Final
das férias.
Época
de voltar ao batente.
Ônibus
saindo da rodoviária do Antônio Bezerra às 18:30hs da segunda -
Chegada em Jeri às 2:00hs da manhã.
Trabalho
na terça a partir das 08:00hs da manhã … é um dos preços a se
pagar por se morar num paraíso … trabalhar ainda é uma das
obrigações.
Casa
suja … desarrumada … nada no lugar … cozinha e geladeira fora
do contexto … pia cheia de pratos da última refeição … roupas
de cama e toalhas sem condições de uso … redes sem confiança em
relação a limpeza, ou seria sujeira … certeza da obrigação de
lavar e arrumar tudo.
Durante
minhas férias meu querido filho veio passar uns tempos em Jeri e
ainda trouxe uns amigos. Acredito que todos eles acreditam que suas
respectivas mães virão em seguida para arrumar o desmantelo que
eles deixam.
Tirando
ontem, quinta-feira, onde saí 06:00hs e retornei às 19:00hs, numa
viagem a serviço, tendo como destino às belas cidades de Tianguá e
Ubajara, na serra da Ibiapaba em época de chuva, só o que fiz foi
lavar roupas, panelas, panos de chão, lençóis e redes. Varrer e
passar o pano no chão.
Pois
é, desde a segunda que vinha “matutando” sobre o que escrever.
Vinha
no ônibus pensando sobre a situação ocorrida no último final de
semana.
Meu
querido e amado filhote, o mais novo, mas já com quase vinte anos,
“me” sai de casa no sábado e volta apenas na segunda. Dorme o
dia inteiro e nem tenho a oportunidade de dar um abraço ou um
“cagaço' pela afronta do final de semana.
Ele
já tem idade de saber o que quer e de saber para onde quer ir. E
isso me entristece. Acredito que nem ele saiba.
Estou
sempre a disposição para ajudar, mas me recuso a me aborrecer para
fazer algo por alguém que não quer fazer nada por si.
Lembrei
de meu avô João Leite. Vítima de câncer, se não me engano, um
câncer no estômago.
Fez
uma cirurgia delicadíssima e, durante sua convalescênça, fui um
dos escalados para o acompanhamento.
Mais
do que uma obrigação, foi um prazer conviver com aquela figura tão
amável e tão humana.
Por
circunstâncias que me fugiram ao controle, não tive o prazer da
convivência mais “apertada” com meu avô paterno durante minha
infância e adolescência.
Aqueles
dias onde tive a fortuna de conviver com meu avô me mostraram o
quanto tive a sorte de ser descendente daquele ser humano. Um ser de
coração imenso e bondoso.
Não
se queixava da dor. Não se queixava do sofrimento. Não tinha medo
da morte. Apenas uma única queixa: - não entendia porque morreria
sem poder comer se durante toda sua vida não negou e nunca tinha
deixado ninguém sem um prato de comida em sua fazenda.
Não
falava com mágoa. Apenas não compreendia a injustiça ou castigo da
vida.
Fico
feliz porque na sua convalescênça e recuperação fomos algumas
vezes a “feira dos pássaros”.
Para
um caboclo dos matos, Fortaleza era pior do que uma prisão. Aquele
passeio fazia com que meu avô recarregasse as baterias da memória
com coisas onde lembrava seu mundo.
Falava-me
de cada pássaro com paixão. Falava de seu mundo que desconhecia.
Lembrava estórias e contava coisas.
Meu
pai, um modelo para mim, apesar de discordar de suas crenças
políticas, também me proporcionou algo semelhante.
“Seu”
Miguel trabalhava na SEFAZ.
Durante
quase toda minha infância e adolescência, tive meu pai distante.
Não
um distante de não se importar, mas uma distância física.
Parece
que me vejo hoje. Meu pai trabalhava no interior e vinha à Fortaleza
apenas a cada 15 ou 20 dias. Não sei se os fatos de hoje são apenas
coincidências.
Cresci
assim, com esta distância temporal. Meus filhos também.
Com
certeza meu pai sempre foi presente. No exemplo e nas cobranças. Não
tive aquele pai amoroso que beija e abraça os filhos. Mas tive um
pai presente e que sempre esteve ao meu lado mostrando a estrada.
Lembro
de ir com ele aos estádios. Lembro dele em cada gol e vitória do
Fortaleza. Lembro de quando fui aprovado no concurso do BNB, onde ele
nem sabia que eu estava inscrito, e foi comigo tirar a documentação.
Sempre
tive um andar displicente, e neste dia estava com um chinelo de
couro. “Lá pras tantas” ele se vira e diz: - se você não tirar
os pés do chão não vamos mais a lugar nenhum.
Lembro
do orgulho com que ele me apresentava aos amigos.
Lembro
de sua preocupação quando de minha saída do BNB.
Saí
porque estava cansado e não via sentido em continuar a trabalhar
numa situação onde cada segunda-feira era um tormento.
Realmente,
a partir da posse do Byron Queiroz, indicado no governo FHC como
presidente do BNB, um mundo prazeroso e de companheirismo deu lugar a
um trabalho sem prazer.
