quarta-feira, 26 de junho de 2013

As manifestações

As manifestações

Para começar, é bom o povo ir para a rua. É saudável.
Mas como diz o ditado, tudo demais é veneno.
Lamento pela falta de habilidade do prefeito Fernando Haddad. É a sensação que tenho observando os fatos aqui do Ceará.
O sistema de transportes, no Brasil inteiro, é um oligopólio.
Nunca foi parte das propostas do PT a manutenção desses monopólios.
Seria necessário ver as planilhas de custos das empresas com o olhar dos trabalhadores e não dos empresários. É preciso ver com o olhar dos trabalhadores na hora das licitações.
Afinal, carrega-se a palavra trabalhador no nome: PT → Partido dos Trabalhadores.
Na primeira hora, após a repercussão da repressão feita pela PM, observando diretrizes do governo Alckmin, o prefeito deveria ter chamado o movimento. Deveria ter feito um chamamento desarmado e sem pré-condições.
Aliás, deveria ter chamado antes do aumento. Outro erro foi o governo federal ter solicitado que não houvesse um reajuste tempos atrás para não impactar na inflação.
Sei que o prefeito está no cargo há apenas seis meses, mas o PT já governou a cidade de São Paulo por duas ocasiões e já deveria ter um projeto alternativo para os transportes. Seja criando um imposto municipal sobre a gasolina ou um projeto de IPTU progressivo alternativo à necessidade de retirar dinheiro do orçamento para subsidiar o transporte coletivo, além de revisar os contratos e concessões.
Também revisar a planilha de custo das empresas deveria ter sido uma das primeiras providências do novo governo municipal.
O PT com certeza saberia pressionar e mobilizar a população para alcançar a aprovação das leis
Mas o PT mudou muito nestes 10 anos de poder federal.
Nunca fui filiado ao PT.
Já vesti camisa, usei “boton” no peito e carreguei bandeira. Já vibrei em atos, comícios e carreatas. Já fui a muitas festas. Já chorei também as derrotas.
Fui apresentado ao PT em 2005. Tinha 22 anos na ocasião. Era campanha pela prefeitura de Fortaleza. Dois candidatos, ambos políticos tradicionais, e um azarão, no caso a candidata PTista de Maria Luiza Fontenele. Deu PT na cabeça com a força da juventude e do movimento organizado.
Na época não votava em Fortaleza, votava em Jaguaretama, terra natal de minha mãe. Terra de minha família.
Mais que a mensagem de construção de um outro mundo possível, mais solidário, justo e humano, contagiava a alegria e os sonhos dos amigos que participavam mais diretamente na campanha.
Encontrávamos nos botecos e a conversa era rica. Detalhes da campanha, sonhos, informações e soluções.
Discutiam-se as questões surgidas nos núcleos de participação e organização. Na época, havia no PT um fórum permanente: os núcleos de bairros e de categorias. O PT era então um organismo vivo e em construção.
As discussões enriqueciam o partido. Existiam cobranças. Definiam-se rumos. Havia a participação de todos.
Com o tempo o PT tornou-se um partido como outro qualquer. Virou uma máquina para disputar e ganhar eleições. Perdeu organicidade. Perdeu-se a sensação de participação e pertencimento.
O PT hoje é um partido de donos. Como dizemos aqui no Nordeste, há os coronéis que são donos. Ou caciques. Qualquer forma cabe no mesmo conteúdo.
Tudo é decidido pelas lideranças. Eleições, acordos, conchavos e coligações são decididas pelas “lideranças”.
Por isso o PT foi surpreendido pelas manifestações.
Não há mais uma militância orgânica. As lideranças hoje têm cargos no executivo ou no parlamento. Não moram e não convivem mais na periferia. As exceções apenas confirmam a regra.
Entendo também que o que está nas ruas hoje, além de jovens que não entendem o mundo onde habitam, são malucos, delinquentes e uma classe média despolitizada e preconceituosa.
Não existem planos e nem estratégias. Não há sonhos a se conquistar. Apenas a vontade de aparecer e dizer que é contra tudo.
Sinal de uma juventude alienada, egoísta, consumista e individualista.
Gritam contra o PT. Pedem que o PT saia do poder. Querem saúde, habitação, educação, segurança e transportes. Tudo obrigações dos governos municipal e estadual. Tudo que só pode ser feito pelo governo federal sob demandas dos governos municipais e/ou estaduais, onde o PT não é o partido majoritário.
Gritam contra a aprovação da PEC-37, mas quando questionados, não conseguem explicar coerentemente o que é a PEC-37. Não sabem a raiz do problema. Repetem bovinamente o que, de maneira desonesta, é colocado pela mídia e pelos procuradores.
Não conseguem perceber que a ausência do MP nos processos investigatórios é uma decisão filosófica dos constituintes.
O MP é parte da ação penal. Sua participação conduzindo o inquérito é uma afronta ao equilíbrio da justiça.
O procurador/promotor que conduz o inquérito pode ignorar provas se for de sua conveniência para condenar/absolver o réu. A exclusividade das polícias para condução dos inquéritos garante uma parte de fora do processo no inquérito.
Maior afronta é que não ficarão todas os inquéritos sob a responsabilidade do MP. Ele quer decidir em quais participa. O MP quer a seletividade. O que é um absurdo. Se ele quer essa prerrogativa, que fique com a obrigação de presidir e conduzir todos os inquéritos. Mas o MP quer apenas os que podem repercutir na mídia. Ele quer escolher qual inquérito. Os que dão trabalho, e que são a maior parte dos trabalhos do dia-a-dia, é para continuar com as polícias.
Querem poder partidarizar e fazer política. Querem o poder de ameaçar. Querem simplesmente o poder com essa seletividade.
Basta ver as ações de nosso PGR. Não faltam denúncias nas páginas de jornais, blogs e tribunas do congresso sobre a seletividade de suas ações, com engavetamento de processos contra “autoridades”.
Voltando às manifestações, creio que elas se esvaziarão naturalmente. A direita e a mídia não têm propostas e nem sonhos para manter o povo nas ruas. Todo modismo passa.
Como em 2005, gastaram pólvora antes da hora.
2014 continuará com pleno emprego, inflação e juros em baixa, além de jovens com condições de estudar e mudar de vida.
Isso é muito para quem era miserável até o início do governo Lula.
Mas é pouco para um governo eleito com tantos sonhos.
Talvez a manifestação sirva para acordar o PT e o governo federal. Acordar para sentir o povo e enxergar onde estão os amigos e companheiros de estrada, que sempre estiveram ao seu lado.
Hora de reconhecer a importância e prestigiar os movimentos sociais. Prestigiar o MST pela luta por uma reforma agrária digna de um Brasil justo. Hora de prestigiar o serviço público contratando servidores e alterando a lei que permite a nomeação de cargos comissionados indiscriminadamente. Hora de olhar com carinho e respeito a causa indígena.
Hora também de identificar os inimigos do povo brasileiro. Hora de quebrar monopólios e alterar a estrutura deste País.
Precisamos mudar a realidade econômica da nação. Precisamos quebrar os monopólios da comunicação, dos transportes, da saúde, da educação. Precisamos frear a influência do capital financeiro e especulativo.
Podem ser bandeiras genéricas, mas não é para chamar o povo para as ruas em defesas destas bandeiras.
É para servir de norte.
O PT que conheci pensava assim.
Hora de propor mudanças que afetem positivamente a vida do povo brasileiro. Hora de chamar o povo para ruas para lutar pelas medidas necessárias e pressionar o congresso.

