quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A evolução, a internet e o mundo real (coitado), por Denis R. Burgierman

A evolução com seu sistema de recompensas manda bem demais. Mas o Zuckerberg hackeou

A evolução é muito esperta. Incríveis as coisas que ela faz: baleias-azuis, mitocôndrias, sequóias gigantes, fotossíntese, tiranossauros rex. Uma das sacadas mais espetaculares que a evolução inventou foi dotar os animais de um brilhante sistema de recompensas: a cada vez que fazemos algo certo, ganhamos de presente uma dose de prazer. É dopamina, que nos deixa felizões, e querendo mais. E aí aprendemos a continuar fazendo coisas certas.

Só por causa desse sistema seguimos existindo neste mundo. É ele que nos premia a cada vez que terminamos um trabalho bem feito, ou fazemos sexo, ou nos alimentamos bem. É ele também que nos estimula a investir tempo e energia na coisa mais difícil que existe: relações sociais e afetivas. Não fosse a busca por dopamina, que estímulo teríamos para cuidar dos filhos, dos amigos, da comunidade? Ficaríamos sozinhos, de papo para o ar, sem vontade para juntar uma galera e caçar um mamute, quanto mais para construir uma civilização ultra tecnológica globalmente conectada.

O problema é que essa civilização ultratecnológica globalmente conectada hackeou nosso sistema de recompensas. Mark Zuckerberg e sua turma descobriram um substituto de baixo custo para o prêmio que conseguimos cultivando relações complicadas. Basta uma fotografia fofa, uma piada engraçada ou – o mais eficaz de todos – uma declaração de ódio indignado e contagiante, e logo começam a pipocar afagos virtuais – joinhas, coraçõezinhos, gargalhadas, ou mesmo rostos furiosos cheios de empatia. São manifestações de aprovação à distância, suficientes para estimular o sistema de recompensas e inundar neurônios de dopamina. E aí o cérebro cuida do resto: aprende a querer mais. Viramos seres sedentos de curtidas.

O problema é que curtidas não servem para nada – experimente tentar pagar o supermercado com uma bacia de joinhas virtuais para você ver o que o caixa vai te dizer. Nosso sistema de recompensas, desenvolvido ao longo de milênios para nos induzir a fazer coisas certas, foi sequestrado pela tecnologia e agora é obrigado a nos dar uma dose, mesmo quando não fazemos nada de muito útil para a espécie.

Até aí, tudo bem. Nada demais. Faz séculos que deturpamos a finalidade do sistema de recompensas do cérebro para gerar pequenos prazeres. Usar drogas, apostar no caça-níqueis, jogar videogame – não faltam exemplos de comportamentos inúteis ou mesmo nocivos que são premiados com dopamina, e que acabam gerando dependência. Só que, no geral, nada disso resulta em consequências muito sérias para a sociedade. O dependente de drogas ou jogo faz mal para si mesmo, às vezes para quem está em volta, mas dificilmente vai muito além disso.

Só que dessa vez fomos um pouco longe demais na hackeada. Construímos um mundo virtual, movido a curtidas e a compartilhamentos, habitamos esse mundo com bilhões de avatares, e muitos de nós estamos passando boa parte dos dias lá dentro, entre posts do Facebook e mensagens do Whatsapp. Apesar de ser um mundo bidimensional, sem estímulo tátil, nem olfativo, nem gustativo, sem espaço para nossos corpos nem a possibilidade de tocar a pele de alguém, ele é vasto o suficiente para nos dar a ilusão de que a vida transcorre lá. Nossos amigos estão lá. Nossos ídolos também. E, quando trocamos curtidas ou mensagens, temos a ilusão de que estamos atando laços sociais e afetivos. Os mecanismos que a evolução nos deu para nos aliarmos a outras pessoas e fazermos coisas grandiosas – casas, cidades, civilizações – estão sendo empregados para construir grupos virtuais.

Esses grupos, motivados por curtidas e compartilhamentos, vão ficando cada vez maiores e mais importantes para a vida de seus membros. Nos últimos anos, começamos a ter um vislumbre da distopia que pode estar nos aguardando no caso de continuarmos imersos nesses mundos virtuais, desconectados das coisas reais. A hackeada tomou conta da política.

    Não tem a ver com a realidade: tem a ver com a dopamina liberada com a indignação nas redes sociais

Dois anos atrás, a mais sólida democracia do mundo, os Estados Unidos, caiu na mão de um zé mané, que jamais havia feito uma coisa decente no mundo real – passava a maior parte de seus dias mendigando curtidas nas redes sociais. Donald Trump é um personagem público há décadas – herdeiro de uma fortuna bilionária, carente de atenção, corrupto e mentiroso. Quem o conhece no mundo real sabe que ele é um goiaba. Mas, nas redes, ele é um gigante. Passou tantos anos hipnotizado pelo celular vociferando aos ventos sua indignação e dando pequenas satisfações dopamínicas a seus seguidores virtuais que acabou convencendo milhões de que ele é um líder. Foi eleito presidente sem praticamente conhecimento algum sobre os desafios do mundo real e a forma de encará-los. Agora, presidente, trata problemas complexos com soluções simplistas e irreais, que não os resolvem, mas atraem milhões de curtidas.

O problema não parou nos Estados Unidos, espalhou-se pelo mundo. Agora foi a vez do Brasil, que elegeu uma imensa bancada e um executivo de youtubers revoltados e whatsappers compulsivos, quase todos com sérios problemas psicológicos e carências afetivas, nenhum com muita experiência em resolver problemas reais, no mundo real. O novo presidente é um velho legislador que nunca foi capaz de escrever uma única lei que preste. O deputado federal mais votado é o filho dele, e a segunda mais votada é uma teórica da conspiração, cuja carreira jornalística medíocre foi encerrada com uma série de acusações de plágio. O Legislativo e o Executivo estão cheios de gente cuja fama vem unicamente de sua indignação online, e de sua capacidade de mobilizar a dopamina alheia. A política deixou de ter relação com o mundo real: estamos votando nas pessoas pela capacidade delas de indignar as outras nas redes sociais.

Como o critério é esse, as políticas públicas que eles propõem não têm nada a ver com resolver problemas – vingam as ideias que mais geram indignação. Mesmo que sejam uma completa estupidez. Todo mundo que entende de educação sabe que a Escola Sem Partido é a fórmula para uma educação ideológica e ineficaz. Todo mundo que entende de comércio exterior sabe que transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém é o caminho para irritar parceiros comerciais importantes, sem ganhar nada em troca. Todo mundo que entende de saúde sabe que enxotar médicos cubanos sem antes ter ao menos um plano para substituí-los é garantia de uma hecatombe médica em milhares de municípios onde nenhum médico brasileiro quer trabalhar. Não importa. Não tem a ver com a realidade: tem a ver com a dopamina liberada com a indignação nas redes sociais.

Resta torcer para que haja um limite. Nos Estados Unidos, parece que houve: os erros na área da saúde pública, que Trump desmontou, foram longe demais. A oposição venceu a eleição parlamentar, no mês passado, expondo histórias reais ultrajantes de crianças com doenças congênitas que ficaram sem cobertura médica para que o presidente ganhasse umas curtidas.

Que o mundo real se imponha logo sobre as ilusões das redes sociais aqui também. Enquanto isso, vê lá se me dá uma curtida por este texto, que também não sou de ferro.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.
https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2018/A-evolu%C3%A7%C3%A3o-a-internet-e-o-mundo-real-coitado

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