uma vez que lhes é propriedade privada. A elite tem a linguagem, o dinheiro a consciência e os vendem para os idiotizados que as compram pagando caro em tempo de vida e nem percebem.

O iludido que defende ferrenhamente a meritocracia, que acredita ser parte da elite, morando numa cidade de 50.000 habitantes, que possui um comércio cheio de engodos fiscais mas com pintura nova e chamativa; mal sabe ler e escreve bisonhamente; que nunca conseguiria terminar os estudos não fosse o projeto de genocídio educacional implantado pelo PSDB e infelizmente nunca revogado, a progressão continuada no ensino fundamental e médio (extra oficialmente). Esse mesmo que olha a fotografia da criança em trabalho análogo à escravidão numa tentativa de fazer pensar a meritocracia e diz que todo trabalho escravo só existe porque as pessoas aceitam ser escravos, que é só denunciar. Esse é o proletário brasilero.

É o que, diante do poder daquele que lhe representa, menos como classe que por intelecto, se adornou de sábio. O sábio do contrário.

O sábio do contrário nunca leu nada, nunca estudou nada, nunca testou nada. Todo seu (des)conhecimento científico vem de sua fé, de inspirações de um divino que ele mesmo amolda. O divino de cada um é subordinado à quem o crê, mas é autoritário com o outro.

O desintelectual é sábio de coisas impossíveis de racionalizar, estando nisso sua proficiência. Ele tudo sabe, mas nada estuda.

"Cogito, ergo sum", a inocente concepção do filósofo e matemático francês René Descartes, está no rol de todo pensamento estruturado por séculos e destruídos por brasileiros. Descartes não está só. Com ele jazem Aristóteles que apenas por observar as estrelas compreendeu os hemisférios, Copérnico com seu Heliocentrismo; e Galileu com a esfericidade da Terra.

Dar poder aos ignorantes não é apenas vergonhoso, mas potencialmente perigoso.

Todos os que já creram nesse como o pais do futuro estão estupefatos. Nunca antes na história desse país se cogitou, de longe, a magnitude do atraso da elite brasileira. Nunca se mensurou o tamanho da inveja do pobre pela ignorância da elite.

Alguns dirão que não se pode generalizar, e como sempre digo o farei novamente. Não, tora unanimidade é burra, não se pode generalizar. Mas tampouco podemos analisar um comportamento coletivo logrando olhar cada indivíduo, um por vez, não creio possível nem brilhante.

Somos isso agora. Exemplos de um povo que prima pela ignorância. E em terra de líderes míopes, os dominados fazem filas voluntárias para que se lhes vazem os olhos.

Cristiane Alves - Formação em Geografia (licenciatura e bacharelado) - UNESP, Especialista em educação especial com ênfase em Altas Habilidades e Superdotação - UNESP

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O anti-PTismo


O anti-petismo elegeu Collor; o anti-petismo elegeu Maluf; o anti-petismo elegeu Pitta; o anti-petismo elegeu Serra; o anti-petismo elegeu Alckmin; o anti-petismo quase elegeu um criminoso para a presidência em 2014. O anti-petismo acabou com as escolas básicas de SP; o anti-petismo tirou a merenda das crianças; o anti-petismo acabou com as escolas de ensino médio de SP; o anti-petismo não fez nada pelo sistema hídrico de SP; o anti-petismo gastou 8 bi na despoluição do sistema Tietê; o anti-petismo tem a pior malha metroviária do terceiro mundo. O anti-petismo evitou que o país se tornasse a quinta economia do mundo, porque a globo não quis; o anti-petismo acabou com a indústria naval; o anti-petismo entregou o petróleo dos nossos netos; o anti-petismo acabou com a pesquisa científica. O anti-petismo arquivou todos os processos de corruptos não petistas; o anti-petismo elegeu os piores congressos da nossa história; o anti-petismo destruiu direitos de trabalhadores, aposentados e da nossa juventude. O anti-petismo destruiu o país e põe a culpa no petismo, com a mídia que pagamos com nossos impostos. Agora, o anti-petismo, com a inteligência que lhe é peculiar, decidiu que é preciso atirar para matar... (autor desconhecido)

_Via Alenir Kroeff_

sábado, 11 de agosto de 2018

Carta ao ex-presidente Lula, por Luciana Hidalgo.

Sr. Ex presidente,

       O que o senhor fez no Brasil foi uma revolução. Não uma Revolução Francesa, que guilhotinou cabeças da realeza para exigir na marra liberdade, igualdade, fraternidade. Não, o senhor não cortou cabeças, nem expulsou ricos de suas propriedades privadas como a Revolução Russa, tampouco roubou a poupança das classes abastadas (como aquele presidente eleito no Brasil em 1989 roubou). O senhor manteve as elites ricas e contentes, mas foi mexendo dia após dia nos mecanismos de poder que excluíam perversamente os pobres da nossa sociedade e negavam o que todo país decente deveria garantir: sua cidadania, isto é, sua dignidade.

       Por isso, de início,  seus microgestos, sutis, pouco saíam nos jornais, mas abalavam gradativamente as estruturas viciosas do poder. Sou leitora de Michel Foucault e atesto que o senhor fez genial e intuitivamente, na prática, num país periférico e violento, muito do que esse célebre filósofo francês teorizou sobre micropoder. O senhor modificou, programa após programa, a microfísica do poder no Brasil.

       Explico como: logo de início o senhor abriu crédito para ajudar pobres a comprar eletrodomésticos básicos; subsidiou a compra de tintas e materiais para que construíssem suas casas; criou o Banco Popular, ligado ao Banco do Brasil, permitindo que pobres tivessem conta em banco; levou iluminação elétrica aos recantos rurais mais atrasados pela escuridão (Luz para Todos); criou o Bolsa Família, tirando 36 milhões de brasileiros da miséria e obrigando seus filhos a voltar à escola; levou água para milhões de brasileiros que sofriam com a seca no interior semiárido (programa Cisternas, premiado pela ONU); inventou Minha Casa Minha Vida, distribuindo moradias Brasil afora; criou Farmácias Populares que vendiam medicamentos com descontos para a população de baixa renda; implementou cotas raciais e sociais em universidades, contribuindo para que jovens negros e/ou vindos de escolas públicas pudessem estudar e no futuro talvez escapar de serem assassinados nas ruas do Brasil; implantou o Prouni (Universidade Para Todos), oferecendo bolsas para alunos de baixa renda estudarem em faculdades particulares; aumentou o salário-mínimo acima da inflação; etc.