Hora de ser verdadeiramente “sem medo de ser feliz”.
Jeri, 21 de junho de 2013

Série C

Série C
Com relação a série C, interrompida agora com a Copa das Confederações, não vi os jogos do Rei Leão. Apenas acompanhei pelo rádio.
Sei que não se pode perder pontos em casa para times que não disputarão a classificação, como foi o caso do Águia de Marabá. É obrigação ganhar.
Foram boas as vitórias sobre Baraúnas e Rio Branco fora de casa, mas os times que verdadeiramente disputarão as vagas, também deverão vencer.
Aposto minhas fichas em Fortaleza, Sampaio Correia, Santa Cruz, Luverdense e CRB na luta pelas quatro vagas.
Treze de Campina Grande, Águia de Marabá, Rio Branco, Mixto e Brasiliense lutarão contra o rebaixamento.
Assisti Sampaio X Brasiliense e Santa X CRB. O Brasiliense terá de melhorar após a Copa das Confederações para disputar alguma vaga.
Nenhum time anormal. Muita vontade e correria.
A contratação do Guaru foi uma boa atitude. Houve melhora no passe e apareceu a oportunidade na bola parada.
Espero a volta do garoto Edinho e do Lúcio para qualificar o meio de campo.
O Leãozinho acabou se se tornar, mais uma vez, campeão cearense. É hora de aproveitar a garotada. Tem boas opções lá.
Acredito que falte ao Rei Leão um jogador pesado, que jogue de pivô na área.
Pelo que o mercado oferece, não há outro disponível, analisando-se o custo-benefício, afora o Luiz Carlos.
Maluco, indisciplinado, mas eficiente. Não defendo sua contratação para ser o titular, mas para ser uma opção no segundo tempo. Podemos precisar e a hora de contratar é agora.
Não dá para haver vontade imperial do treinador.
Arrumar o meio de campo. Se o lateral direito não apóia, que ele fique na marcação e o Edinho ocupe a direita do ataque. O Dico também é uma boa opção para ser o meia atacante.
O Lúcio poderia ser utilizado como segundo volante pela esquerda ou como lateral esquerdo, substituindo o Donizete no segundo tempo.
Insisto na utilização dos garotos Walfrido e Jeferson na contenção.
Bom, espero que a diretoria tenha tido o bom senso de ter renovado os contratos desta garotado por pelo menos três anos. E, mais importante, que não deixe para utilizar a garotada no aperreio e quando o contrato estiver prestes a ser encerrado, como vemos sempre acontecer.

Jeri, 13 de junho de 2013

Campeonato Cearense, ainda a semifinal.

Campeonato Cearense, ainda a semifinal.

Ainda não havia falado dos jogos semifinais do campeonato cearense 2013 entre Fortaleza e ceará.
Acompanho o Rei Leão desde 1973. Nunca vi um time tão desfibrado. Tão sem alma.
Os resultados do brasileiro B 2013 mostram que o ceará não tinha, e nem tem, um time tão forte assim. Na realidade, empatou os dois jogos finais com o Guarani de Sobral, derrotado pelo Rei Leão na fase classificatória.
Sei que ocorreram excessos de problemas clínicos e físicos nesta semifinal.
Mas acredito que o principal problema foi o relacionamento do treinador com o elenco e apostas e conceitos equivocados.
Brigas, afastamentos de jogadores, treinamentos fechados e ausência de participação da torcida foram fundamentais. Não foi uma política acertada. Isso causa desgastes junto ao elenco.
Afora o sub-20, o Rei Leão contava com cinco zagueiros: Fabrício, Ciro Sena, Ronaldo Angelim, Gabriel e Charles.
Seriam suficientes. Ocorre que nas duas semanas anteriores aos jogos, Gabriel e Charles se machucam e na semana anterior o Ronaldo Angelim fratura o nariz. O Ciro Sena é afastado por desentendimentos com o treinador. Sobrou o Fabrício, que tinha sido afastado após desentendimento com o treinador após jogo em Juazeiro do Norte e reintegrado. É muita imprevidência.
Sempre me posicionei contra essa estória de se contratar jogadores sem critérios. A grande maioria torna-se reserva. É preciso dar espaço aos garotos da base para que tenham chances no time profissional. Pelo menos a chance de treinar junto aos profissionais e serem observados.
As ausências são resultados do azar, tendo como componente complementar a imprevidência. Poderíamos ter jogado com um zagueiro da base em vez de jogar com um volante da base improvisado.
Além dos problemas da zaga, tivemos também problemas no meio de campo. Lúcio e Edinho se machucaram também.
Poderia ter lançado mão do Guto como meia esquerda, mas, além do Guto ter problemas existenciais, houve a incompreensão do treinador com o Guto. Poderia ter lançado o Rafinha como meio de campo, mas também o Hélio do Anjos tinha problemas de relacionamento.
Jackson Silva e o Jackson Caucaia são, no máximo, jogadores de elenco, para fazer número. Nunca seriam jogadores decisivos.
O erro de concepção do Hélio dos Anjos foi montar um time acreditando que o Jussimar seria uma alternativa no meio de campo.
Todos nós nos demos mal pela aposta. É apenas um atacante razoável, com velocidade.
Filosofia é uma palavra que não se encerra em si mesma. Deveria ser o norte das decisões.
Trabalhar os garotos da base e fazer contratações pontuais. Criaria a chance de que aparecessem revelações, que poderiam render em futuras transações, e, mais importante, seriam o incentivo para a participação de novos jovens na categoria de base, sendo assim parte de um ciclo.
Quando se contrata jogadores que apenas comporão o elenco, afasta-se a possibilidade de aproveitamentos dos jogadores da base e se contrata jogadores que não farão diferença.
As partidas contra o ceará foram jogadas por um time emocionalmente desfigurado, sem planejamento tático e incapaz de evoluir conduzindo a bola. Sem falar na qualidade técnica de alguns jogadores que, diríamos, são inexistentes.
O ceará sentou-se na vantagem do empate e ficou na espera, com uma defesa bem plantada. Retomava a bola com facilidade e “tome lançamento longo”. Encontrava sempre uma defesa mal posicionada e ganhou com facilidade as duas partidas.
O Fortaleza mostrou-se um time ruim, desorganizado e frágil. Mal posicionado em campo, perdido no meio de campo e incapaz de atacar com consciência.
Tudo resultado da opção do treinador e de uma diretoria perdida e sem planejamento.

