sábado, 27 de abril de 2013

Espelho: prazer ou obrigação


Final das férias.
Época de voltar ao batente.
Ônibus saindo da rodoviária do Antônio Bezerra às 18:30hs da segunda - Chegada em Jeri às 2:00hs da manhã.
Trabalho na terça a partir das 08:00hs da manhã … é um dos preços a se pagar por se morar num paraíso … trabalhar ainda é uma das obrigações.
Casa suja … desarrumada … nada no lugar … cozinha e geladeira fora do contexto … pia cheia de pratos da última refeição … roupas de cama e toalhas sem condições de uso … redes sem confiança em relação a limpeza, ou seria sujeira … certeza da obrigação de lavar e arrumar tudo.
Durante minhas férias meu querido filho veio passar uns tempos em Jeri e ainda trouxe uns amigos. Acredito que todos eles acreditam que suas respectivas mães virão em seguida para arrumar o desmantelo que eles deixam.
Tirando ontem, quinta-feira, onde saí 06:00hs e retornei às 19:00hs, numa viagem a serviço, tendo como destino às belas cidades de Tianguá e Ubajara, na serra da Ibiapaba em época de chuva, só o que fiz foi lavar roupas, panelas, panos de chão, lençóis e redes. Varrer e passar o pano no chão.
Pois é, desde a segunda que vinha “matutando” sobre o que escrever.
Vinha no ônibus pensando sobre a situação ocorrida no último final de semana.
Meu querido e amado filhote, o mais novo, mas já com quase vinte anos, “me” sai de casa no sábado e volta apenas na segunda. Dorme o dia inteiro e nem tenho a oportunidade de dar um abraço ou um “cagaço' pela afronta do final de semana.
Ele já tem idade de saber o que quer e de saber para onde quer ir. E isso me entristece. Acredito que nem ele saiba.
Estou sempre a disposição para ajudar, mas me recuso a me aborrecer para fazer algo por alguém que não quer fazer nada por si.
Lembrei de meu avô João Leite. Vítima de câncer, se não me engano, um câncer no estômago.
Fez uma cirurgia delicadíssima e, durante sua convalescênça, fui um dos escalados para o acompanhamento.
Mais do que uma obrigação, foi um prazer conviver com aquela figura tão amável e tão humana.
Por circunstâncias que me fugiram ao controle, não tive o prazer da convivência mais “apertada” com meu avô paterno durante minha infância e adolescência.
Aqueles dias onde tive a fortuna de conviver com meu avô me mostraram o quanto tive a sorte de ser descendente daquele ser humano. Um ser de coração imenso e bondoso.
Não se queixava da dor. Não se queixava do sofrimento. Não tinha medo da morte. Apenas uma única queixa: - não entendia porque morreria sem poder comer se durante toda sua vida não negou e nunca tinha deixado ninguém sem um prato de comida em sua fazenda.
Não falava com mágoa. Apenas não compreendia a injustiça ou castigo da vida.
Fico feliz porque na sua convalescênça e recuperação fomos algumas vezes a “feira dos pássaros”.
Para um caboclo dos matos, Fortaleza era pior do que uma prisão. Aquele passeio fazia com que meu avô recarregasse as baterias da memória com coisas onde lembrava seu mundo.
Falava-me de cada pássaro com paixão. Falava de seu mundo que desconhecia. Lembrava estórias e contava coisas.
Meu pai, um modelo para mim, apesar de discordar de suas crenças políticas, também me proporcionou algo semelhante.
“Seu” Miguel trabalhava na SEFAZ.
Durante quase toda minha infância e adolescência, tive meu pai distante.
Não um distante de não se importar, mas uma distância física.
Parece que me vejo hoje. Meu pai trabalhava no interior e vinha à Fortaleza apenas a cada 15 ou 20 dias. Não sei se os fatos de hoje são apenas coincidências.
Cresci assim, com esta distância temporal. Meus filhos também.
Com certeza meu pai sempre foi presente. No exemplo e nas cobranças. Não tive aquele pai amoroso que beija e abraça os filhos. Mas tive um pai presente e que sempre esteve ao meu lado mostrando a estrada.
Lembro de ir com ele aos estádios. Lembro dele em cada gol e vitória do Fortaleza. Lembro de quando fui aprovado no concurso do BNB, onde ele nem sabia que eu estava inscrito, e foi comigo tirar a documentação.
Sempre tive um andar displicente, e neste dia estava com um chinelo de couro. “Lá pras tantas” ele se vira e diz: - se você não tirar os pés do chão não vamos mais a lugar nenhum.
Lembro do orgulho com que ele me apresentava aos amigos.
Lembro de sua preocupação quando de minha saída do BNB.
Saí porque estava cansado e não via sentido em continuar a trabalhar numa situação onde cada segunda-feira era um tormento.
Realmente, a partir da posse do Byron Queiroz, indicado no governo FHC como presidente do BNB, um mundo prazeroso e de companheirismo deu lugar a um trabalho sem prazer.
Recém-formado em agronomia e desempregado, meu pai me liga avisando que comprou “umas terras” e que iríamos tocar firme o negócio.
Não deu tempo para conseguirmos fazer os sonhos realidade. Mas até o último suspiro que tenha direito nesta vida trabalharei para fazer realidade o sonho de meu pai.
Não tenho pressa e nem ambição. Tenho o que preciso para viver bem e em paz. Mas fazer aquela fazenda andar é mais que um sonho. Está além de mim.
Este imenso preâmbulo é apenas uma maneira de dizer meu sentimento em relação às coisas da vida.
Vinha voltando para Jeri e, de repente, escuto a música “além do espelho”, dos poetas João Nogueira e Paulo César Pinheiro.
Normalmente as continuações não são boas, mas “além do espelho” é tão bom quanto “espelho”, que já é uma música fantástica.
E me lembrei desta estória: meu avô, meu pai, eu e meus filhos, principalmente o Carlinhos.
Tenho um imenso orgulho e confiança em meus filhos.
Júnior, Jardel, Dudu, Beto e Carlinhos.
Não há filho de que se goste mais ou se ame menos.
Os amores são da mesma intensidade e de formato diferente. Não é quantificável. Todos os filhos são queridos.
De repente tem um que não é o mais querido ou menos querido, é apenas o que mais deixa o peito e o coração apertado.