       Não me beneficiei pessoalmente de nenhum dos seus programas sociais, querido presidente. Sou brasileira privilegiada, nascida numa classe média da zona sul carioca. Fui jornalista nas maiores redações do Rio (Jornal do Brasil, O Globo, O Dia), depois virei escritora (premiada com dois Jabuti), fiz um doutorado e dois pós-doutorados em Literatura, na Uerj e na Sorbonne. E é justamente por isso, por tudo o que li, vi e aprendi, sobretudo na França onde morei durante anos, que posso dizer: países europeus só se desenvolveram porque aplicaram e aplicam projetos como os seus. Na França, por exemplo, o salário-mínimo é de uns R$ 4 mil (graças a décadas de greves e manifestações de trabalhadores “vândalos” por melhores salários); o seguro-desemprego dura de dois a três anos para que o desempregado não caia na miséria; há “locações sociais” que garantem moradia aos menos privilegiados; todos os remédios receitados nos hospitais públicos são dados ou subsidiados pelo governo etc.

       O problema, é que quando uma parte da elite brasileira visita Paris, só vê a grande beleza. Finge não ver que aquela beleza só se sustenta graças à aplicação justa de impostos. Sim, as classes mais abastadas lá têm consciência política, sabem que o equilíbrio social depende delas. No Brasil não. Tem brasileiro que gasta milhares de euros em turismo na França e na volta reclama dos R$ 300 dados mensalmente aos beneficiados do Bolsa Família.

       Sim, é difícil entender a mentalidade desses que frequentaram os melhores colégios particulares do Brasil. Até entendo, já que eu mesma cursei um dos melhores colégios particulares do Rio e não aprendi grande coisa. Lá não havia disciplinas como Literatura ou Filosofia, por exemplo, que nos ajudariam a ter um pensamento mais crítico. Que pena.

       Só aprendi o que era o mundo quando comecei a encarar a miséria do meu país de frente em vez de virar a cara ao passar por ela na rua. Ainda na adolescência participei de um grupo que dava comida para os sem-teto no Rio e pude ouvir suas comoventes histórias de vida. Depois virei jornalista e passei a ouvir mais pessoas, das mais variadas origens, das favelas, dos interiores, e suas justas reivindicações.

       Portanto, saiba, que não só o povo beneficiado pelos seus programas sociais está ao seu lado. Somos muitos escritores, artistas, professores de escolas e universidades, pessoas premiadas, com títulos, das mais diversas profissões. Justamente por termos lido tanto (livros, não apenas jornais e revistas), viajado, justamente porque conhecemos o Brasil profundo, entendemos a grandeza do que o senhor fez. Nós também somos esse povo.

       Aliás, há inúmeros políticos, historiadores, intelectuais estrangeiros nas maiores universidades da Europa que também o admiram. E se escandalizam, por exemplo, quando ouvem comentaristas brasileiros dizerem de forma tão elitista que o eleitor de Lula é “povão”, “nordestino”, “ignorante”, “petista”, “lulista”, “petralha”, “fanático”. Intelectuais estrangeiros se chocam com a criminalização de pobres, negros, índios e da própria esquerda no Brasil. E também se chocam quando o xingam de “populista”, como se o senhor usasse o povo. Ora, ora, mas o senhor é o povo.

       No mais,  não entrarei no mérito do seu julgamento. Primeiro porque não acredito em condenação sem provas. Segundo porque desde o golpe de 2016, que tirou do poder uma presidenta eleita pelo povo, desde o dia em que ficou provado (e gravado!) o conluio entre os Poderes “com o Supremo, com tudo”, não acredito mais nas nossas instituições.

Claro que a Lava Jato é importantíssima para o país, mas o partidarismo seletivo e o gosto pelo espetáculo a diminuem. Talvez por isso grandes juristas estrangeiros têm apontado falhas absurdas no processo que o condenou.
Como disse o advogado inglês Geoffrey Robertson em entrevista recente à BBC de Londres, “o Brasil tem um sistema de acusação totalmente ultrapassado, em que o juiz que investiga, supervisiona a investigação, é o mesmo que julga o caso – e sem um júri!”. Outro jurista disse o mesmo num artigo no jornal The New York Times. Enfim, como acreditar numa justiça personalista, que num piscar de olhos pode beirar o justiçamento?

       Nessas horas me lembro do que dizia Foucault: “Prender alguém, mantê-lo na prisão, privá-lo de alimentação, de aquecimento, impedi-lo de sair, de fazer amor, etc., é a manifestação de poder mais delirante que se possa imaginar. (...) A prisão é o único lugar onde o poder pode se manifestar em estado puro, em suas dimensões mais excessivas, e se justificar como poder moral.”

       Sabe, quando a perseguição ao senhor começou na mídia, me lembrei do Betinho. Quase ninguém mais se lembra dele, o sociólogo Herbert de Souza, que criou associações de combate à fome e de pesquisa sobre a Aids nos anos 1990, quando os programas sociais do Estado eram insignificantes. Pois bem, esse cara, que devia ser coroado por seu esforço descomunal pelos pobres, um dia acordou sendo linchado da forma mais violenta pela imprensa por ter recebido doações de bicheiros. Os “puros” do país o atacaram de todos os lados, logo ele, “o irmão do Henfil” ex-exilado, hemofílico e soropositivo, tão magrinho, fiapo de gente, um dos poucos a combater a fome no Brasil. Mas não, para os “puros”, nada do que ele fazia pelos pobres compensava esse grande “erro”. Como se no Brasil houvesse dinheiro realmente “limpo”.

       É, são assim os “puros”, os que não entendem a complexidade das lutas, os que fecham os olhos para as falcatruas dos ricos mas lincham o menino de rua da esquina, os que defendem uma ética que eles próprios não têm no dia a dia, enrolados em seus conchavos, compadrios, sonegações de impostos, corrupções de todo tipo. Das minhas andanças pelos bastidores do poder, posso dizer: os “puros”, mal acordam, já loteiam a alma.

       É claro, que o senhor, além dos acertos, também cometeu erros. Quem não erra? Confesso que no início do seu governo estranhei, por exemplo, a sua aliança com a escória da política brasileira (PMDB etc.). Mas logo entendi que sem isso nenhum, nenhum, nenhum dos seus programas que revolucionaram o Brasil seria aprovado. Não sem esse toma-lá-dá-cá, não sem o cafezinho com o inimigo. Sonho sim com uma política pura, mas como, quando, se nunca, nunca, nunca foi assim nesse país?

       Não vou, portanto, enumerar seus erros porque seus acertos os superam imensamente. Só a partir do seu governo entendi que a política pode muito mais do que o assistencialismo. Enquanto meus amigos e eu dávamos 50 quentinhas numa noite aos sem-teto do Rio, o senhor, com nossos votos, tirava milhões da miséria. Milhões de brasileiros.

       O senhor acreditou antes de tudo na política, não em revoluções sangrentas radicais, para mudar o Brasil. E mudou. Não sou “lulista” nem “petista” (nunca me associei a partido algum), muito menos “petralha”. Mas, graças ao senhor, agora eu e milhões de brasileiros passamos a acreditar na política. E só por isso vale lutar.

       Fico por aqui, no aguardo das eleições de outubro de 2018, quando um presidente de esquerda retomará o rumo desse Brasil desgovernado pelo conluio entre Poderes e onde, devido à corrupção, à leviandade e ao partidarismo das instituições, ideias fascistas se proliferam como bactérias.