Jeri, 13 de junho de 2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Cuba pela cubana Dra. Patricia Ares Muzio


C U B A Havana. 22 de Maio, de 2013
Uma olhada ao modelo cubano de bem-estar
Dra. PATRICIA ARES MUZIO

EM muitas ocasiões, perguntei aos meus estudantes quais seriam as principais razões para dizer que em Cuba é bom viver. A maioria das vezes as respostas estão relacionadas com o acesso à saúde, à educação e à previdência social e, com certeza, estes são os pilares do nosso modelo socialista, mas para as pessoas jovens constituem realidades tão assumidas, a partir do cotidiano, que se tornam demasiado habituais ou ficam congeladas num discurso que, com a força da repetição, se torna irrelevante.

Eu me atreveria a dizer que existe um modelo cubano de bem-estar, que tem sido assumido com tanta naturalidade acrítica e que fica invisível para os nossos olhos ou, contraditoriamente instalado na voz de muitos dos que já não estão, depois de tê-lo perdido, ou de visitantes que vivem outras realidades em seus países de origem. Da vida cotidiana em Cuba, o mais das vezes, se fala das dificuldades, sobretudo de tipo econômico, mas poucas vezes se escuta falar das nossas bondades e fortalezas.

Algumas experiências profissionais me fazem pensar muito em nosso socialismo, visto como cultura e civilização alternativa. Naquela ocasião, quando um grupo de psicólogos e especialistas participamos do retorno do garoto Elián González, este tema apareceu com muita força. Recentemente, em consultas, conversando com algumas pessoas idosas repatriadas, com crianças que por decisão de seus pais devem ir a residir a outros países ou com jovens que retornaram da Espanha, depois de viver a experiência de ficar sem trabalho e sem dinheiro para pagar a renda, volta a ressurgir, a partir de suas vivências, a ideia do modelo cubano de bem-estar.

Lembro que quando o garoto Elián González estava nos EUA e o avô Juanito lhe dizia pelo telefone que lhe estava construindo um rolimã para quando retornasse, depois, no outro dia, o garoto aparecia na tevê com um carro elétrico (um brinquedo) que parecia de verdade, que lhe tinham dado como presente. Se os avós ou o pai lhe diziam que o cachorro tinha saudades dele, no outro dia Elián aparecia com um cachorro de Lavrador que lhe tinham presenteado. Se lhe diziam que lhe tinham comprado um livrinho de Elpidio Valdés, depois Elián aparecia vestido de Batman. Contudo, o carinho de sua família, o amor de todos os que o esperaram, a solidariedade de seus amigos da sala de aula, de suas professoras, puderam mais do que todas as coisas materiais do mundo.

Há pouco, conversando com um idoso que decidiu não retornar aos EUA, depois de ter vivido 19 anos nesse país, me dizia: "É verdade doutora, lá se vive com muitas comodidades, mas isso não é tudo na vida, lá a gente não existe para ninguém". Contou-me que passava muito tempo sozinho na casa, esperando que os filhos e os netos retornassem do trabalho e da escola, que não podia sair, pois segundo eles não podia conduzir sozinho, e que durante o dia o bairro em que vivia sempre estava desolado, que ninguém tinha tempo de conversar com ele. Numa visita que fez a outra filha que vive aqui em Cuba, decidiu não retornar. Agora diz que faz exercícios no parque, que joga dominó, que ajuda o neto nas tarefas da escola e a dois amigos que tem; que conseguiu recuperar alguns amigos que deixou aqui em Cuba e que com o dinheiro que lhe enviam e com a ajuda de sua família aqui, tem suficiente para cobrir seus gastos. Em suas palavras textuais, me disse: "Alguns conhecidos diziam-me que ia vir para o inferno, mas realmente, sinto-me no paraíso". Evidentemente, o modo de vida que tem agora não será o paraíso, mas lhe provoca maior bem-estar.

Um dia, trouxeram à minha consulta uma criança, filho de dois diplomatas, que veio de férias e não queria retornar com os pais; dizia que ela queria ficar com a avó, que ela não queria ir embora de novo, que não gostava de estar lá. Quando perguntei aos pais o que acontecia à criança, contaram-me que lá tinha que viver encerrada por razões de segurança, que quase não tinha amigos para compartilhar depois da escola, e que não estavam os primos aos quais adorava. "Assim que chega aqui a Cuba é como se estivesse livre — contaram-me os pais — vai para o parque com os amigos do bairro, vai passear com os primos, joga beisebol e futebol na rua, sempre está acompanhada dos avós, dos primos, dos tios". Na entrevista com o garoto, me contou que os primos lhe diziam que ele era tolo, porque queria ficar em Cuba, tendo a oportunidade de estar noutro país. E ainda me contou que quando estava em Cuba sentia imensas saudades da pizza de pimento, mas que era capaz de trocar um milhão dessas pizzas por ficar aqui em Cuba.

Um jovem que veio da Espanha, contou-me que lá ficou sem trabalho e, logicamente, não tinha dinheiro para pagar a renda. A dona do apartamento lhe deu três meses de prazo, mas como não tinha dinheiro teve que ir para a rua, e que o mais triste do caso era que ninguém, nem seus amigos, o ajudaram, e teve que retornar porque a opção que tinha era dormir no metrô ou retornar para Cuba com seus pais. "Sempre é a família que te recebe", contou-me.

Então, eu penso muito nestes depoimentos, que muito bem poderiam servir para tantos jovens que não encontram nenhum bem-estar no fato de viverem em Cuba e que somente imaginam uma vida "de progresso" no exterior, ou avaliam a vida no exterior como uma vida de sucesso e oportunidades, mas eu pergunto: o que temos aqui que falta noutros lugares? O que descobriram a criança, o idoso ou o jovem que veio da Espanha, a partir de suas experiências lá, que nós não vemos aqui? Realmente, o modelo de vida que propõem as sociedades capitalistas contemporâneas constitui, atualmente, um modelo de bem-estar, apesar de ser vendido pelos meios de comunicação como o "sonho do progresso prometido"? Hoje, falamos da boa vida ou de viver bem, de vida cheia ou vida plena? 
Necessariamente, o desenvolvimento econômico e tecnológico é a única coisa que garante o bem-estar pessoal e social?
Vou fazer um esforço de síntese, a partir destas experiências profissionais, naquilo que, segundo eu considero, radicam algumas das bases do nosso modelo cubano de bem-estar.

EM PRIMEIRO LUGAR, NÃO SENTIR-SE EXCLUÍDO, NÃO VIVER A "ANOMIA SOCIAL"

Este é um tema de profundas conotações espirituais e éticas. Quando a gente chega a um bairro em Cuba e pergunta por uma pessoa, geralmente lhe dizem: "Mora naquela casa".Todos os cubanos temos um nome e uma biografia, porque todos temos espaço de pertença (família, escola, comunidade, local de trabalho) e de participação social, todos temos assumido alguma responsabilidade no bairro participamos das reuniões, votamos na mesma urna, compramos os produtos no mercado. Com certeza, nalgum momento temos dito: "Os mesmos rostos todos os dias, mas justamente aí radica um cenário vital de grandes dimensões humanistas e solidárias".

