quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Venezuela. Culpada pir ter petróleo.

E a Venezuela?

é o que perguntam analfabetos políticos, provincianos monoglotas, terraplanistas, bolsominions, cristãos de araque, ex-eleitores de Marina e de Aécio, feiticeiros de púlpito, idiotas de aldeia, esfaqueados convalescentes, moralistas sem moral, juízes justiceiros, procuradores que só procuram o que querem e até, veja você, progressistas.

toda vez que um país periférico vira assunto mundial pode saber que é fuleiragem.

nunca se esqueçam do Free Tibet.

quando a China ia sediar uma olimpíada - e ser vitrine no mundo - os falcões estadunidenses desencadearam campanhas de difamação do país asiático, uma delas pedia que o Tibet virasse uma teocracia comandada pelo Dalai Lama, veja que curioso.

que o Tibet era uma colônia chinesa, e aqueles vermelhos safados tinham que ser derrotados.

diziam isso os colonizadores e escravizadores de sempre, enquanto esperavam a carruagem da rainha passar ou iam a museus apreciar as obras de arte roubadas da África.

Free Tibet, gritavam os papagaios nas ruas do mundo inteiro.

nenhum deles saberia apontar onde ficava o Tibet no mapa, mas todos tinham uma bandeira do Tibet nas mãos.

tente comprar uma bandeira do Tibet em uma loja hoje!

pois bem, a olimpíada passou, o Tibet não está free e os papagaios mudaram o rumo da prosa.

foram atrás de um índio na Bolívia.

como assim, um índio tirar o poder dos machos brancos? vamos derrubá-lo.

o mundo só falava em Evo Morales, que era um cocaleiro, comunista, safado, amigo de Fidel...

chegamos a ver uma pelada de futebol em que o perna-de-pau, Evo, dava uma futebolística canelada em um ministro.

o mundo se assombrou. viu só, é um tirano.

Evo tá lá até hoje e a Bolívia nunca teve um crescimento econômico tão vigoroso. por isso mesmo, não se fala mais nele.

evoé, Evo. Evo é.

depois eles derrubaram, na mão grande, o presidente hondurenho Zelaya, o paraguaio Lugo, a brasileira Dilma...

agora querem impor um presidente aos venezuelanos.

um macho branco, claro!

para isso, inventaram uma figura nova: um ditador eleito por voto direto em um país onde o voto é facultativo.

"somos contra os ditadores", gritam os democratas de araque.

sim, mais há ditadores na África, na América Central, no Oriente Médio, na Ásia...

"vamos derrubar esse primeiro e colocar um macho branco no lugar, os machos brancos sabem o que fazem, depois derrubaremos os outros".

mas vocês não estavam obcecados com o tirano da Coreia do Norte? por que diabos não se fala mais nele? elegeram um democrata lá?

"não, ele tem uma bomba atômica. e não tem petróleo".

ah, entendi.

e vocês sabem que tem um ditador na Arábia Saudita que frequenta a Casa Branca mais que o próprio Trump?

"sim, mas ele é um ditador amigo".

ah, entendi.

entenderam agora por que só se fala em Venezuela? é um agendamento.

segundo a ONU, temos quase duzentos países no mundo. e por que diabos o planeta se voltou agora para a Venezuela?

"ora, porque tem gente passando fome lá."

amigão, desses duzentos países, em pelo menos cem deles tem gente morrendo de fome.

"ah, mas estes são nossos vizinhos."

bem, há pouco tempo vimos uma legião de esfomeados centro americanos cruzando estradas e rios a nado ou em balsas improvisadas rumo aos Esteites.

nem por isso vimos no noticiário quem eram os presidentes dos países deles, se tínhamos que retirá-los de lá à força ou reconhecermos como presidente daqueles países algum Guaidó sem voto.

por falar em voto, Recep Erdogan, o turco que se livrou hà pouco de um golpe militar tramado nos Esteites - como aconteceu com Chávez em 2002 - acaba de perguntar à União Europeia: vocês só falam em democracia, voto, democracia, voto, e agora querem deslegitimar um presidente eleito pelo povo e legitimar uma playboy sem voto?

taí uma pergunta sem resposta.