Um grande abraço da
Luciana Hidalgo

Luciana Hidalgo é uma premiada escritora brasileira  reconhecida com prêmios internacionais

sábado, 9 de junho de 2018

A raiz do golpe contra a PETROBRAS

A raiz do golpe contra a Petrobras

por André Araújo

Porque a Petrobras se tornou vulneravel a esquemas de achacadores do mercado financeiro novaiorquino que se especializam em extorquir empresas cotadas na Bolsa de Nova York que tenham algum problema de compliance? São sempre os mesmos escritórios, um grupo fechado liderados pela Rosen Law Firm, todos são da mesma etnia, eles escolhem a caça e fundos abutres compram ações PARA PROCESSAR  empresas que tiveram algum desvio ético.

O problema foi CRIADO NO GOVERNO FHC. Não podendo privatizar a Petrobras, desejo intenso desse grupo, abriram o capital na Bolsa de Nova York, privatização indireta,  uma insanidade, na ânsia de parecer moderninho.

A PETROBRAS nada ganhou com isso absolutamente nada. Abriu o capital NÃO LEVANTOU DINHEIRO NOS EUA, apenas quis parecer uma empresa "americanizada", moderninha, de mercado. Seus presidentes ultraneoliberais Henri Reichstul e Francisco Gros, que nada entendiam de petróleo e nada tinham a ver com o setor, tipos com cara de "internacionais" sofisticados, Gros era diretor do banco de investimentos Morgan Granfell e Reichstul um parisiense, ligadíssimos ao mercado financeiro, praticamente estrangeiros no Brasil, figuras exóticas e mal explicadas.

Grandes PETROLEIRAS ESTATAIS como a STATOIL da Noruega, PEMEX do Mexico, ARAMCO da Arabia Saudita, QATAR Oil, do Qatar, , IRAQ NATIONAL PETROLEUm , do Iraque, NIOC , do Irã, RUSSNEFT, da Russia não fizeram essa loucura.

São empresas nacionais, instrumentos de uma estratégia nacional, ABRIR o capital muda toda a lógica da empresa, inves de servir ao Pais vai servir aos especuladores de Nova York e todo seu foco vira do avesso, inves de atender ao Pais que formou e capitalizou a empresa, a abertura do capital em Nova York vai torná-la objeto de especulação financeira, é preciso atender em primeiro lugar ao mercado e não ao País, às agências de rating, à Bloomberg, a empresa se apequena.

O Governo FHC cometeu essa desatino, jogou a PETROBRAS, a troco de nada, na rinha de galos da especulação deslavada, hoje dominada por "hedge" funds, fundos especulativos de todo tipo, abutres, um mundo de corsários e sujeitou a empresa aos caprichos das autoridades e dos juizes americanos que tem a cultura legal de mega indenizações, cem vezes maior que o prejuizo. É um meio jurídico amalucado e nada razoável, estranho aos nossos principios.

O Governo FHC foi absurdamente irresponsável, para atender à "clique" neoliberal da privatização descarada, das Landau, Franco, Gros, Reichstul, Malan, Bacha. Arida, jogou nossa maior e principal empresa no ringue mundial da especulação para nada. O que a Petrobras ganhou ao bater o martelo em Nova York, que vaidade infantil?

Não levantou dinheiro nos EUA, foi só um capricho "olha como somos modernos, estamos listados em Nova York" e lá vai um bando de idiotas basbaques tocar o sino porque a ação entrou no painel, que tolos, a conta jogam para os brasileiros.
A raiz do golpe contra a Petrobras, por André Araújo ? http://jornalggn.com.br/noticia/a-raiz-do-golpe-contra-a-petrobras-por-andre-araujo

Eleições em Cuba

COMO FUNCIONA O SISTEMA ELEITORAL EM CUBA:
https://jornalistaslivres.org/2018/04/como-funciona-o-sistema-eleitoral-em-cuba/

"As eleições municipais/provinciais ocorrem a cada 2 anos e meio. Já as eleições gerais (para a Assembleia Nacional do Poder Popular) ocorrem a cada 5 anos. As últimas ocorreram agora, em março. Em Cuba, o sistema eleitoral é similar ao parlamentarista, ou seja, o povo elege seus deputados, que vão eleger o Conselho de Estado e o presidente. Quem escolhe os candidatos em Cuba não são partidos políticos, e sim o próprio povo, nesta última cerca de 60% se inscreveram sem estarem vinculados à partido algum. Cada circunscrição (formada por um conjunto de bairros) escolhe, em assembleias abertas, um candidato, que irá para as eleições onde todos (cidade/província/país) poderão eleger, ou não, por meio de voto facultativo e secreto. Outro dado interessante é que algumas categorias (trabalhadores, mulheres, estudantes e pequenos agricultores) têm espaços reservados ( como cotas mesmo) no Parlamento. Esses elementos formam parte do que os cubanos chamam de Poder Popular, que preserva o contato permanente entre lideranças e a base. Outro fator importante é que em Cuba a paridade de gêneros é lei e respeitada em todos os âmbitos, cargos públicos, de direção, comando. Assim, as listas de votação obedecem a paridade. Esse ano, a Assembleia Nacional eleita é formada por pouco mais de 53% de mulheres.

Os parlamentares em Cuba, de qualquer nível (provincial ou nacional), não possuem qualquer benefício, nem salário, nada. Geralmente seguem atuando em suas áreas/profissões, ao mesmo tempo em que atuam em suas funções legislativas.

É verdade que Cuba tem um único partido, o PCC. Mas sua função não é executiva, é mobilizadora e de fiscalização das ações do Estado. O PCC formula premissas políticas para o país e envolve a população nas atividades (debates, consultas públicas, etc). Até 1991, o PCC auxiliava na definição de candidatos, mas deixou neste ano de ter essa função.

Não há necessidade de filiação para candidaturas. No ano passado, por exemplo, um conhecido opositor do “Partido Cuba Independente e Democrática”, se candidatou nas eleições municipais, mas obteve votos suficientes para eleger. Na maioria das vezes isso ocorre porque as eleições começam, na primeira fase, com a escolha de delegados (do Poder Popular) nos bairros e é quase sempre aí nesta fase que os opositores ficam, já que raramente obtém votos suficientes no próprio bairro para avançar nas outras etapas.

Yuniel O’farril, que vive em Miami, faz parte de um partido com alguma representação em Cuba, mas vive em Miami, o que dificulta na hora de disputar as fases eleitorais. O bairro não o reconhece como representante. O Partido Liberal também já lançou candidatos, como Silvio Benitez, derrotado em 2007 e 2010, e que também vive em Miami.