A anomia social ou, de acordo com as palavras do idoso que eu entrevistei, a frase "Você não existe", é contrária ao que vivemos em Cuba, é a experiência de viver sem ter um lugar, sem ser reconhecido ou advertido, e não se trata dum lugar físico, mas sim dum lugar simbólico, um lugar de pertença e participação, um lugar que dá sentido à vida. Viver num lugar assim é sentir-se isolado, em solidão existencial, é sentir-se estranho, e esse é um dos problemas do mundo atual. Inclusive, os lugares onde hoje coexistem muitas pessoas, mais do que lugares de encontros são especialmente "não lugares". É inconcebível que num metrô possam ir diariamente centenas de pessoas que não trocam uma palavra e que mostram maior contato com os meios tecnológicos, numa espécie de autismo técnico, que de pessoa a pessoa.

Outro "não lugar" são os aeroportos e os grandes mercados (catedrais do consumo): muitas pessoas juntas e absolutamente nenhum contato. Se a pessoa cair ao chão, ninguém a auxilia, porque, além do mais, existem tantas leis de "direitos cidadãos" que supostamente protegem as pessoas a partir de uma visão individualista, que ninguém a toca, sob o risco de ser acusado de acosso sexual. O "não contato" e a indiferença estão legislados.

Hoje em dia, a realidade social noutros países faz com que cada vez estejamos mais excluídos que incluídos. Independentemente das desigualdades sociais, como consequência das realidades econômicas atuais em Cuba, nossas políticas promovem a inclusão social, com o objetivo de eliminar a distância de gênero, cor da pele, capacidades físicas, orientação sexual. Cuba, como sistema social, apesar de todas as dificuldades e contradições, tenta construir um mundo para todos, onde a reciprocidade humana espontânea exista, a partir destas condições. Na "outra geografia", no mapa da globalização neoliberal, dividida em classes, os vínculos entre as pessoas estão afetados por diferenças dissímeis; as pessoas ficam afastadas entre elas por fronteiras invisíveis, que dilaceram a integridade e a participação.

OS ESPAÇOS DE SOCIALIZAÇÃO

Os espaços de socialização são muito importantes na vida, o conjunto social é o recurso, o sustento para todo sujeito, pois é claro que certamente é nele que uma pessoa pode desenvolver-se em seu potencial com plenitude. As famílias vivem atualmente isoladas, em muitas partes do mundo, e enquanto maior é o nível de vida, maior é o modo de vida enclaustrado.

Ninguém conhece o vizinho mais próximo, ninguém sabe como se chama, dentro das casas os membros não têm muito espaço face a face, pois a invasão da tecnologia é tal que um pai pode estar chateando com um colega no Japão, sem ter a menor ideia do que acontece com o filho no outro cômodo. Segundo estudos realizados noutras partes do mundo, o tempo de conversação olho nos olhos, que um pai dedica aos filhos, não passa de dez minutos diários.

Um dos grandes impactos do modelo capitalista hegemônico atual é o pouco tempo para a família ou para outros espaços comunitários, os dias entre semana a família como grupo "não existe", os horários extensivos e intensivos de trabalho dos pais, para poder cobrir as cada vez maiores exigências do consumo, fazem com que aqueles velhos rituais e tradições familiares sejam eliminados da vida cotidiana. Os psicólogos e sociólogos de muitos países expressam que os maiores impactos desta realidade são a solidão infantil e a ausência de vínculos com os idosos. Muitos jovens da classe média ou média alta chegam da escola sem que no lar apareça um rosto adulto, até horas avançadas, ou permanecem com uma pessoa que os cuida e lhes dá de comer, mas essa pessoa não substitui o carinho e a atenção dos pais.

Os meios tecnológicos aparecem como o antídoto à sociedade, mas sem nenhuma restrição dos adultos, o que pode produzir adição aos vídeogames, incrementar a violência, etc. É pouco frequente que as crianças e adolescentes dispunham, no mundo atual, das praças públicas, das ruas, dos parques ao ar livre como lugares de encontro porque não há segurança cidadã para isso. Os espaços temporais da rede urbana destinados para a juventude são vistos pelos adultos como lugares de ameaça e perigo, mais do que de lazer e construção de nexos sociais. Em Cuba, os parques e as praças continuam sendo lugares de socialização de diferentes gerações.

A família cubana é tecida em redes sociais de intercâmbio, com os moradores, com as organizações sociais, com a escola, com os familiares, incluídos os emigrados. O característico do modo de vida dos cubanos são os espaços de socialização, o tecido social que não exclui nem deixa sem nome ninguém. Eu diria que a célula básica da sociedade em Cuba, além da família como lar, o constitui a rede de intercâmbio social familiar e dos moradores do bairro; esse tecido social em redes representa uma das maiores fortalezas invisíveis do modelo cubano de bem-estar, é precisamente aí onde radica o maior sucesso do nosso processo social, a solidariedade social, a contenção social, o intercâmbio social permanente. Esse capital é somente perceptível para aquele que o perde e começa a viver outra vida fora do país.

Apesar de que temos dificuldades econômicas e problemas ainda sem resolver, em Cuba a família existe. A família cubana começa a viver intensamente, depois que as crianças saem da escola e os meninos, jovens e adolescentes fazem vida familiar-comunitária, a partir de que saem da escola.

A vida familiar em Cuba não se realiza à porta fechada. A porta dum lar cubano pode ser batida muitas vezes por muitas pessoas, pelos moradores do bairro, pela enfermeira, por um vendedor. O cubano tem que sair todos os dias para ir ao mercado, para visitar um vizinho, para ir à farmácia, para procurar os filhos na escola. A vida familiar em Cuba é vivida pelas várias gerações, onde todas as idades interagem, a maioria das pessoas idosas não vive em asilos, seu verdadeiro espaço, geralmente, é a comunidade.

A SOLIDARIEDADE SOCIAL NA CONTRAMÃO DO INDIVIDUALISMO

No cenário internacional atual o bem individual é mais importante que o bem social, o modelo de desenvolvimento econômico coloca as pessoas ante o desejo de viver "melhor" (às vezes, a custa dos demais) acima de viver todos bem. Hoje em dia, algumas pessoas dizem "eu não faço mal a ninguém, que ninguém me critique, eu gosto de fazer as coisas assim, é meu corpo, é minha vida, é meu espaço", escolhem a atuação que maximize os benefícios e os lucros. O "nós" se substitui pelo "eu". A conduta egoísta neste mundo hegemônico atual é denominada e bem ponderada como "racionalidade instrumental", quando realmente essa racionalidade oculta uma grande insensibilidade social.

Em nosso país, existe a solidariedade social, embora hoje vivamos uma sorte de paralelismo entre nossos comportamentos solidários e a insensibilidade de algumas pessoas. A socialização do transporte ou "dar carona", por exemplo, fazer dos teus vizinhos tua família, a socialização entre vizinhos dos telefones particulares, oferecer a casa particular como sala de aula depois dum furacão que afetou a escola, são exemplos do nosso intercâmbio solidário. Uma jovem contou-me numa ocasião que nas escolas, na hora da merenda, o grupo de amigas juntava o que traziam para comer e todas compartilhavam e comiam o mesmo. Para elas o mais importante era a amizade e a irmandade.

