quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

A corrupção do judiciário: Nenhum pacote anticorrupção trata dessa aberração, por Conrado Hübner Mendes

Conrado Hübner Mendes
Folha SP - 8.jan.2020

A corrupção do Judiciário é institucional e não se confunde com corrupção do juiz.

Ela está traduzida em leis, em barganhas fisiológicas e na cultura que a normaliza; nenhum pacote anticorrupção trata dessa aberracao.

Magistocracia rima com pornografia. Não a pornografia que desperta fantasias do governo federal, tão comprometido com a inocência das crianças que tem combatido políticas de prevenção de gravidez precoce e abuso sexual. Nem ao sexo dos juízes. Rima com as práticas obscenas do Poder Judiciário mais caro do mundo num dos países mais desiguais do planeta.

Não há ano em que a orgia magistocrática decepcione. O Prêmio JusPorn precisa ser criado para agraciar os destaques de 2019. Como vinheta, proponho: “Nenhuma nudez judicial será castigada. Toda desfaçatez magistocrática será premiada”.

Na categoria “salário-ostentação”, venceu juíza pernambucana que recebeu cheque de R$ 1 milhão e 290 mil em sua conta. A menção honrosa ficou para o juiz mineiro que levou R$ 762 mil. Um recorde a ser superado em 2020. Numa carreira em que 70% dos membros viola o teto constitucional, quebrar recordes é motivação.

Na categoria “gaveta mais cara da República”, o prêmio é repartido pela dupla Toffux. São diversos exemplos, mas gosto de lembrar da ação pendente desde 2010 que questiona lei estadual do Rio de Janeiro. A lei criou a juízes fluminenses toda sorte de penduricalhos (“fatos funcionais”, em magistocratês).

Carlos Ayres Brito votou pela inconstitucionalidade da lei em 2012. Luiz Fux pediu vista. Devolveu o caso no apagar das luzes de 2017. Em dezembro de 2018, Toffoli resolveu pautá-lo para 2019. Dois dias depois, tirou de pauta. Ao longo de 2019, nenhum novo andamento. Há quase dez anos, o Rio de Janeiro paga os benefícios. Toffoli se rendeu. O próximo presidente é Fux.

Na categoria “caravana cosmopolita”, as viagens de Toffoli a eventos institucionais em Buenos Aires e Tel Aviv ganharam destaque. Não pelas viagens em si, mas pela comitiva de assessores que o acompanharam e os gastos que incorreram.

Na categoria “ninguém segura a mão de ninguém”, ganhou a associação de juízes federais que produziu o detalhado estudo “Verbas conferidas à magistratura estadual”. O objetivo não era denunciar a injustiça absoluta dos benefícios a juízes estaduais, mas a injustiça relativa: o juiz federal não ganha como o juiz estadual. Isso fere o orgulho de um magistocrata.

Essa competição pelo melhor salário atormenta todas as subcategorias da magistocracia: juiz federal, juiz estadual, advogado da União, procurador da República, promotor de justiça, procurador do Estado, defensor público. Uma dinâmica que incentiva a espiral de volúpia patrimonialista sob o escudo da autonomia financeira.

Na categoria “poesia magistocrática”, o prêmio é repartido entre a juíza Renata Gil, presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros, e Augusto Aras, procurador-geral da República. Conseguiram captar a distinção magistocrática em poucas palavras. 

Ao defender que não é o momento de discutir salário de juiz, Gil confessou: “Nós queremos tratar os magistrados como um funcionário como outro qualquer?” E completou: “Se somos diferentes, não podemos entrar na formatação remuneratória do servidor comum”.

Augusto Aras indignou-se com a ideia de se reduzir férias de dois meses da magistocracia. A carga de trabalho, afinal, seria “até certo ponto desumana”. As “férias” são truque conhecido da magistocracia. Além do recesso, têm direito a dois meses de férias. Não costuma servir para descanso, mas para “vendê-las” e aumentar renda.

A corrupção do Judiciário não se confunde com a corrupção do juiz que vende sentença. Este costuma ser “punido” com aposentadoria compulsória. A corrupção do Judiciário é institucional. Está traduzida em leis, em barganhas fisiológicas e na cultura que a normaliza. Nenhum pacote anticorrupção trata dessa aberração.

Um juiz que estoura o teto ou recebe benefício indevido enriquece ilicitamente. Só de auxílio-moradia por cinco anos, foram mais de R$ 250 mil cada um. Não seremos ressarcidos.

Esta é apenas a faceta rentista e perdulária da magistocracia. Ocupam o topo 0,1% da pirâmide social brasileira. Outras colunas tratarão das facetas autoritária, autárquica, autocrática e dinástica.