Espelho

Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar o pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo, e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz
Eh! Vida boa quanto tempo faz
Que felicidade, e que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai
E de fazer canções como as que fez meu pai
E de fazer canções como as que fez meu pai

Um dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que ainda hoje faz
E me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás

Eh! Vida boa, vai no tempo vai
E eu sem ter maldade,
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com deus por me levar meu pai
Troquei de mal com deus por me levar meu pai
Troquei de mal com deus por me levar meu pai

E assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo na rua, na escola e no lar
Um dia eu me tornei o bambambã da esquina
Em toda brincadeira, em briga e namorar
Até que um dia eu tive que largar o estudo
E trabalhar na rua sustentando tudo
Assim sem perceber eu era adulto já

Eh! Vida boa vai no tempo vai
Ah! mas que saudade,
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar

Além do espelho

Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar de meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor de meu pai não se perdeu
Só de ver seu olhar sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora no cortejo
E eu no espelho chorei porque doeu
Só que olhando meu filho agora eu vejo
Ele é o espelho do espelho que sou eu

A vida é mesmo uma missão
A morte é uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão de meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se meu pai foi o espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu

A vida é sempre uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Início


Era minha intenção inaugurar o blog com uma postagem sobre o aniversário de Fortaleza, mas não tive ânimo para escrever. Sábado, dia 14, comemorou-se mais um aniversário de minha cidade.
Uma data complicada, pois é resultado de uma lei.
Fortaleza tem uma origem confusa. Foi construída pelos holandeses, destruída pelos índios e reconstruída pelos portugueses. Com dificuldades de conviver com os ataques indígenas, a capitania do Ceará tem sua capital transferida para Aquiraz, sendo Fortaleza novamente capital por pressão dos moradores locais, tendo em vista possuir uma população e uma atividade econômica muito superior à Vila de Aquiraz.
Para mim é complicado ver o Ceará ser dirigido pelos Ferreira Gomes, depois de passarmos pelos governos Tasso.
Dói mais ainda ver Fortaleza governada por alguém colocado prefeito pelos Ferreira Gomes.
Mas fazer o que? Após as incompetentes administrações PTistas da Luiziane. Não posso culpar a população de Fortaleza por isso.
Houve uma comemoração insípida, inodora e incolor no aterro da praia de Iracema. Claro que não me senti compelido a ir. Não por culpa dos artistas, afinal, o show principal foi com Milton Nascimento.
A festa começou errada pela escolha do lugar. A bela praia de Iracema é para turista ver. O local indicado seria a Praça do Ferreira, no centro da cidade, com grande participação popular.
Mas a elite branca não gosta do centro. Prefere os shoppings.
Teriam também de "limpar" o centro, hoje com muita sujeira e em meio a moradores de rua, que dormem pelas calçadas.
Ontem estava naquele bate-papo regado a cerveja com meu grande amigo-irmão Maurição e relembrando fatos da Fortaleza que conheci na infância.
Lembrando dos primeiros carnavais, que assisti na Heráclito Graça. Na época meus pais moravam na rua João Cordeiro. Lembrei dos ônibus elétricos (amarelos) que iam do centro a Praça do Otávio Bonfim. Lembrei do "balão" ou rotatória da reitoria, da fábrica Fortaleza, da Praça José de Alencar, onde "pegava" o ônibus para o Henrique Jorge, onde passei a morar a partir de 1973.