A CRIATIVIDADE E INTELIGÊNCIA COLETIVA

Em Cuba, além de que as pessoas podem conversar e intercambiar, pode dar-se o luxo de uma boa conversa com muitas pessoas. Nós todos sabemos de algo, todos podemos dar uma opinião ou podemos ter boas ideias, temos cultura política, cultura esportiva, ou alguns sabem muito de arte. Temos capital cultural acumulado e isso faz parte do nosso patrimônio social e do bem-estar invisível. Não somos ignorantes. Os cubanos e as cubanas impressionamos por nossa capacidade para conversar, para dar ideias e critérios. Um dos grandes problemas que tenho como psicóloga clínica é que o tempo passa muito rápido nas consultas, porque conversamos muito; algumas pessoas me trazem uma lista de coisas escritas para não esquecer o que desejam dizer. Estamos acostumados a dispor de muito tempo e isso é um luxo nos momentos atuais, quando ninguém tem tempo para nada, onde em todas as partes do mundo se vive a síndrome da pressa.

Nas minhas visitas para dar aulas em países latino-americanos, nos trabalhos de estudo sobre a família que os estudantes devem apresentar, a realidade familiar-social que apresentam me deixa perplexa, pelo número de problemas sociais acumulados, não só em famílias pobres, mas de qualquer classe social. Entendo pelo que escuto, que nós estamos a séculos de distância, porque o tema não é econômico, senão de ignorância, de pobreza mental acumulada, de estigmas sociais, preconceitos de classe, de gênero, de raça, violência contra a mulher, soluções mágicas aos problemas sem fundamento científico, abuso sexual infantil, poligamia, taras genéticas por uma sexualidade irresponsável ou sexo entre parentes, tudo isso são problemas cotidianos. São os problemas associados ao desamparo social, à ausência de programas sociais de prevenção. Para nós é exceção o que para eles é cotidiano.

Como professora, eu sinto que nossa população é culta e desenvolvida, e vivemos sem quase dar-nos conta. E embora o cotidiano aparentasse ser sem transcendência é o grande pano de fundo da história. Alguns jovens emigrados se dão conta desta realidade social tão diferente com a que têm que aprender a lidar.

COMO POTENCIALIZAR NOSSO MODELO CUBANO DE BEM-ESTAR?

O novo modelo econômico tem entre seus objetivos incrementar a produtividade. Com este novo modelo econômico o grande desafio é fortalecer nossa proposta cubana de bem-estar, que representa uma alternativa ao anti-modelo dominante, uma concepção que também compartilham e reiteram praticamente todos os povos indígenas do continente e do mundo e provem de uma grande tradição dentro de diversas manifestações religiosas.

Todas estas visões, incluída a cubana, é que o objetivo global do desenvolvimento, que não é ter cada vez mais, senão ser mais, não é entesourar mais riqueza, senão mais humanidade, se expressa em sua insistência de viver bem em vez de melhor, o que implica solidariedade entre todos, práticas de reciprocidade e o desejo de conseguir ou restaurar os equilíbrios com o meio ambiente e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de vida da população. Contudo, a melhora nas condições de vida não vai reverter sozinha os problemas de índole social que temos acumulado. A dimensão econômica não pode afastar-se das dimensões sociais, culturais, históricas e políticas que outorgam ao desenvolvimento um caráter integral e interdisciplinar, para recuperar como objeto fundamental o sentido do bem-estar e de convívio.

Não é preciso ser um cientista social para saber que, à margem das condições de vida, em nosso país existem muitas pessoas e famílias que mais do que pobreza material já têm instalada a pobreza espiritual. Algumas famílias têm pobreza mental, expressas em suas estratégias de vida afastadas dos mais elementares comportamentos decentes, em seus padrões de consumo distantes da realidade de nosso país, próximos da tendência material supérflua, em suas aspirações afastadas do bem-estar comum. Eis a cultura da banalidade e da frivolidade própria do modelo hegemônico atual.

A acumulação de problemas materiais, por causa da crise econômica da década de 90, deteriorou substancialmente os valores em nível social. Os valores não são só princípios, senão que devem ir acompanhados de comportamentos, para que não percam sua eficácia. 
Se a partir das práticas contradizemos os princípios, então estamos ante uma crise de valores.

Cuba não é alheia às influências hegemônicas do atual mundo unipolar e supostamente global. É preciso continuar tentando construirmos um modelo de bem-estar alternativo "à intempérie", sob todas as influências que gera a colonização da subjetividade, incluindo-nos, apesar do efeito modulador de nossas políticas sociais. No mercado não valem os ideais, mas sim a capacidade de consumo, os não-consumidores se tornam seres humanos "não reconhecidos", excluídos de todo tipo de reconhecimento social.

Atualmente, existe uma saturação de informação, algumas muito boas, mas outras cheias de mediocridade e superficialidade. Os meios de comunicação do atual modelo hegemônico fomentam a banalidade, com o objetivo de venderem mais. Somos saturados com romances, séries e filmes de violência que têm um poder de encantamento incrível porque cativam, mas corremos o risco de cair no ócio e na adição (drogas, álcool, sexo promíscuo, dinheiro fácil, videogames).

Quando o Prêmio Nobel da Paz, Gandhi, assinalou os sete pecados capitais da sociedade contemporânea referiu-se, precisamente, ao contexto global onde nos encontramos imersos: Riqueza sem trabalho, prazer sem consciência, conhecimento sem utilidade, comércio sem moralidade, ciência sem humildade, adoração sem sacrifício e política sem princípios.
No mais das vezes, a publicidade e o mercado associam o bem-estar ao prazer, a ter mais, ao sucesso, ao status.

É verdade que, caso não termos muita cultura, a tendência a pensar que ter significa bem-estar, e deixar-nos apanhar por todas as propostas de consumo, que crescem como "erva má", é submeter-nos à ignorância. A ética do ser requer de uma formação moral, de uma preparação, uma educação familiar, em geral de uma educação de maior envergadura e a isso é que temos que apostar como sociedade.

FOMENTAR A SOLIDARIEDADE SOCIAL

Com o fortalecimento do trabalho independente, a comunidade constitui o espaço vital de muitas famílias. Família-comunidade-organizações-trabalho se fortalecem em seus vínculos. Contudo, os novos cenários constituem uma magnífica oportunidade para fortalecer a vida comunitária, além de potencializar o trabalho em benefício do bem-estar comum. Cuba contribuiu com a diferença no sentido de solidariedade e responsabilidade social que temos incorporado.

Torna-se necessário potencializar uma cultura solidária e uma responsabilidade social que sirva de antídoto à entrada da cultura do mercado. É importante que as pessoas mantenham sua ética solidária, que não se fragmente o projeto coletivo. Embora o nome, e não a ideia do trabalho independente esteja sugerindo uma certa desvinculação social, que não representa nossa ética solidária.

FORTALECER O ESPAÇO COMUNITÁRIO

A família e a comunidade têm ganho em importância em Cuba, como cenários da vida nos tempos atuais. Quando algum visitante conhece nosso modelo de vida comunitário, em ocasiões expressam que no seu país antes se vivia assim, mas há mais de dez anos que se vive "com a porta fechada" e as casas vazias durante boa parte do dia. Isto é devido, em sua maioria, ao surgimento de novas tecnologias, a horários de trabalho cada vez mais extensos, à frequência com que mudamos de trabalho e de casas, e a cidades cada vez maiores e povoadas. O crescimento do individualismo está tornando cada vez mais difícil encontrar uma sensação de comunidade. A comunidade foi reduzida ao núcleo familiar mínimo, e nestas circunstâncias é muito fácil cair no isolamento, que leva à depressão e à solidão, provocando um colapso social, com resultados drásticos.