É importante dizer que não existe proibição em Cuba de fundação de outros partidos. Não há lei alguma com essa restrição. A questão é justamente a ja mencionada não exigência de filiação partidária para a participação política. Todos os partidos em Cuba são apenas acessórios, incluindo o PCC, não podem indicar candidatos nem fazer campanha. Isso faz com que a maioria dos partidos deixem de existir em poucas semanas, porque terminam não tendo função prática. A intenção de Cuba é fazer com que partidos sejam sempre programáticos, isto é, reflitam diferentes pensamentos políticos no país, e evitar que se transformem em balcões de negócios. Assim, tb o PCC exerce a função de qualquer partido: trabalho de base, pedagógico e de agitação. E até hoje não apareceu outro partido que alcance o mesmo grau de organização e de eficiência que o PCC, apesar dos milhares de dólares injetados todos os anos pelos EUA (valores oficiais, declarados anualmente pelo presidente como “financiamento da oposição democrática em Cuba “, uma aberração em termos internacionais).

Em relação à Fidel, tantas vezes chamado de “ditador”, na verdade foi eleito sucessivas vezes desde 1976. A circunscrição que o lançava era a de Santiago, onde ele nasceu. De lá ele era eleito para o Parlamento, depois indicado ao Conselho de Estado e em seguida reconduzido como presidente.

Raúl, de certa forma admitindo que ninguém alcançaria jamais o status de reconhecimento de Fidel, propôs que o limite de mandatos fosse de dois. Essa medida foi aprovada e passou a valer já para ele, eleito presidente em 2007 e reeleito em 2012. Daí porque esse ano, o novo presidente eleito é Miguel Díaz Canel."

O socialismo, por Antônio Cândido

ANTONIO CANDIDO (1918-2017)

"O socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: 'o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana'. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na 'Ideologia alemã': as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo."

Antonio Candido, em entrevista ao jornal Brasil de Fato, 8 de agosto de 2011, "O socialismo é uma doutrina triunfante", por Joana Tavares.

Porque Lula está preso? Explicação a um gringo.

Fernando Horta:

O Brasil de Temer faz a gente passar vergonha. Hoje tentei explicar a um amigo norte-americano o caso Lula.

- E por que Lula está preso?
- Porque um juiz disse que ele recebeu um apartamento como propina.
- Entendi, acharam um apartamento no nome dele...
- Não o apartamento não está no nome dele
- Sim, acharam no nome da esposa...
- Não, não está no nome da esposa também.
- Ok, acharam no nome dos filhos...
- Também não.
- No nome de uma amante?
- Não...
- De um assessor?
- Não.
- Então Lula morava lá e usava o apartamento?
- Nunca ele ou qualquer pessoa passou uma noite sequer no tal apartamento.
- Bom... Quais foram os atos que ele praticou para receber o apartamento?
- O juiz não sabe e tem duas empresas de auditoria internacional que atestaram que não houve nenhum.
- Qual o valor da corrupção toda.
- Eles calculam em 1% do faturamento da Petrobrás. 1,5 bilhões, parece...
- E Lula era o chefe?
- O juiz diz que sim...
- E quando custa o apartamento?
- Um milhão de reais, parece...
- Mas o "chefe" ganhou só isto?
- Não, segundo o juiz ganhou menos porque Lula tinha pago já metade em cotas de imóveis da empresa.
- Então Lula está preso por um apartamento que não é seu, nem de filhos ou parentes, que ele nunca passou uma noite. Nem ele nem parentes. Que o juiz não sabe dizer quais atos de corrupção ele praticou e pelo qual ele já tinha pago legalmente quase metade do custo, é isto?
- Não. Lula tá preso porque tem 59% das intenções de voto.
- Ahhh bom, agora faz sentido... Mas o Brasil prende opositores políticos?
- Sim.
- Mas isto não é democrático.
- Exato, agora tu tá entendendo.
- Mas isto é golpe!
- É sim...
- Mas então temos que fazer alguma coisa!

E Lula acaba fazendo um norteamericano querer entrar na resistência...

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Não precisamos de intervenção militar. Já temos a judicial-midiática

http://www.tijolaco.com.br/blog/nao-precisamos-de-intervencao-militar-ja-temos-judicial-midiatica/

Por Fernando Brito

Janio de Freitas e Teresa Cruvinel, na Folha e no JB, alertam contra o despudor com que se pede uma nova ditadura no Brasil.

“A sem-cerimônia com que a conclamação à “intervenção militar” passou dos testes tímidos, aqui e ali, à explicitude urrada, por voz e por escrito, estendeu-se no país”, diz Janio, advertindo que  é ” grande o risco de que o slogan não saia das ruas em ebulições no futuro próximo. A população mal informada, carente de percepção política e sugada pela crise não pode ser obstáculo à pregação do salvamento ilusório”.

Cruvinel avisa que “há mais que discurseira irresponsável nessa loucura. E já tendo o país sangrado tanto, já tendo o governo errado tanto, tem a obrigação de identificar e punir os que atentam contra as democracia. A Constituição considera crime inafiançável e imprescritível (artigo 5º., inciso XLII) “a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”.

Mas quem é o “pai da criança” das pseudosoluções à força senão o sistema judicial-midiático que, tal como pregam que os militares o façam, assenhoreou-se da vida brasileira e fez substituir a legitimidade dada pelo voto pela legalidade de sua vontade e de seus propósitos?

Claro e evidente está que os adeptos da ditadura, sem o aspecto tosco dos que pedem um regime militar – de resto anacrÔnico como forma de dominação em pleno século 21 e sua irreprimível capacidade de comunicação – são outros.

Pouco importa que usem a lei e a Constituição como escudo, se a umas e à outra moldam e fazem funcionar segundo sua vontade?

Não tem impeachment sem crime de responsabilidade? Cria-se um, de nome jocoso: “pedaladas”. Não há posse ou propriedade de um apartamento a provar corrupção? “Atribui-se” um a Lula. Há gravações de malas de dinheiro, de que “a gente mata ele antes que faça delação”, há contas de milhões na Suíça? Solte-se e se empurre com a barriga, porque estes não são “daqueles” que interessam.

Estamos mesmo numa democracia, ainda? Formalmente, pode ser, por enquanto, porque ainda não se cancelaram, senão pela interdição do candidato favorito, as eleições.

Mas como dizer que temos um regime democrático se a política, ferramenta com a qual se o exerce, está acuada em um canto, torcendo para que jornais, tevês e juízes não lhes apontem o dedo e decretem a execução de quem quiserem?

Não são os lunáticos hidrófobos que ameaçam a democracia e a liberdade no Brasil. Eles são produto de algo muito pior: a glorificação da estupidez e a moralidade dos cínicos, cúmplices e beneficiários de um sistema de espoliação do Brasil que é, perdoem-me a grosseria, com um “vende esta merda”, como se este não fosse, ao menos para a imensa maioria, o país que temos e no qual estamos fadados a viver e criar filhos e netos.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

O socialismo, por Antônio Cândido

..."O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar ao paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno”.
... Um abraço, Antonio Candido.