Conrado Hübner Mendes
Professor de direito constitucional da USP, é doutor em direito e ciência política e embaixador científico da Fundação Alexander von Humboldt.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Venezuela. Culpada pir ter petróleo.

E a Venezuela?

é o que perguntam analfabetos políticos, provincianos monoglotas, terraplanistas, bolsominions, cristãos de araque, ex-eleitores de Marina e de Aécio, feiticeiros de púlpito, idiotas de aldeia, esfaqueados convalescentes, moralistas sem moral, juízes justiceiros, procuradores que só procuram o que querem e até, veja você, progressistas.

toda vez que um país periférico vira assunto mundial pode saber que é fuleiragem.

nunca se esqueçam do Free Tibet.

quando a China ia sediar uma olimpíada - e ser vitrine no mundo - os falcões estadunidenses desencadearam campanhas de difamação do país asiático, uma delas pedia que o Tibet virasse uma teocracia comandada pelo Dalai Lama, veja que curioso.

que o Tibet era uma colônia chinesa, e aqueles vermelhos safados tinham que ser derrotados.

diziam isso os colonizadores e escravizadores de sempre, enquanto esperavam a carruagem da rainha passar ou iam a museus apreciar as obras de arte roubadas da África.

Free Tibet, gritavam os papagaios nas ruas do mundo inteiro.

nenhum deles saberia apontar onde ficava o Tibet no mapa, mas todos tinham uma bandeira do Tibet nas mãos.

tente comprar uma bandeira do Tibet em uma loja hoje!

pois bem, a olimpíada passou, o Tibet não está free e os papagaios mudaram o rumo da prosa.

foram atrás de um índio na Bolívia.

como assim, um índio tirar o poder dos machos brancos? vamos derrubá-lo.

o mundo só falava em Evo Morales, que era um cocaleiro, comunista, safado, amigo de Fidel...

chegamos a ver uma pelada de futebol em que o perna-de-pau, Evo, dava uma futebolística canelada em um ministro.

o mundo se assombrou. viu só, é um tirano.

Evo tá lá até hoje e a Bolívia nunca teve um crescimento econômico tão vigoroso. por isso mesmo, não se fala mais nele.

evoé, Evo. Evo é.

depois eles derrubaram, na mão grande, o presidente hondurenho Zelaya, o paraguaio Lugo, a brasileira Dilma...

agora querem impor um presidente aos venezuelanos.

um macho branco, claro!

para isso, inventaram uma figura nova: um ditador eleito por voto direto em um país onde o voto é facultativo.

"somos contra os ditadores", gritam os democratas de araque.

sim, mais há ditadores na África, na América Central, no Oriente Médio, na Ásia...

"vamos derrubar esse primeiro e colocar um macho branco no lugar, os machos brancos sabem o que fazem, depois derrubaremos os outros".

mas vocês não estavam obcecados com o tirano da Coreia do Norte? por que diabos não se fala mais nele? elegeram um democrata lá?

"não, ele tem uma bomba atômica. e não tem petróleo".

ah, entendi.

e vocês sabem que tem um ditador na Arábia Saudita que frequenta a Casa Branca mais que o próprio Trump?

"sim, mas ele é um ditador amigo".

ah, entendi.

entenderam agora por que só se fala em Venezuela? é um agendamento.

segundo a ONU, temos quase duzentos países no mundo. e por que diabos o planeta se voltou agora para a Venezuela?

"ora, porque tem gente passando fome lá."

amigão, desses duzentos países, em pelo menos cem deles tem gente morrendo de fome.

"ah, mas estes são nossos vizinhos."

bem, há pouco tempo vimos uma legião de esfomeados centro americanos cruzando estradas e rios a nado ou em balsas improvisadas rumo aos Esteites.

nem por isso vimos no noticiário quem eram os presidentes dos países deles, se tínhamos que retirá-los de lá à força ou reconhecermos como presidente daqueles países algum Guaidó sem voto.

por falar em voto, Recep Erdogan, o turco que se livrou hà pouco de um golpe militar tramado nos Esteites - como aconteceu com Chávez em 2002 - acaba de perguntar à União Europeia: vocês só falam em democracia, voto, democracia, voto, e agora querem deslegitimar um presidente eleito pelo povo e legitimar uma playboy sem voto?

taí uma pergunta sem resposta.