Quando as pessoas de todas as idades, grupos sociais e culturas sentem que pertencem a uma comunidade, tendem a ser mais felizes e saudáveis, e criam uma rede social mais forte, estável e solidária. Uma comunidade forte traz muitos benefícios, tanto ao indivíduo como ao grupo, ajudando a criar uma sociedade melhor. Nosso grande desafio é que nossas portas não se fechem, que não percamos a sensibilidade pelos outros, por nosso bairro e entorno, que continuemos preocupando-nos pelo bem-estar comum.

As diferentes formas de inserção à economia não têm deteriorado o tecido social existente porque não somos uma sociedade estratificada em classes sociais, mas sim tecida em redes familiares, entre vizinhos e entes sociais e mantemos uma ética solidária.

Uma aspiração importante é que na comunidade se encontrem soluções para muitos dos problemas sociais que temos, baseadas fundamentalmente nessa visão de comunidade como espaço potencializado na solução dos problemas. Para isso, será necessário maior dinamismo da comunidade em sua capacidade de influir nos problemas locais.

É importante manter o envolvimento dos cidadãos na vida social, preservar o cuidado dos nossos espaços, o respeito às pessoas idosas, aos meninos, às mulheres, às pessoas deficientes e, sobretudo, manter a responsabilidade social na educação das novas gerações.

Tomando em consideração todos estes elementos, considero que temos uma grande responsabilidade social de não perder nosso modelo cubano de bem-estar, que nosso país tem condições sem precedentes para marcar a diferença, que é preciso continuar resistindo a colonização da cultura e da subjetividade, que o grande desafio é continuar propondo outros modelos de ser humano e de coletividade que realmente indiquem caminhos de verdadeira humanização.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Simulação no futebol: ética ou esperteza

Simulação no futebol: ética ou esperteza
Estava vendo agora o jogo da Argentina contra Colômbia e fico a imaginar.
Será que os jogadores têm consciência de seus atos?
Um jogador que simula uma agressão, tipo cotovelada, ou uma entrada desleal, quando na realidade nem foi tocado, e que cai e fica se contorcendo em dores, com as mão no rosto ou o rosto crispado de dor, não teria vergonha em saber que nas repetições durante às transmissões dos jogos, fica claro, para o espectador, do engodo ou da tentativa?
E se um companheiro seu acreditasse no “teatro” e resolvesse tomar as dores e agredisse o pseudoagressor?
Teria como resultado a expulsão, prejudicando o time, e uma suspensão, prejudicando o jogador e o time.
Imaginando a situação noutra perspectiva, eu teria vergonha em ser pilhado numa mentira.
Será que os valores mudaram?
Mentir é ser esperto?
Para mim, mentir ainda é ser mentiroso.
Quem acredita que o Neimar é um jogador “cai-cai”, ou que simula demais, não conheceu o Clodoaldo nos bons tempos. Nunca vi ator melhor.
Mas será isso um comportamento correto?
Ética? Uma palavra ou uma filosofia?
Será que os treinadores criticam ou estimulam tal procedimento em nome de uma vitória a qualquer preço?
Quantos gols deixaram de ser marcados porque o jogador desistiu da jogada e procurou enganar o árbitro?
O maior jogador da atualidade tomou uma decisão. Se for derrubado se levanta. Levanta e surpreende a todos. Nunca desiste da jogada. Não simula. Assim é Messi.

Não usa de artifícios. Usa de sua capacidade de jogar futebol. E que os adversários corram atrás.

Uma revolução é possível? E o futebol é realmente brasileiro?