ANTONIO CANDIDO (1918-2017)

"O socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: 'o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana'. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na 'Ideologia alemã': as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo."

Antonio Candido, em entrevista ao jornal Brasil de Fato, 8 de agosto de 2011, "O socialismo é uma doutrina triunfante", por Joana Tavares.

Eleições em Cuba

https://jornalistaslivres.org/2018/04/como-funciona-o-sistema-eleitoral-em-cuba/

As eleições municipais/provinciais ocorrem a cada 2 anos e meio. Já as eleições gerais (para a Assembleia Nacional do Poder Popular) ocorrem a cada 5 anos. As últimas ocorreram agora, em março. Em Cuba, o sistema eleitoral é similar ao parlamentarista, ou seja, o povo elege seus deputados, que vão eleger o Conselho de Estado e o presidente. Quem escolhe os candidatos em Cuba não são partidos políticos, e sim o próprio povo, nesta última cerca de 60% se inscreveram sem estarem vinculados à partido algum. Cada circunscrição (formada por um conjunto de bairros) escolhe, em assembleias abertas, um candidato, que irá para as eleições onde todos (cidade/província/país) poderão eleger, ou não, por meio de voto facultativo e secreto. Outro dado interessante é que algumas categorias (trabalhadores, mulheres, estudantes e pequenos agricultores) têm espaços reservados ( como cotas mesmo) no Parlamento. Esses elementos formam parte do que os cubanos chamam de Poder Popular, que preserva o contato permanente entre lideranças e a base. Outro fator importante é que em Cuba a paridade de gêneros é lei e respeitada em todos os âmbitos, cargos públicos, de direção, comando. Assim, as listas de votação obedecem a paridade. Esse ano, a Assembleia Nacional eleita é formada por pouco mais de 53% de mulheres.

Os parlamentares em Cuba, de qualquer nível (provincial ou nacional), não possuem qualquer benefício, nem salário, nada. Geralmente seguem atuando em suas áreas/profissões, ao mesmo tempo em que atuam em suas funções legislativas.

É verdade que Cuba tem um único partido, o PCC. Mas sua função não é executiva, é mobilizadora e de fiscalização das ações do Estado. O PCC formula premissas políticas para o país e envolve a população nas atividades (debates, consultas públicas, etc). Até 1991, o PCC auxiliava na definição de candidatos, mas deixou neste ano de ter essa função.

Não há necessidade de filiação para candidaturas. No ano passado, por exemplo, um conhecido opositor do “Partido Cuba Independente e Democrática”, se candidatou nas eleições municipais, mas obteve votos suficientes para eleger. Na maioria das vezes isso ocorre porque as eleições começam, na primeira fase, com a escolha de delegados (do Poder Popular) nos bairros e é quase sempre aí nesta fase que os opositores ficam, já que raramente obtém votos suficientes no próprio bairro para avançar nas outras etapas.

Yuniel O’farril, que vive em Miami, faz parte de um partido com alguma representação em Cuba, mas vive em Miami, o que dificulta na hora de disputar as fases eleitorais. O bairro não o reconhece como representante. O Partido Liberal também já lançou candidatos, como Silvio Benitez, derrotado em 2007 e 2010, e que também vive em Miami.

É importante dizer que não existe proibição em Cuba de fundação de outros partidos. Não há lei alguma com essa restrição. A questão é justamente a ja mencionada não exigência de filiação partidária para a participação política. Todos os partidos em Cuba são apenas acessórios, incluindo o PCC, não podem indicar candidatos nem fazer campanha. Isso faz com que a maioria dos partidos deixem de existir em poucas semanas, porque terminam não tendo função prática. A intenção de Cuba é fazer com que partidos sejam sempre programáticos, isto é, reflitam diferentes pensamentos políticos no país, e evitar que se transformem em balcões de negócios. Assim, tb o PCC exerce a função de qualquer partido: trabalho de base, pedagógico e de agitação. E até hoje não apareceu outro partido que alcance o mesmo grau de organização e de eficiência que o PCC, apesar dos milhares de dólares injetados todos os anos pelos EUA (valores oficiais, declarados anualmente pelo presidente como “financiamento da oposição democrática em Cuba “, uma aberração em termos internacionais).

Em relação à Fidel, tantas vezes chamado de “ditador”, na verdade foi eleito sucessivas vezes desde 1976. A circunscrição que o lançava era a de Santiago, onde ele nasceu. De lá ele era eleito para o Parlamento, depois indicado ao Conselho de Estado e em seguida reconduzido como presidente.

Raúl, de certa forma admitindo que ninguém alcançaria jamais o status de reconhecimento de Fidel, propôs que o limite de mandatos fosse de dois. Essa medida foi aprovada e passou a valer já para ele, eleito presidente em 2007 e reeleito em 2012. Daí porque esse ano, o novo presidente eleito é Miguel Díaz Canel.

Falácia - dedicado aos coxinhas paneleiros

O que é uma Falácia:

Falácia significa erro, engano ou falsidade. Normalmente, uma falácia é uma ideia errada que é transmitida como verdadeira, enganando outras pessoas.

No âmbito da lógica, uma falácia consiste no ato de chegar a uma determinada conclusão errada a partir de proposições que são falsas.

A filosofia de Aristóteles abordou a chamada “falácia formal” como um sofisma, ou seja, um raciocínio errado que tenta passar como verdadeiro, normalmente com o intuito de ludibriar outras pessoas.

De acordo com a lógica filosófica aristotélica, a “falácia informal” difere-se da formal, principalmente pelo fato da primeira usar de raciocínios válidos, a princípio, para chegar a resultados que sejam inconsistentes e com premissas falsas.

Ao contrário das falácias formais, que são mais fáceis de identificar, as falácias informais, por apresentar uma forma lógica válida, podem ser de difícil identificação.

Falácia também pode ser sinônimo de ardil ou logro, uma atitude que tem como objetivo obter vantagem sobre outra pessoa, enganando-a. Muitas vezes está relacionado com a falta de honestidade.

Com origem no termo em latim fallacia, esta palavra indica a característica ou propriedade de algo que é falaz, ou seja, engana ou ilude.

Em alguns casos, falácia também pode indicar gritaria ou falatório, uma confusão causada pelo barulho de muitas vozes.
Falácia do espantalho

A falácia do espantalho (ou falácia do homem palha), consiste na distorção de um argumento e a tentativa de descredibilização do argumento distorcido, para refutar o argumento original (não distorcido). É uma estratégia errada porque o argumento que é refutado não é o argumento que foi inicialmente apresentado.

Vejamos o exemplo da troca de argumentos entre duas pessoas:

João: “Os menores de 21 anos deveriam ser proibidos de comprar bebidas alcoólicas”.

Pedro: “Isso é incentivar que pessoas com mais de 80 anos consumam mais e vendam álcool para os menores de 21 anos! Isso é inadmissível!”