Maduro é um presidente ruim? é inábil? é inepto? é inapto?

cara, isso não é problema meu, é um problema da democracia.

presidentes ruins e inábeis há aos montes nas Américas, no Oriente Médio, na África, na Ásia, na Europa, no diabo.

agora, arrancar o cara de lá e colocar um macho branco sem voto, man?

a troco de quê, cara?

o que tem no currículo de Guaidó que diz que ele será um bom presidente? nádegas.

você mesmo nem sabe quem é ele!

lembram da Líbia, país rico em petróleo? Kadafi tava lá há 42 anos. ele mantinha as coisas estáveis e propunha a criação de um exército comum africano, veja você.

a Otan chegou, criou um clima de caos nas ruas, derrubou o cabra e lançou sua carne aos chacais, e ainda filmou ele sendo violentamente assassinado no meio da rua.

pois a Líbia virou um pandemônio depois disso, com uma guerra civil interminável.

virou zona livre para os mercenários do falso Estado Islâmico e corredor de passagem para o tráfico de seres humanos africanos vendidos como escravos por 400 pratas.

nada melhorou por lá.

lembra do Iraque? mentiram pra você que Saddam era o satã sentado num paiol de armas químicas.

destruíram a infraestrutura do país dele, mataram mulheres, crianças, destruíram e saquearam obras de arte milenares, criaram um caos social e acabaram por prender e enforcar o cabra.

o que melhorou no Iraque depois disso?

nada, cara. absolutamente nada.

por não gostarem do Assad, destruíram um país lindo como a Síria. o único país árabe com uma constituição secular e onde a lei islâmica é inconstitucional.

um país aberto e tolerante, onde ninguém é obrigado a usar véu e, e para se ter uma ideia, cinco papas eram sírios.

hoje aquilo é um inferno.

a troco de quê?

quem são os assassinos bonzinhos, destruidores de nações, criadores de caos e instabilidades no mundo que querem salvar a Venezuela colocando um macho branco sem currículo no lugar de um presidente eleito?

quer dizer que é essa a democracia do século XXI?

o alaranjado machista e racista, construidor de muros e segregador de latinos proclama um macho branco presidente de uma nação estrangeira, o Twitter e o Facebook trocam a senha da conta de Maduro, trocam o avatar pela foto do Juan Guaidó e pronto, temos um novo presidente legitimamente reconhecido pelas nações democráticas do mundo?

o fato é que a Venezuela não é um fator de instabilidade no mundo, o problema da Venezuela não é ter pobres, é ter petróleo.

estamos todos cagando para o que acontece no Haiti, na Guatemala, no Panamá... no Gabão, no Ceilão...

o que a gente quer é colocar um macho branco, pupilo de Trump, para cuidar do petróleo da Venezuela.

é só isso, cara!

palavra da salvação.

‌(Lelé Teles)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O que motiva os ataques dos bolsonaristas ao chamado "Marxismo Cultural"

https://epoca.globo.com/o-que-motiva-os-ataques-dos-bolsonaristas-ao-chamado-marxismo-cultural-23376168

O que motiva os ataques dos bolsonaristas ao chamado "Marxismo Cultural"
E como isso pode empobrecer a democracia e prolongar a crise do sistema político.

Não é só o governo Bolsonaro, com seus ministros que disparam petardos ideológicos em cada fala.

Há no país uma onda mal-ajambrada que quer criar um bode expiatório no campo da política, da ação governamental e da cultura. Em nome do ataque ao “marxismo cultural”, ela se alimenta de uma enorme ignorância e de um deliberado esforço de provocação.

A obsessão é uma só. Surge límpida no discurso de posse do presidente, convencido de que a partir dele “o povo começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”, falando como se esses problemas tivessem relação de causalidade. Promessas vagas de “combater o marxismo nas escolas” e perseguir os comunistas são feitas a todo momento, sem que se deem muitas explicações a respeito.

A mixórdia temática não é compartilhada pelo núcleo principal do novo governo, integrado pelos generais e por Paulo Guedes e Sergio Moro, ministros mais concentrados na gestão e na obtenção de resultados. Surge imponente nas platitudes reacionárias de Damares Alves contra a identidade de gênero e em Vélez Rodríguez, que parece acreditar que há uma “tresloucada onda globalista tomando carona no pensamento gramsciano e num irresponsável pragmatismo sofístico”, com o claro propósito de “destruir um a um os valores culturais em que se sedimentam nossas instituições mais caras: família, igreja, escola, Estado e pátria”. Não é diferente nas Relações Exteriores, cujo responsável está na linha de frente dessa cruzada.

Ora o discurso é genérico e fala em marxismo sem mais, ora vem embrulhado com a menção a pensadores como Antonio Gramsci, ora ainda surge abraçado a ataques contra a esquerda, o petismo, o socialismo e o globalismo, sempre indeterminados. É um conjunto que se sustenta na superficialidade e na estigmatização, sem preocupação de fomentar algum debate.

Não há qualquer intenção de mapear a sério o campo cultural brasileiro ou de avaliar erros, acertos e possibilidades da esquerda, que é posta sumariamente fora da lei, em suas distintas versões. O propósito é ativar uma maquinação ideológica para desqualificar eventuais opositores do novo governo e repor, na política nacional, temas e convicções extemporâneos, centrados no apelo confuso a Deus, religião e Bíblia.