Lembrando do Mercantil São José, da Mesbla, do Roncy, dos cabarés de então, dos shows do Quinteto Agreste, que ia assistir na Praça do Ferreira na adolescência.
Hoje tem supermercado em cada bairro, mas nos meus tempos de criança eram as bodegas (do "seu Chico vivo até hoje) e mercearias, com direito a anotação na caderneta. Lembro que ia com minha mãe fazer a feira no Mercado dos Pinhões.
Lembro quando Fortaleza acabava na Aerolândia e no Antônio Bezerra. A Parangaba era no final do mundo. Lembro de acordar "de madrugada" para "pegar" o ônibus para Jaguaretama no centro, na agência do Expresso Ouro Verde, pois não havia rodoviária.
Lembro da construção do Conjunto Ceará, que proporcionou o incremento numa das principais características de Fortaleza: - ser terra de imigrantes.
- Sou filho de pai originário do Barro e de mãe originária de Jaguaretama. Municípios do interior do Ceará.
Durante as décadas 60 e 70, mais da metade dos nascidos em Fortaleza compartilhavam desta característica. Eram filhos de famílias do interior. Hoje quase todos são filhos de fortalezenses
Sem rigor científico, digo que a Fortaleza dos fortalezenses localizava-se na Barra do Ceará, na Jacarecanga, no Mucuripe e adjacências. Eram locais originalmente de pescadores.
Lembro que a Av. João Pessoa era de placas de concreto, e não de asfalto. Lembro que o Henrique Jorge era longe "pra danar". Lembro de meu primeiro jogo que assisti no PV, em 1973. Feliz com a vitória do Leão sobre o tigre. Lembro de minha primeira comemoração por um campeonato no Castelão (4 X 0 sobre o ceará em 1974).
Lembro de nunca conseguir pegar o ônibus que me levaria ao centro de treinamento do BNB e sempre pegar o de linha normal Castelão (irmãos Bezerra). Sempre acompanhado pelos amigos (preguiçosos também - claro) Reginaldo e Carlão. Época de construção da Av. Dedé Brasil.
Lembro de minha primeira vez, com uma "mulher da vida", na chamada “cinzas” ou “oitão preto”, por trás da estação ferroviária. Se fui louco ou tive sorte, não sei. Sei que estou vivo e com saúde até hoje. Estudava no Colégio Rui Barbosa.
Nasci, cresci e me tornei gente nesta cidade (eu pelo menos acredito ser gente). Nunca gostei muito de frequentar a parte rica e branca de Fortaleza. Vivi e cresci numa Fortaleza diferente. Mestiça e pobre, mas verdadeira e alegre.
Saí algumas vezes para trabalhar longe, mas não consigo viver afastado desta minha terra. Campo Maior-PI, Limoeiro do Norte-CE, Jaguaretama-CE, Marabá e Tucuruí no PA. Quero bem a cada lugar que me acolheu. Vivi feliz e fiz amigos em cada uma delas, mas Fortaleza sempre falou forte.
Hoje trabalho na paz de Jericoacoara, mas venho matar a saudade dos congestionamentos, barulhos e confusões na minha bela "loura desposada do sol".
Mesmo com a "sorte" de trabalhar num banco federal desde os 15 anos, optei por continuar a viver onde cresci. O Henrique Jorge continua a ser um bairro classe média baixa e de periferia, abandonado pelas administrações públicas. Moro por aqui desde 1973. Dei algumas escapadas, mas firme e forte no "Jiquejorge"
Mas sou feliz. Vou aos botecos sem medo. Adoro o Benfica, principalmente o bar do Assis. O Raimundo dos Queijos é um barato. Desfilo com o Maracatu Solar durante o carnaval e curto cada oportunidade que minha cidade proporciona.
Depois de ir morar em Jeri, tem me faltado vontade de frequentar a orla marítima de Fortaleza.
Quem conhece Jeri há de me dar razão.
Sou feliz, principalmente porque tenho uma imensidão de amigos, a quem dedico este singelo texto.
Beijos e abraços a todos