Neste exemplo, o Pedro distorceu o argumento do João, "colocando palavras na sua boca", para tentar refutá-lo.
Falácias lógicas

Existem diversos tipos de falácias lógicas, sendo que cada uma é focada num método ou técnica diferente de tentar convencer a partir de um argumento falso.

Por exemplo, um “falso dilema” consiste na apresentação de duas opções / alternativas como únicas, quando na verdade existiria uma terceira ou várias outras hipóteses além daquela que foi apresentada.

Outro exemplo de falácia lógica é aquela argumentação que é ligada aos motivos em vez da racionalidade, como o apelo à piedade, apelo à força, apelo ao povo, entre outros apelos sentimentais.
Falácia Naturalista

A falácia naturalista é uma concepção filosófica criada pelo filósofo inglês George Edward Moore e George Robert Price.

Este conceito revela o erro de pensar que um determinado atributo ou propriedade é natural e tem origem na vertente física. Um exemplo é assumir que o bem ou o altruísmo do ser humano (ou outros comportamentos éticos) são definidos como propriedades naturais.

Além disso, esta falácia revela o conflito entre o "é" e o "deve ser".

domingo, 27 de maio de 2018

Voando no pescoço da ignorância

"Almoço, no boteco do condomínio. TV ligada no jornal Hoje.
Aviso: quanto mais irônica eu fico aqui, mais pistola eu tô na vida real.

Dois caras irritadíssimos pq estavam sem combustível - dois trabalhadores. Falavam: "foi pra isso que tiraram a Dilma?

Eu completei:

- É, tira a Dilma que tudo melhora! Primeiro a gente tira a Dilma, depois a gente se fode!

Um dos caras, que até então estava calado, abriu a boca para falar:

- Tem que acabar com esses ladrões comunistas!

Não perdoei:

- O senhor sabe o que é comunismo? Sabe como se define o comunismo?

- Comunismo é a Venezuela!

-Não. Venezuela é um país do norte da América do Sul que faz fronteira com Colômbia, Brasil e Guiana. E tem princípios bolivarianistas, que nada têm de comunistas, porque quando Bolívar morreu Karl Marx tinha 3 anos. O senhor sabe conceituar comunismo?

- Ah, isso não importa, porque é tudo...

Aí eu aumentei a voz:

- Pelo visto, o senhor não tem a menor noção do que está falando, então eu vou lhe ensinar: comunismo é definido pela ausência da propriedade privada dos meios de produção. Algo que está longe de acontecer aqui. Caso o senhor não tenha entendido o que isso significa, o comunismo determina que indústria e agricultura pertence tudo ao estado. E tudo quanto é indústria e lavoura aqui é propriedade privada. Então não fale mais besteira!

Os outros dois que defendiam a Dilma se calaram e estavam com aquele sorrisinho indisfarçável no rosto.

- O que a gente está vendo aí na TV é o resultado de uma política bem capitalista, de atrelar os custos de uma commodity central como os combustíveis ao dólar.

- E está errado? NOS ESTADOS UNIDOS É ASSIM.

- Meu senhor, faça as contas. Nos Estados Unidos todo mundo ganha em dólar. Se lá a gasolina é taxada em dólar, está certo. Aqui, todo mundo ganha em real. E quando você precisa de cinco reais para comprar um único dólar, você aumenta em cinco vezes os seus gastos com combustível. Não é comunismo nem capitalismo, é matemática. Se o senhor acha certo pagar mais pelo mesmo produto, enquanto tem outras pessoas enchendo o rabo de dinheiro, então não há mais o que falar!

- Ah, mas o petróleo brasileiro é de má qualidade, tem que ser refinado nos EUA

- É. Aí, quando o Brasil descobriu o pré-sal e analisou o petróleo do pré-sal e descobriu que é um dos petróleos de mais fácil refino, e quando Lula e Dilma começaram a investir em refinarias no Brasil para refinar o petróleo do pré-sal para nacionalizar a produção de combustível, e assim reduzir o custo total do combustível, apareceu um monte de informadão pra dizer que a Petrobrás era um antro de ladrão. Agora esse governo golpista vendeu a preço de banana as jazidas de um pré-sal que não tem nem como ser avaliada, pois não se sabe ao certo a quantidade de petróleo que tem lá, os informadões aplaudem, e ainda pedem gasolina atrelada ao dólar. Mas a errada sou eu, que sou mulher e não devia estar discutindo nada disso. Certo está o senhor...

Aí o tiozão se calou. E os outros dois, que só ouviam, pediram mais informações. Um deles concluiu, antes de o tiozão, calado e puto da vida, sair do boteco:

- Quando a pessoa sabe do que está falando, não tem nem como discutir falando besteira, né?

Então, é ótimo viver no meio do mato sem ter que lidar com coxinha burro. Porque se eu cruzar com mais, eu sou capaz de voar no pescoço."

Letícia Sallorenzo via Pablo Amaral Mandelbaum
Recebido via "zap"

sábado, 12 de maio de 2018

Um ditador fanfarrão e um exército de papel

DESPERTAR DE SENTIMENTOS OCULTOS, por Raphael Silva Fagundes
Um ditador fanfarrão e um exército de papel

por Raphael Silva Fagundes para o Le Monde Diplomatique
Maio 9, 2018

Se houver um golpe militar hoje, seria muito mais para manter Temer no poder que para colocar um Bolsonaro no Planalto da Alvorada. O exército do deputado resume-se em seus seguidores, na maioria, adolescentes em desequilíbrio hormonal. Os militares não estão alinhados a interesses morais. Isso é mera retórica. Coitados se pensam que seu general fanfarrão um dia irá conduzir uma ditadura militar

Bolsonaro só adquiriu um apoio expressivo da população porque é o primeiro candidato à presidência da República a defender claramente a ditadura militar. É algo novo na nossa democracia recente.

Muitos dizem apoiá-lo por não ser corrupto, no entanto, existem outros políticos que não estão envolvidos em casos de corrupção, como a deputada Manuela D’Avila e Guilherme Boulos, mas não receberam o mesmo tratamento do público. Por quê?

Não é por que estes últimos estão ligados a causas polêmicas, como o aborto, LGBTs etc.. Não é, também, porque Bolsonaro seja, supostamente, o deputado defensor do cidadão de bem e da família tradicional. Até porque, existiram vários candidatos que usaram, em suas plataformas políticas, esse tema, como Enéas, Levi Fidelix, Eymael e outros. Mas todos foram motivo de risos. A diferença, do deputado federal, representante máximo do que chamo de “direita vulgar”, para os outros, é que nenhum dos anteriores defendiam claramente o regime militar de 1964-1985.

Não é, também, porque Bolsonaro tenha, supostamente, a fórmula mágica para a solução dos problemas da segurança. Mas sim pelo fato de a ditadura militar despertar uma memória falsa, onde se sustenta a ideia de que na época dos quartéis não havia violência e nem corrupção. Uma memória que não reconhece as circunstâncias do tempo, além de omitir o fato da propagação dos grupos de extermínio, os pais das milícias que dominam várias regiões do Rio de Janeiro. Esconde-se, também, o fato desse ter sido o período embrionário do crime organizado, cujo parto deu à luz ao Comando Vermelho.