O ataque ao marxismo tem muito de manobra diversionista: busca produzir um ruído que distraia o público e desvie a atenção do fundamental. Espancar o PT e o socialismo que por aqui jamais existiu é parte do roteiro, assim como o compromisso de “desconstruir” Gramsci.

Nessa operação, o nível precisa cair ao rés do chão, já que se trata de atingir o grosso da opinião pública, não a intelectualidade. O tom precisa ser de palanque, para ter chance de mobilizar. Abusa-se da caricatura, do exagero, da ofensa e da grosseria, dispensando qualquer tipo de refinamento. Fala-se de Marx e de Gramsci como se se tratasse de dois perdidos que, numa noite de farras, tivessem caído no Brasil para corromper a juventude e a sociedade com ideias malignas e perversas. O objetivo é promover a circulação de um espectro que assuste, acue e impressione, semelhante ao que Marx anteviu nas primeiras linhas do famoso Manifesto comunista de 1848: um espectro contra o qual deveriam unir-se numa Santa Aliança todas as potências da velha ordem.

A denúncia do “marxismo cultural” é ao mesmo tempo reativa e ofensiva. Ela intui que o marxismo soube se adaptar ao longo da história, saindo do determinismo rígido dos primeiros tempos para a flexibilidade dialética de Gramsci, por exemplo — autor que é a verdadeira pedra no sapato dos antimarxistas. Gramsci incomoda porque atualizou a teoria que veio de Marx, dando a ela melhores condições de dialogar com as épocas mais complexas do capitalismo do século XX. A operação intelectual gramsciana permitiu ao marxismo a recuperação plena dos temas do Estado, da política, da cultura, dos intelectuais. Tornou-o mais “competitivo” para decifrar as armadilhas ideológicas do capitalismo e da dominação política, abrindo os olhos de muitos marxistas ainda aprisionados aos ritmos duros da luta de classes de primeira geração, na qual não existiam tantas mediações e sinuosidades. Recusou as limitações cognitivas do “determinismo econômico” e analisou a sociedade como realidade complexa, conforme o próprio núcleo originário da filosofia de Marx. Estudou a sério o Estado e chamou a atenção para a sociedade civil, destacando sua função como instância de hegemonia.
György Lukács (1885-1971) (à esq.), um dos mais influentes pensadores marxistas durante o período stalinista, o filósofo húngaro foi pioneiro na análise sociológica da literatura de ficção. Henri Lefebvre (1901-1991), o filósofo francês foi um estudioso da influência do capitalismo sobre o espaço urbano.

Quanto mais o capitalismo ganhou complexidade, mais as ideias gramscianas mostraram força.

Depois de Gramsci, o marxismo nunca mais foi o mesmo, ainda que muitos de seus seguidores não tenham se soltado das incrustações mecânicas e do doutrinarismo. Encorpou, tornou-se uma teoria “clássica”, ganhou respeitabilidade plena no mundo intelectual, ingressou nas universidades e se converteu na “filosofia de nosso tempo”, antevista pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre.

Tudo isso não se deveu exclusivamente a Gramsci, até mesmo porque sua obra, escrita quase toda nos cárceres fascistas, só chegou ao conhecimento público após a Segunda Guerra Mundial e se converteu lentamente na potência que é hoje.

Tanto quanto o pensador italiano, contribuíram para a revitalização e a disseminação do marxismo teóricos como György Lukács, Karl Korsch, Adam Schaff, Henri Lefebvre e Lucien Goldmann, dentre muitos outros, cada um tomando caminhos particulares, fazendo inflexões “heterodoxas” e questionamentos à doutrina original, que, com o tempo, convergiram para um mesmo estuário. O marxismo se tornou muitos, diversificou-se, ganhou musculatura e novas linguagens, compondo aquilo que a dialética chama de unidade na diversidade.

O fato é que não houve pensador importante, nos últimos 100 anos, que não tenha dialogado com as ideias de Marx e as variadas versões do marxismo. Não existiria o Jürgen Habermas da ação comunicativa, o Zygmunt Bauman da modernidade líquida ou o Ulrich Beck da sociedade de risco sem leituras marxistas. Norberto Bobbio sempre o teve como um dos grandes, dedicando um livro inteiro a ele (Nem com Marx, nem contra Marx, Editora Unesp). Antes deles, não foram poucos os que reconheceram, como Max Weber, a relevância das ideias de Marx.