Recém-formado
em agronomia e desempregado, meu pai me liga avisando que comprou
“umas terras” e que iríamos tocar firme o negócio.
Não
deu tempo para conseguirmos fazer os sonhos realidade. Mas até o
último suspiro que tenha direito nesta vida trabalharei para fazer
realidade o sonho de meu pai.
Não
tenho pressa e nem ambição. Tenho o que preciso para viver bem e em
paz. Mas fazer aquela fazenda andar é mais que um sonho. Está além
de mim.
Este
imenso preâmbulo é apenas uma maneira de dizer meu sentimento em
relação às coisas da vida.
Vinha
voltando para Jeri e, de repente, escuto a música “além do
espelho”, dos poetas João Nogueira e Paulo César Pinheiro.
Normalmente
as continuações não são boas, mas “além do espelho” é tão
bom quanto “espelho”, que já é uma música fantástica.
E me
lembrei desta estória: meu avô, meu pai, eu e meus filhos,
principalmente o Carlinhos.
Tenho
um imenso orgulho e confiança em meus filhos.
Júnior,
Jardel, Dudu, Beto e Carlinhos.
Não
há filho de que se goste mais ou se ame menos.
Os
amores são da mesma intensidade e de formato diferente. Não é
quantificável. Todos os filhos são queridos.
De
repente tem um que não é o mais querido ou menos querido, é apenas
o que mais deixa o peito e o coração apertado.
Espelho
Nascido
no subúrbio nos melhores dias
Com
votos da família de vida feliz
Andar
e pilotar o
pássaro de aço
Sonhava
ao fim do dia ao me descer cansaço
Com
as fardas mais bonitas desse meu país
O
pai de anel no dedo, e
dedo na viola
Sorria
e parecia mesmo ser feliz
Eh!
Vida boa quanto tempo faz
Que
felicidade, e
que vontade de tocar viola de verdade
E
de fazer canções como as que fez meu pai
E
de fazer canções como as que fez meu pai
E
de fazer canções como as que fez meu pai
Um
dia de tristeza me faltou o velho
E
falta lhe confesso que ainda hoje faz
E
me abracei na bola e pensei ser um dia
Um
craque da pelota ao me tornar rapaz
Um
dia chutei mal e machuquei o dedo
E
sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi
mais uma vontade que ficou pra trás
Eh!
Vida boa, vai no tempo vai
E
eu sem ter maldade,
Na
inocência de criança de tão pouca idade
Troquei
de mal com deus por me levar meu pai
Troquei
de mal com deus por me levar meu pai
Troquei
de mal com deus por me levar meu pai
E
assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo
na rua, na escola e no lar
Um
dia eu me tornei o bambambã da esquina
Em
toda brincadeira, em briga e namorar
Até
que um dia eu tive que largar o estudo
E
trabalhar na rua sustentando tudo
Assim
sem perceber eu era adulto já
Eh!
Vida boa vai no tempo vai
Ah!
mas que saudade,
Mas
eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E
orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois
me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas
tão habituado com o adverso
Eu
temo se um dia me machuca o verso
E
o meu medo maior é o espelho se quebrar
E
o meu medo maior é o espelho se quebrar
E
o meu medo maior é o espelho se quebrar
Além do
espelho
Quando
eu olho o meu olho além do espelho
Tem
alguém que me olha e não sou eu
Vive
dentro do meu olho vermelho
É
o olhar de meu pai que já morreu
O
meu olho parece um aparelho
De
quem sempre me olhou e protegeu
Assim
como meu olho dá conselho
Quando
eu olho no olhar de um filho meu
A
vida é mesmo uma missão
A
morte uma ilusão
Só
sabe quem viveu
Pois
quando o espelho é bom
Ninguém
jamais morreu
Sempre
que um filho meu me dá um beijo
Sei
que o amor de meu pai não se perdeu
Só
de ver seu olhar sei seu desejo
Assim
como meu pai sabia o meu
Mas
meu pai foi-se embora no cortejo
E
eu no espelho chorei porque doeu
Só
que olhando meu filho agora eu vejo
Ele
é o espelho do espelho que sou eu
A
vida é mesmo uma missão
A
morte é uma ilusão
Só
sabe quem viveu
Pois
quando o espelho é bom
Ninguém
jamais morreu
Toda
imagem no espelho refletida
Tem
mil faces que o tempo ali prendeu
Todos
têm qualquer coisa repetida
Um
pedaço de quem nos concebeu
A
missão de meu pai já foi cumprida
Vou
cumprir a missão que Deus me deu
Se
meu pai foi o espelho em minha vida
Quero
ser pro meu filho espelho seu
A
vida é sempre uma missão
A
morte uma ilusão
Só
sabe quem viveu
Pois
quando o espelho é bom
Ninguém
jamais morreu
E
o meu medo maior é o espelho se quebrar
E
o meu medo maior é o espelho se quebrar
E
o meu medo maior é o espelho se quebrar
E
o meu medo maior é o espelho se quebrar