Hoje, o Exército é a instituição mais confiável para a população.[1] Isso porque não houve punição para os torturadores como houve nas outras regiões da América Latina. Os militares ficaram relacionados a uma situação de segurança e não de inconstitucionalidade. Também porque “o governo militar interferiu ativamente” na Justiça e na polícia, “para torná-las parciais e submetê-las às suas diretrizes políticas”.[2] Ou seja, houve uma desmoralização dos poderes. A partir daí, a ideia de que o Exército é o único capaz de botar ordem se difundiu.

Revisando os costumes em comum

Não podemos romantizar a cultura popular, muito menos os seus costumes. O historiador inglês Edward Thompson, de muita influência no Brasil, mostrou, através de inúmeras pesquisas, que havia uma resistência popular no século XVIII perante a capitalização das relações de produção. Houve uma economia moral que serviu como instrumento de luta, reagindo à nova cadência de trabalho e de tempo imposta pela burguesia.[3]

Mas os costumes nem sempre agirão contra o capital, muito pelo contrário. Em muitos casos, a cultura popular pode ser cruel. A história dos linchamentos comprova o que estou dizendo. O comportamento coletivo, costumeiramente, não desemboca em movimentos sociais, e, na maioria dos casos, são conservadores, principalmente em meio à pobreza doutrinária e política. Há uma motivação conservadora na ação coletiva, enganosamente restauradora.

Foi esse tipo de economia moral que deu vitória a Marcelo Crivella no Rio de Janeiro, mesmo com a revista Veja tendo estampado em sua capa, uma semana antes da eleição, a imagem de Crivella preso. A moralidade que o Psol representa vai de encontro com a economia moral conservadora que quer a restauração de uma época “mitológica” de paz e harmonia.

Mas o que queremos dizer é que a economia moral da coletividade está atrelada à ditadura militar. É muito improvável encontrar alguém que defende a ditadura que não seja conservador moralmente, e vice-versa. A retórica militar era moralista e isso ficou na memória. Portanto, se a causa da crise for moral (corrupção da política e da cultura, como a mídia e a direita vulgar sustentam), a solução militar torna-se instigante.

Mais consumidor que cidadão

Quem nunca se importou com política resolveu participar. Mas a cultura do privado é muito mais forte que a pública. Por conta disso, é a partir do interesse particular que se pensa o público, consequência natural de uma cultura que, apesar de ser democrática (ou, por ser democrática?), não estimula o pensar político.

O poder aquisitivo que os governos petistas deram à população estimulou a compra e a preservação da riqueza material. Aumentou-se o consumo, mas o nível cultural ficou estagnado, principalmente no que tange uma conscientização política. Prova disso, é o fato de tanto a esquerda quanto a direita aumentarem suas fileiras por meio de um discurso moral.

O maior problema social, na visão dessa direita vulgar, passou a ser tudo o que afeta a liberdade de consumir (por isso que o conceito de “economia moral” vem a calhar). Logo, a retórica política de tortura ao prisioneiro, de liberação do porte de arma, militarista etc. tornou-se mais interessante que uma retórica política voltada para a geração de empregos e distribuição de renda. Pensa-se mais no que se compra do que no que se produz, muito mais no produto que no trabalho para tê-lo. É a preservação da condição de consumidor, não a de cidadão.

A preferência do mercado

Sendo assim, portanto, porque o mercado prefere muito mais um Alckmin que um Bolsonaro? Talvez pelo o que este representa. Essa economia moral não é tão boa assim para o mercado, principalmente para a indústria cultural que lucra bilhões com o discurso da diversidade passiva, isto é, uma diversidade conduzida pelos padrões imperialistas, que define as formas legítimas de luta.[4]

Isso nos leva a uma conclusão totalmente desmistificadora. Se houver um golpe militar no Brasil hoje, seria muito mais para manter Temer (ou sua política) no poder que para colocar um Bolsonaro no Planalto da Alvorada. O exército do deputado federal resume-se em seus seguidores, na maioria, adolescentes em desequilíbrio hormonal. Os militares não estão alinhados a interesses morais. Isso é mera retórica. Coitados se pensam que seu general fanfarrão um dia irá conduzir uma ditadura militar.

Os interesses são econômicos e multinacionais. E, expressamente, estão atrelados à chamada “retomada da economia”, apoiada pelas empresas e corporações midiáticas. Esse modelo de crescimento visa o sucateamento dos serviços públicos por meio da privatização e da venda dos recursos naturais, acompanhados de um argumento eufemista da chegada de um “capital novo”.

Bolsonaro pode até não ser racista, homofóbico etc.. mas o problema é que ele acaba libertando essas vozes. Lógico que se assumisse o poder agiria em prol do mercado e tudo que diz ficaria apenas na promessa (a boa e velha fanfarronice). Mas o problema é o que sua imagem pode desencadear. Os racistas querem Bolsonaro, assim como os homofóbicos etc.. É como Trump que não é claramente racista, mas suas falas ambíguas desperta sentimentos ocultos, levando pessoas a acenderem tochas e gritarem palavras racistas e xenófobas.

A alternativa militar não está descartada, como acredita o cientista político Francisco Fonseca, professor da PUC-SP,[5] contudo, ela irá ratificar o consórcio golpista e o aniquilamento dos serviços públicos, jamais colocar um candidato tão polêmico que possa prejudicar os rumos da política neoliberal.

*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Iraguaí.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Nordestinidade: a opção pelo atraso

Nordestinidade: a opção pelo atraso 

por Durval Muniz de Albuquerque Jr. (professor)
Essa semana o jornalista Paulo Henrique Amorim, através de seu blog Conversa Afiada, chamou atenção para um dos sucessivos atos falhos que os promotores do golpe de 2016 estão cometendo: a jornalista de economia do grupo Globo - uma Cassandra que previa o fim do mundo seguido de um apagão, todas as manhãs, durante o governo Dilma, que foi a fada madrinha do golpe, prometendo verdadeiros milagres de “crescimento econômico” ao toque da varinha mágica do impeachment da presidenta eleita com 54 milhões de votos, que nos infelicita toda manhã com seus penteados e suas ideias -, em um dos seus inúmeros comentários sobre “economia”, deixava claro que o problema da economia brasileira era as regiões Norte e Nordeste. Se não fosse esses dois estorvos a forçar para baixo os índices de crescimento da indústria, a “recuperação”, prometida para o dia seguinte do golpe, já teria acontecido. A comparação entre os índices de crescimento industrial de Santa Catarina com os de Pernambuco, Bahia e Ceará, só faltou tomar como explicação que os catarinenses são mais eugênicos, são brancos, europeus e, portanto, ao contrário dos afrodescendentes da Bahia ou dos mestiços e caboclos do Ceará, são mais afeitos ao trabalho, são mais inteligentes, empreendedores, são menos preguiçosos e, além de tudo, mais diligentes e sábios politicamente porque não votam na gentalha petista, coisa para nordestino que vota com o bucho e não com a cabeça.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A estória normal de um menino normal