Em seus escritos, muito mais que em sua militância política, Marx foi um portento, que não só descortinou a estrutura do capitalismo, como compreendeu o vigor da economia na modelagem da vida social moderna, na qual o dinheiro e o consumo jogam papel preponderante, como objetivos em si. Dedicou-se, assim como os que souberam se aproveitar de suas ideias, sendo ou não marxistas, a buscar formas de superar ou ao menos regular o irracionalismo dos mercados sem controle e sem limites. Legou ao futuro uma perspectiva racional, generosa, uma homenagem ao progresso.

O debate sério sempre criticou a vulgarização das ideias de Marx, sua conversão em catecismo, sua simplificação em fórmulas desconectadas da realidade, sua dificuldade de elaborar uma teoria do Estado e da política. Parte disso se deveu aos partidos comunistas, que, na luta política, viram-se forçados a “massificar” a teoria que os inspirava. Responsabilidade ainda maior coube à força centralizadora do socialismo soviético, que impôs uma leitura oficialista do marxismo que aprisionou os comunistas durante décadas.

Paradoxalmente, a cruzada antimarxista de hoje emprega os mesmos expedientes das vertentes mais pesadas do stalinismo. Mente, deforma, difama, acusa sem critério, procura punir e estigmatizar, valendo-se da simplificação grosseira e da pressão dos aparatos estatais. O stalinismo fazia isso em nome de uma revolução igualitarista, o que atenuava de certo modo o sacrifício que pedia. O antimarxismo atual, ao contrário, apregoa uma guinada conservadora que dê um passo atrás. Mas também ele só se viabiliza se fizer dos canais oferecidos pelo Estado uma plataforma para difundir uma cópia invertida daquilo que acusa em seus adversários. É inócuo nos territórios livres da sociedade civil, onde o debate pode fluir de forma democrática.

É o que faz o antimarxismo atacar sem trégua as diferentes instâncias da sociedade civil, da imprensa às ONGs, das escolas à indústria cultural, dos partidos políticos aos sindicatos. Ele precisa deslegitimar aquilo que foge de seu controle, reforçando ao contrário os “centros dirigentes”, a palavra dos chefes, os manuais repletos de novas verdades. Cria seus mitos e seus arautos, seus filósofos, suas narrativas, suas ideias-força, que espalha pelas redes que manipula. Constrói assim um repertório simbólico e expressivo, com o qual combate a luta cultural. Denuncia toda e qualquer operação ideológica, mas é ele próprio uma ideologia.

O ataque ao “marxismo cultural” dirige-se à mobilização do eleitorado de Bolsonaro, mas também almeja espetar na agenda pública algumas estacas que delimitem um campo ideológico. Deseja demarcar um terreno de luta, separar os bons dos maus, transferir culpas e responsabilidades. Nunca antes, no Brasil, a direita conservadora chegou tão longe.

Não se trata de um ataque inócuo. Ele tem implicações sérias. Uma delas é o risco de “macarthismo”, de discriminação e caça aos “vermelhos”. Não há uma diretriz clara, mas Onyx Lorenzoni já falou em “despetizar” o Estado. Sem freios moderadores, a cruzada poderá incentivar muita gente a denunciar comunistas em cada curva do caminho, como se fossem “inimigos da pátria”.

Afinal, o combate ao “marxismo cultural” vale-se de pessoas que pensam estar na esquerda a razão maior de suas agruras. Sem conseguir ver o conjunto da vida, estão predispostas a ser contagiadas pelo maniqueísmo simplista do “nós contra eles”.

O desdobramento disso será o empobrecimento da democracia e o prolongamento da crise do sistema político. Capturado pela insanidade por ele mesmo criada, o governo poderá cair na tentação de moldar suas políticas por critérios sempre mais ideológicos e sempre menos técnicos.

Na hipótese de essa parábola se completar, perderemos todos.

Marco Aurélio Nogueira é professor de teoria política e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da Unesp. Atuou como revisor técnico da tradução brasileira do Dicionário Gramsciano (Boitempo, 2017) Foto: Filipe Redondo / Agência O Globo
Marco Aurélio Nogueira é professor de teoria política e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da Unesp. Atuou como revisor técnico da tradução brasileira do Dicionário Gramsciano (Boitempo, 2017) Foto: Filipe Redondo / Agência O Globo

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Sobre bandeiras e vermelhos, por Valéria Regina Dallegrave

Sobre bandeiras e vermelhos:

“Nossa bandeira jamais será vermelha”: Há aspectos revelados por esta frase que merecem reflexões mais aprofundadas.

Em primeiro lugar, o MEDO do fantasma do “comunismo”. Acontece que o brasileiro assombrado  não sabe dizer aonde vê na realidade este fantasma... Ou sabe. Acredita que qualquer mínima tentativa de justiça social é um uivo da assombração. Permitir que filhos de empregadas domésticas tenham curso superior é comunismo, dar condições de adquirir casa a quem não tem, comunismo. Dar de comer a quem tem fome, comunismo (espera, isso não é bíblico!?)...