Uma revolução é possível? E o futebol é realmente brasileiro?
Começo por pedir desculpas aos jornalistas, radialistas ou cronistas esportivos por começar com uma crítica, em maior ou menor grau, e não é específica.
Mas não é possível que a imprensa esportiva, principalmente a paulista e carioca não consiga perceber que o Brasil é maior que Rio e São Paulo. Que há futebol em todo país.
Falo porque, independente do programa, estação ou veículo, parece que o Brasil se resume a série A ou aos times de Rio e São Paulo. Claro que com algumas exceções. Só para confirmar a regra.
Lamento, mas quando vocês estão em rede nacional, deveriam ter em conta este detalhe. E quando falar do futebol do NO, NE e CO, falar com seriedade, porque, palhaçada por palhaçada, temos de norte a sul deste País circense.
Existe um ditado que diz: “nenhuma corrente é mais forte que seu elo mais fraco”. Acho graça quando escuto cronistas falando que o “futebol brasileiro” está contratando grandes jogadores internacionais. Kkkkkkkk. Realmente o “futebol brasileiro” está bem.
Queria que os cronistas esportivos, que enxergam apenas 12 times de futebol no Brasil, explicassem o que eles entendem como definição de futebol profissional.
Seria 40 times jogando o ano todo e a grande maioria jogando apenas 2 ou 3 meses? É isso que eles chamam de calendário do “futebol brasileiro”?
Realmente é um calendário do FUTEBOL BRASILEIRO.
Defendem o fim dos estaduais.
Pergunto: será que eles imaginam que eu, cearense “da gema”, nascido e criado por aqui, vou torcer por um time do sul maravilha?
Acreditam mesmo que vou comprar a camisa do Fluminense ou São Paulo? Acreditam que vou levar meu filho para o estádio apenas para assistir ao jogo do “Fluzão” ou São Paulo quando tiver de acontecer por aqui?
São loucos ou mal-intencionados?
Será que imaginam que entre um jogo desses “perebas” do campeonato brasileiro e um jogo da UEFA ou do campeonato alemão, espanhol ou italiano, ou até mesmo do inglês, vou assistir uma pelada nacional, com comentaristas que dão vergonha a quem entende de futebol?
Acredito que o cronista tenha o direito de torcer. Mas não dá para ouvir um comentário claramente compromissado com os interesses da emissora. Dizer que uma pelada é um grande jogo é dose.
Também creio que os clubes brasileiros estão cavando a própria sepultura. Apostam todas as suas fichas na TV. Não creio ser a política mais acertada e segura. Prefiro torcedor nos estádios. È só observar a média dos últimos campeonatos.
Hoje vemos rios de dinheiro serem desperdiçados por administrações amadoras e oportunistas, que não é privilégio do dirigente nordestino. Maiores verbas e maiores dívidas.
Poucos clubes aproveitaram esses recursos para melhorar efetivamente suas estruturas físicas e sua parte administrativa. A maior parte dos recursos foi empregada em jogadores repatriados da Europa, veteranos e ex-jogadores, que não perceberam a passagem do tempo.
Dinheiro com facilidade e quantidade das TVs e de patrocínios questionáveis, geraram uma inflação no preço do futebol e uma irresponsabilidade nas contratações de jogadores, com retornos técnicos e financeiros duvidosos.
Observando o passado, compreendemos o presente e visualizamos o futuro.
Houve um passado onde não havia competições nacionais. Havia campeonatos estaduais e algumas competições regionais (Roberto Gomes Pedrosa e copa Norte-Nordeste) e um arremedo chamado Taça Brasil.
Havia jogos entre seleções de estados, e, aqui no Nordeste, serviu muito para acirrar e manter a rivalidade (CE-PE-BA).
O começo da década de 70 marca o início de uma competição de nível nacional.
Claro que logo ela é usada politicamente chegando a ter 96 participantes.
Claro também que os clubes estão corretíssimos em procurar organizar e dar um tom de seriedade a competição, buscando premiar os melhores.
Aí é onde começa o grande erro.
Quando você começa a trabalhar na perspectiva de formar um “clube do Bolinha”, como fez o “clube dos 13”, é dar um tiro no pé.
Voltando àquele velho ensinamento: nenhuma corrente é mais forte que seu elo mais fraco.
O futebol brasileiro, como um todo, passa por todos os estados, federações e clubes.
Pela vontade do “clube dos 13”, não haveria rebaixamento, e o campeonato seria feito pelos escolhidos e pronto.
Não percebem o que ocorre no restante do País. É essa minha crítica à crônica esportiva.
Preocupada em vender, não critica. Não enxerga outro mundo possível. Apenas repete conceitos e chavões de um mundo que não existe mais. Insistem em fantasiar o mundo.
Não percebem que há uma rápida mudança cultural e de costumes no País. Mudam-se conceitos. Destroem-se estruturas. Ou tentam.
Falo por Fortaleza.
Ainda existem muitos, desculpem o termo, “imbecis”, que vestem camisas de times de outros estados. De um estado onde a torcida e a imprensa tratam com desdem o futebol local. Mas já foi pior.
Apesar da violência, é muito mais fácil ver camisas de Fortaleza e Ceará nas ruas que de outros times. Isso se repete em Belém, São Luiz, Natal, Recife, Salvador, Curitiba e Goiânia, Florianópolis.
Há mais torcedores que não torcem por times do eixo Rio-São Paulo, do que torcedores de times paulistas e cariocas.
Há muitos torcedores que preferem assistir jogos do italiano, espanhol, alemão e torneiro da UEFA. O futebol também se globaliza. Deixamos de ser ilha.
Ainda falando por minha percepção, acredito que a audiência de jogos, no estado do Ceará, do Fortaleza e do Ceará pela TV seja maior que a de jogos da série A, apesar de jogarem as séries C e B.
Talvez a exceção sejam alguns poucos grandes jogos. Normalmente 3 ou 4 times se destacam tecnicamente e chamam atenção durante o campeonato.
Claro que as emissoras de TV enxergam antes da cartolagem que esse modelo de futebol pode deixar de ser interessante e que pode haver problemas de cotas num futuro próximo, quando a audiência diminuir também, além da diminuição da torcida nos estádios.
Hoje o público nos estádios beira o ridículo. Flamengo com média de 5000 torcedores?
Sem público nos estádios, como fazer festa? Como garantir fidelidade se não vivo a realidade do “meu time”?
Hoje temos o monopólio imperial da Globo, que comete alguns absurdos.
O maior deles é o criminoso horário das 22 horas para um jogo. Claro que não interessa torcedor no estádio. Interessa na poltrona. Não sei se isso é bom para os clubes.
O monopólio da Globo, em conchavo com o clube dos 13, passa também pelas cotas. Imaginem que o Fortaleza, quando na série A (2006 e 2007), teve o absurdo de ter sua cota da TV, pelos direitos de transmissão da série A, inferior praticamente em 10 vezes o valor da cota de time que estava na série B. Tudo pelo simples fato de que um time da série B era do clube dos 13. Ou seja, o dinheiro de cotas da série A não era apenas para os times da série A, era também para compensar um clube, que era do “clube dos 13”, e que disputaria a série B.
Dois absurdos: primeiro a diminuição da cota de direito dos times da série A; segundo, a vantagem absurda na competição da série B, por parte de quem caísse, e fosse do Clube dos 13.
Não vejo nenhuma vantagem para Corinthians, Vasco, Palmeiras, Atlético-MG, Grêmio, Bahia e Sport conseguirem acessos nessa situação de concorrência desleal. O Fluminense, coitado, nem assim. Foi necessária uma virada de mesa para resgatá-lo das séries B e C.
Não acredito justo e correto este tipo de divisão.
Azar do Fortaleza que assinou e aceitou esse absurdo.
Se é para ser asfixiado financeiramente e cair de qualquer forma, que não permitisse a transmissão nesta condição de divisão de cotas.
O time do clube dos 13, que estava na B, que se virasse e conseguisse sua cota. A cota da série A deveria ser exclusiva para os times participantes da série A.
Ainda tem mais. Há uma clara preferência por alguns times na grade de programação. Mais uma vantagem na venda de patrocínio nas camisas. Corinthians e Flamengo que o digam ao terem a certeza de que as emissoras (Sudeste) farão a transmissão dos jogos, em rede nacional, tendo a consequente exposição. 
É só observar os times que tem mais transmissões nas redes abertas. Façam a estatística. Até meados dos anos 2000, eram clubes do Rio. Todo domingo tinha um jogo de um time do Rio. Não me pergunte o porquê.
Ultimamente não aguento mais ver o Corinthians toda semana. Hoje é ”Parmeras” da B, direto na Band. Nem perco meu tempo.