Maduro é um presidente ruim? é inábil? é inepto? é inapto?

cara, isso não é problema meu, é um problema da democracia.

presidentes ruins e inábeis há aos montes nas Américas, no Oriente Médio, na África, na Ásia, na Europa, no diabo.

agora, arrancar o cara de lá e colocar um macho branco sem voto, man?

a troco de quê, cara?

o que tem no currículo de Guaidó que diz que ele será um bom presidente? nádegas.

você mesmo nem sabe quem é ele!

lembram da Líbia, país rico em petróleo? Kadafi tava lá há 42 anos. ele mantinha as coisas estáveis e propunha a criação de um exército comum africano, veja você.

a Otan chegou, criou um clima de caos nas ruas, derrubou o cabra e lançou sua carne aos chacais, e ainda filmou ele sendo violentamente assassinado no meio da rua.

pois a Líbia virou um pandemônio depois disso, com uma guerra civil interminável.

virou zona livre para os mercenários do falso Estado Islâmico e corredor de passagem para o tráfico de seres humanos africanos vendidos como escravos por 400 pratas.

nada melhorou por lá.

lembra do Iraque? mentiram pra você que Saddam era o satã sentado num paiol de armas químicas.

destruíram a infraestrutura do país dele, mataram mulheres, crianças, destruíram e saquearam obras de arte milenares, criaram um caos social e acabaram por prender e enforcar o cabra.

o que melhorou no Iraque depois disso?

nada, cara. absolutamente nada.

por não gostarem do Assad, destruíram um país lindo como a Síria. o único país árabe com uma constituição secular e onde a lei islâmica é inconstitucional.

um país aberto e tolerante, onde ninguém é obrigado a usar véu e, e para se ter uma ideia, cinco papas eram sírios.

hoje aquilo é um inferno.

a troco de quê?

quem são os assassinos bonzinhos, destruidores de nações, criadores de caos e instabilidades no mundo que querem salvar a Venezuela colocando um macho branco sem currículo no lugar de um presidente eleito?

quer dizer que é essa a democracia do século XXI?

o alaranjado machista e racista, construidor de muros e segregador de latinos proclama um macho branco presidente de uma nação estrangeira, o Twitter e o Facebook trocam a senha da conta de Maduro, trocam o avatar pela foto do Juan Guaidó e pronto, temos um novo presidente legitimamente reconhecido pelas nações democráticas do mundo?

o fato é que a Venezuela não é um fator de instabilidade no mundo, o problema da Venezuela não é ter pobres, é ter petróleo.

estamos todos cagando para o que acontece no Haiti, na Guatemala, no Panamá... no Gabão, no Ceilão...

o que a gente quer é colocar um macho branco, pupilo de Trump, para cuidar do petróleo da Venezuela.

é só isso, cara!

palavra da salvação.

‌(Lelé Teles)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O que motiva os ataques dos bolsonaristas ao chamado "Marxismo Cultural"

https://epoca.globo.com/o-que-motiva-os-ataques-dos-bolsonaristas-ao-chamado-marxismo-cultural-23376168

O que motiva os ataques dos bolsonaristas ao chamado "Marxismo Cultural"
E como isso pode empobrecer a democracia e prolongar a crise do sistema político.

Não é só o governo Bolsonaro, com seus ministros que disparam petardos ideológicos em cada fala.

Há no país uma onda mal-ajambrada que quer criar um bode expiatório no campo da política, da ação governamental e da cultura. Em nome do ataque ao “marxismo cultural”, ela se alimenta de uma enorme ignorância e de um deliberado esforço de provocação.

A obsessão é uma só. Surge límpida no discurso de posse do presidente, convencido de que a partir dele “o povo começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”, falando como se esses problemas tivessem relação de causalidade. Promessas vagas de “combater o marxismo nas escolas” e perseguir os comunistas são feitas a todo momento, sem que se deem muitas explicações a respeito.

A mixórdia temática não é compartilhada pelo núcleo principal do novo governo, integrado pelos generais e por Paulo Guedes e Sergio Moro, ministros mais concentrados na gestão e na obtenção de resultados. Surge imponente nas platitudes reacionárias de Damares Alves contra a identidade de gênero e em Vélez Rodríguez, que parece acreditar que há uma “tresloucada onda globalista tomando carona no pensamento gramsciano e num irresponsável pragmatismo sofístico”, com o claro propósito de “destruir um a um os valores culturais em que se sedimentam nossas instituições mais caras: família, igreja, escola, Estado e pátria”. Não é diferente nas Relações Exteriores, cujo responsável está na linha de frente dessa cruzada.