O medo é, em boa parte, inconsciente. Foi plantado pelos Estados Unidos da América desde a guerra fria. Naquela época, acreditava-se até que os comunistas comiam criancinhas (já voltaram a acreditar!?).  Os EUA, o país por excelência do capitalismo selvagem, que divulgou, com sua indústria de entretenimento, a imagem de terra das oportunidades, agora faz um muro para impedir a entrada daqueles que seduziu. A mesma pátria que ensinou ao mundo um individualismo doentio e simplificou a vida com a divisão entre mocinhos e bandidos em filmes de bang-bang. Bem, por esta e outras fontes aprendemos que o egoísmo é regra e a solidariedade, exceção...

Aquele aprisionado pelo medo teme que o pouco que tem lhe seja tirado para dar a quem tem menos. Por trás de tudo isso, há a certeza de carestia, de que pouco há disponível para dividir. Ele não percebe que há pouco apenas porque a abundância é restrita à área vip. Acostumado a fazer parte da ralé, que precisa se estapear pelas migalhas do andar de cima, e bem disciplinado para não tentar invadir a área vip, o que melhor faz é estapear quem está ao lado, tão miserável, pobre ou classe média quanto ele...

Mas o medo também tem outra faceta: de que seja roubada a chance única na vida! A chance de, em algum golpe de sorte, tornar-se ele mesmo o acumulador de posses, o novo-rico, o Patinhas dos trópicos, o que deixa cair as migalhas lá em baixo para os esfomeados...

A grande mídia, claro, corrobora esta visão de mundo egoísta (lembre, visão de mundo = ideologia). Nos atuais tempos sombrios, ganha mais voz quem é preconceituoso, machista, misógino, homofóbico.  Além das novelas, que moldaram muito nossa visão de mundo (“vale tudo”), os jornais, ao selecionarem notícias e entrevistados, constroem uma “normalidade” padrão em que é preciso ter uma arma (ou duas?) para se defender (viva as ações da Taurus!)...

E se a norma fosse a solidariedade e o egoísmo, a exceção!? Quantas boas notícias de gente que se solidariza com o próximo são descartadas diariamente? Há ideologia em tentar mudar o mundo para melhor!? Mas quem aceita toda esta construção artificial de uma “normalidade” não está mergulhado, afogado, dissolvido em uma ideologia criada por outros!?

Fica por último, mesmo, a questão que parecia a principal, a cor da bandeira.

Por que o vermelho é tão polêmico? É verdade que algumas bandeiras usam a cor como simbologia para a revolução comunista, mas há quem a use como representação da fraternidade (liberté, egalité, fraternité). Na bandeira da Espanha, o vermelho, entre outros significados, é homenagem à valentia e às conquistas do povo espanhol. Nas bandeiras da Costa Rica, do Chile e da Itália, o vermelho pode ser interpretado como o sangue de heróis e mártires que lutaram pela independência de suas nações.

A interpretação mais curiosa do uso da cor (além de trazer o tema religioso, presente em diversas bandeiras), vem da Inglaterra, representada por uma cruz vermelha sobre fundo branco. A cruz simboliza São Jorge, padroeiro da Inglaterra. Segundo a lenda, o santo, para salvar uma princesa,  enfrentou e matou um dragão, com o sangue deste fez a cruz sobre o escudo...

Já a bandeira brasileira que, como todos sabem, não tem a presença do vermelho, foi inspirada na bandeira do império, na qual o verde e o amarelo nada tinham de beleza simbólica. O verde era a cor da casa real dos Bragança (família de D. Pedro I) e o amarelo, da casa dos Habsburgo-Lorena, família de Dona Leopoldina, primeira esposa do imperador. A interpretação dada a estas cores, mantidas no modelo republicano da bandeira, atribui o verde às matas, o amarelo ao ouro, o azul aos céus e rios, e o branco à aspiração pela paz. As estrelas seriam os Estados brasileiros e o lema “ordem e progresso” veio do pensamento positivista.

A ausência do vermelho pode ser um traço da hipocrisia nacional. É como se não tivesse acontecido derramamento de sangue na construção de nossa pátria.  Nem Canudos, nem Caldeirão. Nem Tiradentes, nem Inconfidência. Nem Balaiada ou Guerra do Paraguai. Nem Candelária, nem Marielle Franco e tantos já esquecidos. Nem genocídio indígena, nem escravidão. Nem, é claro, as torturas e mortes no período da ditadura militar, sobre as quais talvez não nos seja mais permitido falar. Nossos mortos não tem direito à justiça. Nem os vivos...