Era uma vez um menino normal, que morava num bairro normal de periferia, de uma capital normal do Brasil. Era de Fortaleza, no Ceará
Estudava, brincava de futebol, triângulo, baladeira, bandeira, bila, jogava futebol de botão e soltava arraia, como todo menino normal.
Sonhava, como todo menino normal, em ser jogador de futebol. Simulava tabela com a parede. Via a bola cruzada depois de arremessada na parede. Via o goleiro vencido com a cabeçada fulminante.
Estava nesse treinamento dos sonhos quando uma vizinha avisa que um jornal publicara a relação de aprovados num concurso.
O nome do menino normal era o vigésimo segundo de uma lista.
Havia feito a inscrição para o concurso. Havia feito as provas. Também havia feito no ano anterior. Não tinha a menor ideia do que era Banco do Nordeste do Brasil S.A.
O menino normal não compreendia o significado do feito. Fora aprovado entre seis mil candidatos.
A mãe numa felicidade incompreensível para o menino normal com seus 14 anos. O pai, todo orgulhoso, falando das providências para conseguir a documentação exigida.
Na lembrança o fato de que teria de tirar uma foto 5X4 para a carteira de identidade. Tudo muito estranho.
E roda da vida acelerou o giro.
No dia 19 de junho de 1978, data de seu 15º aniversário, o menino normal assinaria a documentação e começaria a trabalhar no BNB.
Assim, de maneira prematura, foi encerrada a carreira futebolística. Com certeza o Fortaleza Esporte Clube ainda lamenta o fato.
O menino normal tinha um pequeno mundo normal: a família em Jaguaretama e o quarteirão onde residia no Henrique Jorge, bairro onde cresceu, além dos livros, que sempre foram boas companhias.
Depois desse dia o mundo do menino normal perdeu as fronteiras de então.
Quantas pessoas diferentes. Quantos conceitos diferentes. Quantos mundos diferentes. Quantos amigos inimagináveis.
Pois é. Cresceu nessa mistura: - uma família; - uma rua e seus amigos; e os novos amigos, que rapidamente se tornariam mais uma família para ele.
Mas não era uma família normal.
Era uma família nascida do acaso, mas decidida a se fazer e se ver como família.
E o mundo continuou a girar.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O pobre de direita

O pobre de direita é um figurante de burguês

O pobre de direita se acha liberal mesmo não tendo capital e propriedade.

Ele é contra os direitos trabalhistas pois espera um dia ter capital e propriedade para ser um explorador da força de trabalho dos outros.

Ele é contra os direitos sociais pois acha que isto irá reduzir os seus lucros futuros, quando ele for capitalista e puder explorar os trabalhadores, sendo que ele é trabalhador mas não se reconhece como tal.

Ele é contra o Estado pois acha que quando ele tiver capital e propriedades não vai querer que o Estado estabeleça limites ao seu desejo de ficar rico explorando os trabalhadores.

O pobre de direita é o produto melhor elaborado pelos mecanismos de produção de ideologia burguesa para a defesa dos burgueses que tem capital, que tem propriedade e que estão na gestão do Estado para não pagar impostos, para receber subsídios e incentivos fiscais, para ganhar dinheiro comprando títulos da dívida pública e terem o controle dos meios de comunicação de forma a propor o mundo dos ricos como o objeto a ser defendido mesmo que a riqueza da burguesia fosse fruto da exploração dos também pobres de direita.

Ele passa a vida toda sonhando ser burguês, mas sem capital e propriedade e sendo explorado.

Entretanto, ele é muito útil para a burguesia, pois já que não tem nem capital, nem propriedade capitalista ele se torna o cão de guarda da classe que um dia sonha ser.

Sendo assim, ele vai para as ruas defender o capitalismo e vê nos trabalhadores esclarecidos e organizados os seus inimigos de classe.

O pobre de direita além de ser um figurante de burguês é terreno fértil para o fascismo.

Portanto, o pobre de direita é um figurante de Burguês que no momento de crise do capitalismo se comporta como um pitbull da burguesia na defesa de um governo de conteúdo fascista.

Como o pobre de direita tenta ser o espelho dos valores que ele acha que a burguesia tem, passa a ser machista, racista, homofóbico, etc.

Ele acaba sendo o portador dos principais preconceitos que a burguesia gerou e perpetuou como parte do seu sistema de dominação, porque precisa do racismo para pagar bem menos aos trabalhadores afrodescendentes.

Ser machista por que os salários das mulheres é bem menor que os salários dos homens. Enfim, ele nega sua origem social e tenta ser o que não tem, pois se trata de um trabalhador sem consciência de classe.

Por isso se endivida para ter uma imagem diferente do seu real poder de compra.

São chamados de emergentes porque querem negar sua classe assumindo a aparência de burguês.

Ele come sardinha e arrota caviar, enquanto late sempre mais alto para mostrar à burguesia que está protegendo a propriedade do burguês, enquanto dorme fora da mansão que sonha um dia ser sua.

Ao envelhecer não vai ter emprego e muito menos vai poder pagar um plano de saúde.

Desta forma vai precisar de proteção social, porém passou a vida toda defendendo que bastava deixar a mão invisível do mercado agir, que o egoísmo sendo potencializado se chegaria ao bem estar coletivo, onde todos teriam chance de um dia ser rico, bastando apenas seu esforço individual e sua capacidade de assumir riscos.

O pobre de direita é um figurante de Burguês que late como pitbull e se cala sobre sua própria exploração.

por José Menezes Gomes
Professor do curso de Economia e do Mestrado em Serviço Social da UFAL

domingo, 28 de janeiro de 2018

SOBRE A IGNORÂNCIA ERUDITA

SOBRE A IGNORÂNCIA ERUDITA

Um dos maiores problemas contemporâneos e que aflige todas as gerações não é mais a ignorância, mas sim a “ignorância aprendida” que é, em sua essência, uma ignorância perversa que assume a forma de conhecimento adquirido por fontes supostamente confiáveis.

A ignorância aprendida acaba por resultar em um novo tipo de ignorante, o “ignorante erudito”.

Uma mistura heterogênea de conceitos deturpados, meias verdades, fatos inventados, dados manipulados... e tudo isso cuidadosamente controlado por gigantescos meios de comunicação privados que desejam cumprir com uma missão: gerar um exército de “ignorantes eruditos”, geralmente recrutados das camadas altas e médias de nossa sociedade e que servem como tropa de choque dos interesses do grande capital.

Esse exército de “ignorantes eruditos” consegue ver vantagens na destruição da previdência pública, dos direitos sociais e na falência da democracia e do Estado de Direito.