Claro que a CBF "não tem nada a ver" com isso (kkkkkk). Nem sei quantas partidas o “Parmeras” jogará às 22:00hs da sexta-feira. Nem quantas ele jogará no sábado à tarde (mais kkkkkkk).
Outro absurdo é um calendário feito exclusivamente para atender aos interesses de CBF, TVs e dos clubes da série A.
Porque os jogos da série B não ocorrem às 4ª, 5ª, sábados e domingos, como é costume em nosso futebol?
Porque a CBF se arvora do direito de negociar o contrato de transmissão da série B? Alguma garantia à “Globo”?
Se a Globo não aceita transmitir nestes dias e horários, porque não permitir que outras emissoras negociem e transmitam a série B às quartas,quintas,sábados e domingos?
A CBF garante que não exista esse risco, fazendo ela a negociação e a programação dos jogos?
Porque não vemos a imprensa, que grita por mudanças no futebol brasileiro, enxergar esse absurdo? Algum interesse por trás? O futebol brasileiro se resume a 12 times?
Se a série B fosse transmitida por outra emissora em dias concorrentes com os jogos da série A, será que a Globo pagaria a mesma cota de hoje aos times da série A?
Com certeza a audiência da série A seria menor e o pagamento também.
Ninguém nunca imaginou como isso prejudica a concorrência no futebol, asfixiando o pequeno e impedindo seu crescimento. E o futebol no Brasil é somente Rio-São Paulo? Como fica o futebol profissional?
Parece que no Brasil o “grande” só sobrevive às custas do “pequeno”.
Não vou nem falar do patrocínio dos times. Deve acontecer algo parecido com o que acontece por aqui, em maiores proporções. Não sei até que ponto as injunções políticas ou as paixões clubísticas interferem nos negócios.
Apenas vejo muita coincidência no fato de que alguns times, que não conseguem os recursos que acreditam justo junto a iniciativa privada, logo apareçam com um patrocínio de alguma estatal.
Assim, os clubes grandes são aquinhoados com verbas públicas. Vasco, Flamengo e Corinthians são exemplos. Nem falo de patrocínios estaduais e municipais. E o mercado? E a livre iniciativa? kkkkkkkkk
Outro problema é o calendário: porque a CBF não faz seu calendário das séries A, B, C e D e Copa do Brasil e deixa que as Federações e clubes decidam como ocupar as outras datas, que deveriam pertencer a eles.
O que o Fortaleza e sua torcida tem a ver com jogos da Copa Sul-americana, se ele não está participando?
Porque as federações não dispõem destas datas? Algum compromisso com direitos de transmissão?
Porque não poderia haver uma Copa do NE no segundo semestre?
Porque obrigar a jogar uma Copa do NE no período dos campeonatos estaduais?
Será que uma Copa do NE interessa aos “grandes” do sul e sudeste?
Será que é bom para o “futebol brasileiro”?
Se as datas dos jogos em competições nacionais são definidas pela CBF de maio a dezembro, porque as datas existentes para competições internacionais não podem ser preenchidas por competições regionais ou estaduais?
Porque aqui, em Fortaleza, não posso ver meu time disputando um campeonato? Por que será que a CBF não permite competições nas datas vagas de jogos dela, principalmente nas datas de jogos da Sul-americana?
Porque obrigar os campeonatos estaduais a serem jogados somente até abril?
Calendário do futebol brasileiro? Parece piada.
Porque a Copa do Nordeste não poderia ser jogada no segundo semestre? Qual interesse comercial por trás.
Creio que alguma mudança está para ocorrer. Provavelmente uma mudança na lei que regulamenta as comunicações. E os clubes sentirão o erro cometido ao priorizar suas receitas da TV e ficarem submissos a seus interesses, deixando os estádios vazios.
Da mesma forma que algumas competições ficaram no passado, creio que mudanças estão para ocorrer.
Mudanças também podem começar a ocorrer com os dirigentes.
Se nossos atuais dirigentes fossem mais inteligentes e não tivessem interesses não declarados, haveria já uma discussão séria sobre competições regionais.
Querem acabar os estaduais por interesses comerciais, e, hoje, temos uma ajuda importante das federações estaduais nessa direção, com campeonatos estaduais ridículos e “sem futuro”.
A época dos estaduais pode estar chegando ao final pela atual impossibilidade financeira de manutenção econômica se continuarem com os formatos, períodos obrigatórios e quantidades de clubes.
Nasci na década de 60 em Fortaleza.
Nos anos 60 e 70, a maior parte dos moradores de Fortaleza era nascida no interior.
Nos últimos 40 anos houve uma grande mudança.
Gerações nasceram e cresceram em Fortaleza. Aqui construíram sua vida e tiveram filhos. Não havia transmissão ao vivo e o campeonato cearense se restringia aos times da capital.
Meu pai nasceu no interior. Eu nasci em Fortaleza, com ligação com a terra de minha família. Meus filhos nem vão ao interior. Meus netos nem conhecem o interior.
Os que nasceram no interior, num passado distante, se acostumaram a acompanhar os jogos pelo rádio, principalmente a Globo e a Nacional.
Torciam por times do Rio, e, pouquíssimos, torciam por times de São Paulo. Quase ninguém torcia por times estaduais.
Seus filhos se acostumaram a ir ao estádio e a torcer por times locais, acompanhando o dia a dia.
Isso se repetiu em cada estado fora do eixo Rio-São Paulo. Exceção para o Norte e Centro-oeste do País, com a chegada de migrantes.
Mas esses migrantes começam a ter filhos onde moram. Esses filhos são filhos de onde nasceram, e não dos Estados de origem dos pais.
Sou torcedor de carteirinha do Leão. Sou sócio torcedor e não perco de forma alguma qualquer jogo. No PV, no Castelão, na TV ou no rádio. Deixo de assistir jogo na TV para ouvir o jogo do Leão pelo rádio.
Claro que se sofre a influência da TV nos dias de hoje, mas há tantos jogos, e a grande maioria é de jogos tão ruins, que grande parte dos torcedores nem se dá ao trabalho de deixar de fazer algo em função de um jogo na TV.
Normalmente assistimos quando não “se tem o que fazer” ou quando aproveitamos e nos reunimos com amigos em bares.
Fica minha sugestão, dirigida principalmente aos torcedores, dirigentes e cronistas do Norte e Nordeste.
Isso num primeiro momento. Depois com a inclusão de Estados do Norte e Centro-Oeste.
Campeonatos Estaduais (principalmente do NE) – 2 fases:
  • Fase classificatória: jogos entre clubes que não participam dos campeonatos regionais ou nacionais, a ser disputada entre março e novembro. Se classificam tantos quantos sejam necessários para completar oito clubes, tendo em vista que alguns clubes disputarão campeonatos regionais/nacionais. Seria abolido as sérias A, B, C … e Z dos estaduais;
  • Fase final: Oito clubes, em jogos de ida e volta, no sistema de pontos corridos, a ser disputado de fevereiro a abril.
Campeonato Regional:
  • Campeonato disputado por times do PA (3), MA(2), PI(2), CE(3), RN(2), PB(2), PE(3), AL(2), SE(2), BA(3), num primeiro momento;
  • A composição seria em função da colocação no estadual (fase final);
  • Disputado entre julho e dezembro, nas datas vagas da CBF;
  • Fórmula simples (sempre em jogos de ida e volta):
  • 1ª fase: 6 grupos de 4;
  • 2ª fase: 4 grupos de 3 times;
  • Semifinal
  • Final
Que o clube dos 13 negocie cotas e faça o calendário que mais lhes aprouver.
Isso é problema deles. O nosso é exigir liberdade e organizar nosso campeonato com clubes do NO/NE e C-O. Organizar e comercializar um campeonato nosso. Tanto os estaduais, quanto os regionais.
Fico só imaginando a revolução.
Num primeiro momento 10 federações. 5 grandes capitais (Belém, Fortaleza, Natal, Recife e Salvador). As torcidas de Remo, Payssandu, Fortaleza, Ceará, América, ABC, Santa Cruz, Sport, Náutico, Bahia e Vitória desligados de alguns jogos “nacionais” e ligados na disputa de um campeonato regional.
Sou um sonhador e acredito possível. Basta aos atores assumirem à direção do destino.
Hoje temos grupos, além da Globo, interessados em transmitir futebol: Bandeirantes, Record, ESPN e agora chegou a FOX Sports.
Dá para enfrentar o monopólio e poderio da Globo. Dá para revolucionar.
Lamento que por migalhas sejam vendidas as séries B e C. Nem se fala na série D.
Será que não dá para se dar não à Globo? Será que não há alternativas?
Será que teremos sempre jogos em dias e horários inadequados ao futebol? Apenas adequados à própria grade de programação da Globo.

Fica o sonho e o abraço.