É que há quem não tolere o vermelho, e tenha escolhido permanecer deitado em berço esplêndido.  E agora o verde das matas é hasteado por quem adota a estratégia de desmerecer a força e o valor das florestas (e de seus guardiães, os índios). Estamos em época de combater teorias científicas aceitas pelo mundo inteiro, que alertam sobre os danos possíveis ao planeta ao se menosprezar a preservação das matas. O ouro amarelo (e verde como o pau-brasil), já foi levado pelos europeus. O recente ouro-negro das descobertas do pré-sal, que quase financiou melhorias na saúde e na educação, agora é entregue às multinacionais. A aspiração à paz é substituída pela ameaça de guerra contra a Venezuela. A “ordem” é para ser obedecida, o “progresso” é para poucos, à custa de muitos, inclusive da poluição dos rios por mineradores e industriais irresponsáveis. Nos resta, à maioria dos brasileiros, o céu (cinza?), que pode ser contemplado pelos moribundos, caídos de fome e de vergonha ao chão...

Por fim, quero lembrar a frase de Augusto Comte que inspirou nosso lema “ordem e progresso” :  “L'amour pour principe et l'ordre pour base; le progrès pour but”, ou “o amor como princípio e a ordem como base; o progresso como meta”.  Como podemos observar, faltou amor. Vai ver é por que ele é vermelho...

Alguns podem até não gostar disso, mas nosso sangue jamais será verde-amarelo.

Valéria Regina Dallegrave

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

A evolução, a internet e o mundo real (coitado), por Denis R. Burgierman

A evolução com seu sistema de recompensas manda bem demais. Mas o Zuckerberg hackeou

A evolução é muito esperta. Incríveis as coisas que ela faz: baleias-azuis, mitocôndrias, sequóias gigantes, fotossíntese, tiranossauros rex. Uma das sacadas mais espetaculares que a evolução inventou foi dotar os animais de um brilhante sistema de recompensas: a cada vez que fazemos algo certo, ganhamos de presente uma dose de prazer. É dopamina, que nos deixa felizões, e querendo mais. E aí aprendemos a continuar fazendo coisas certas.

Só por causa desse sistema seguimos existindo neste mundo. É ele que nos premia a cada vez que terminamos um trabalho bem feito, ou fazemos sexo, ou nos alimentamos bem. É ele também que nos estimula a investir tempo e energia na coisa mais difícil que existe: relações sociais e afetivas. Não fosse a busca por dopamina, que estímulo teríamos para cuidar dos filhos, dos amigos, da comunidade? Ficaríamos sozinhos, de papo para o ar, sem vontade para juntar uma galera e caçar um mamute, quanto mais para construir uma civilização ultra tecnológica globalmente conectada.

O problema é que essa civilização ultratecnológica globalmente conectada hackeou nosso sistema de recompensas. Mark Zuckerberg e sua turma descobriram um substituto de baixo custo para o prêmio que conseguimos cultivando relações complicadas. Basta uma fotografia fofa, uma piada engraçada ou – o mais eficaz de todos – uma declaração de ódio indignado e contagiante, e logo começam a pipocar afagos virtuais – joinhas, coraçõezinhos, gargalhadas, ou mesmo rostos furiosos cheios de empatia. São manifestações de aprovação à distância, suficientes para estimular o sistema de recompensas e inundar neurônios de dopamina. E aí o cérebro cuida do resto: aprende a querer mais. Viramos seres sedentos de curtidas.

O problema é que curtidas não servem para nada – experimente tentar pagar o supermercado com uma bacia de joinhas virtuais para você ver o que o caixa vai te dizer. Nosso sistema de recompensas, desenvolvido ao longo de milênios para nos induzir a fazer coisas certas, foi sequestrado pela tecnologia e agora é obrigado a nos dar uma dose, mesmo quando não fazemos nada de muito útil para a espécie.

Até aí, tudo bem. Nada demais. Faz séculos que deturpamos a finalidade do sistema de recompensas do cérebro para gerar pequenos prazeres. Usar drogas, apostar no caça-níqueis, jogar videogame – não faltam exemplos de comportamentos inúteis ou mesmo nocivos que são premiados com dopamina, e que acabam gerando dependência. Só que, no geral, nada disso resulta em consequências muito sérias para a sociedade. O dependente de drogas ou jogo faz mal para si mesmo, às vezes para quem está em volta, mas dificilmente vai muito além disso.

Só que dessa vez fomos um pouco longe demais na hackeada. Construímos um mundo virtual, movido a curtidas e a compartilhamentos, habitamos esse mundo com bilhões de avatares, e muitos de nós estamos passando boa parte dos dias lá dentro, entre posts do Facebook e mensagens do Whatsapp. Apesar de ser um mundo bidimensional, sem estímulo tátil, nem olfativo, nem gustativo, sem espaço para nossos corpos nem a possibilidade de tocar a pele de alguém, ele é vasto o suficiente para nos dar a ilusão de que a vida transcorre lá. Nossos amigos estão lá. Nossos ídolos também. E, quando trocamos curtidas ou mensagens, temos a ilusão de que estamos atando laços sociais e afetivos. Os mecanismos que a evolução nos deu para nos aliarmos a outras pessoas e fazermos coisas grandiosas – casas, cidades, civilizações – estão sendo empregados para construir grupos virtuais.

Esses grupos, motivados por curtidas e compartilhamentos, vão ficando cada vez maiores e mais importantes para a vida de seus membros. Nos últimos anos, começamos a ter um vislumbre da distopia que pode estar nos aguardando no caso de continuarmos imersos nesses mundos virtuais, desconectados das coisas reais. A hackeada tomou conta da política.

    Não tem a ver com a realidade: tem a ver com a dopamina liberada com a indignação nas redes sociais

Dois anos atrás, a mais sólida democracia do mundo, os Estados Unidos, caiu na mão de um zé mané, que jamais havia feito uma coisa decente no mundo real – passava a maior parte de seus dias mendigando curtidas nas redes sociais. Donald Trump é um personagem público há décadas – herdeiro de uma fortuna bilionária, carente de atenção, corrupto e mentiroso. Quem o conhece no mundo real sabe que ele é um goiaba. Mas, nas redes, ele é um gigante. Passou tantos anos hipnotizado pelo celular vociferando aos ventos sua indignação e dando pequenas satisfações dopamínicas a seus seguidores virtuais que acabou convencendo milhões de que ele é um líder. Foi eleito presidente sem praticamente conhecimento algum sobre os desafios do mundo real e a forma de encará-los. Agora, presidente, trata problemas complexos com soluções simplistas e irreais, que não os resolvem, mas atraem milhões de curtidas.

O problema não parou nos Estados Unidos, espalhou-se pelo mundo. Agora foi a vez do Brasil, que elegeu uma imensa bancada e um executivo de youtubers revoltados e whatsappers compulsivos, quase todos com sérios problemas psicológicos e carências afetivas, nenhum com muita experiência em resolver problemas reais, no mundo real. O novo presidente é um velho legislador que nunca foi capaz de escrever uma única lei que preste. O deputado federal mais votado é o filho dele, e a segunda mais votada é uma teórica da conspiração, cuja carreira jornalística medíocre foi encerrada com uma série de acusações de plágio. O Legislativo e o Executivo estão cheios de gente cuja fama vem unicamente de sua indignação online, e de sua capacidade de mobilizar a dopamina alheia. A política deixou de ter relação com o mundo real: estamos votando nas pessoas pela capacidade delas de indignar as outras nas redes sociais.

Como o critério é esse, as políticas públicas que eles propõem não têm nada a ver com resolver problemas – vingam as ideias que mais geram indignação. Mesmo que sejam uma completa estupidez. Todo mundo que entende de educação sabe que a Escola Sem Partido é a fórmula para uma educação ideológica e ineficaz. Todo mundo que entende de comércio exterior sabe que transferir a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém é o caminho para irritar parceiros comerciais importantes, sem ganhar nada em troca. Todo mundo que entende de saúde sabe que enxotar médicos cubanos sem antes ter ao menos um plano para substituí-los é garantia de uma hecatombe médica em milhares de municípios onde nenhum médico brasileiro quer trabalhar. Não importa. Não tem a ver com a realidade: tem a ver com a dopamina liberada com a indignação nas redes sociais.

Resta torcer para que haja um limite. Nos Estados Unidos, parece que houve: os erros na área da saúde pública, que Trump desmontou, foram longe demais. A oposição venceu a eleição parlamentar, no mês passado, expondo histórias reais ultrajantes de crianças com doenças congênitas que ficaram sem cobertura médica para que o presidente ganhasse umas curtidas.

Que o mundo real se imponha logo sobre as ilusões das redes sociais aqui também. Enquanto isso, vê lá se me dá uma curtida por este texto, que também não sou de ferro.

Denis R. Burgierman  é jornalista e escreveu livros como “O Fim da Guerra”, sobre políticas de drogas, e “Piratas no Fim do Mundo”, sobre a caça às baleias na Antártica. Foi diretor de redação de revistas como “Superinteressante” e “Vida Simples”, comandou a curadoria do TEDxAmazônia, e fez parte do time que criou o Greg News, primeiro comedy news da TV brasileira.
Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras.
https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2018/A-evolu%C3%A7%C3%A3o-a-internet-e-o-mundo-real-coitado