Ora o discurso é genérico e fala em marxismo sem mais, ora vem embrulhado com a menção a pensadores como Antonio Gramsci, ora ainda surge abraçado a ataques contra a esquerda, o petismo, o socialismo e o globalismo, sempre indeterminados. É um conjunto que se sustenta na superficialidade e na estigmatização, sem preocupação de fomentar algum debate.

Não há qualquer intenção de mapear a sério o campo cultural brasileiro ou de avaliar erros, acertos e possibilidades da esquerda, que é posta sumariamente fora da lei, em suas distintas versões. O propósito é ativar uma maquinação ideológica para desqualificar eventuais opositores do novo governo e repor, na política nacional, temas e convicções extemporâneos, centrados no apelo confuso a Deus, religião e Bíblia.

O ataque ao marxismo tem muito de manobra diversionista: busca produzir um ruído que distraia o público e desvie a atenção do fundamental. Espancar o PT e o socialismo que por aqui jamais existiu é parte do roteiro, assim como o compromisso de “desconstruir” Gramsci.

Nessa operação, o nível precisa cair ao rés do chão, já que se trata de atingir o grosso da opinião pública, não a intelectualidade. O tom precisa ser de palanque, para ter chance de mobilizar. Abusa-se da caricatura, do exagero, da ofensa e da grosseria, dispensando qualquer tipo de refinamento. Fala-se de Marx e de Gramsci como se se tratasse de dois perdidos que, numa noite de farras, tivessem caído no Brasil para corromper a juventude e a sociedade com ideias malignas e perversas. O objetivo é promover a circulação de um espectro que assuste, acue e impressione, semelhante ao que Marx anteviu nas primeiras linhas do famoso Manifesto comunista de 1848: um espectro contra o qual deveriam unir-se numa Santa Aliança todas as potências da velha ordem.

A denúncia do “marxismo cultural” é ao mesmo tempo reativa e ofensiva. Ela intui que o marxismo soube se adaptar ao longo da história, saindo do determinismo rígido dos primeiros tempos para a flexibilidade dialética de Gramsci, por exemplo — autor que é a verdadeira pedra no sapato dos antimarxistas. Gramsci incomoda porque atualizou a teoria que veio de Marx, dando a ela melhores condições de dialogar com as épocas mais complexas do capitalismo do século XX. A operação intelectual gramsciana permitiu ao marxismo a recuperação plena dos temas do Estado, da política, da cultura, dos intelectuais. Tornou-o mais “competitivo” para decifrar as armadilhas ideológicas do capitalismo e da dominação política, abrindo os olhos de muitos marxistas ainda aprisionados aos ritmos duros da luta de classes de primeira geração, na qual não existiam tantas mediações e sinuosidades. Recusou as limitações cognitivas do “determinismo econômico” e analisou a sociedade como realidade complexa, conforme o próprio núcleo originário da filosofia de Marx. Estudou a sério o Estado e chamou a atenção para a sociedade civil, destacando sua função como instância de hegemonia.
György Lukács (1885-1971) (à esq.), um dos mais influentes pensadores marxistas durante o período stalinista, o filósofo húngaro foi pioneiro na análise sociológica da literatura de ficção. Henri Lefebvre (1901-1991), o filósofo francês foi um estudioso da influência do capitalismo sobre o espaço urbano.

Quanto mais o capitalismo ganhou complexidade, mais as ideias gramscianas mostraram força.

Depois de Gramsci, o marxismo nunca mais foi o mesmo, ainda que muitos de seus seguidores não tenham se soltado das incrustações mecânicas e do doutrinarismo. Encorpou, tornou-se uma teoria “clássica”, ganhou respeitabilidade plena no mundo intelectual, ingressou nas universidades e se converteu na “filosofia de nosso tempo”, antevista pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre.

Tudo isso não se deveu exclusivamente a Gramsci, até mesmo porque sua obra, escrita quase toda nos cárceres fascistas, só chegou ao conhecimento público após a Segunda Guerra Mundial e se converteu lentamente na potência que é hoje.

Tanto quanto o pensador italiano, contribuíram para a revitalização e a disseminação do marxismo teóricos como György Lukács, Karl Korsch, Adam Schaff, Henri Lefebvre e Lucien Goldmann, dentre muitos outros, cada um tomando caminhos particulares, fazendo inflexões “heterodoxas” e questionamentos à doutrina original, que, com o tempo, convergiram para um mesmo estuário. O marxismo se tornou muitos, diversificou-se, ganhou musculatura e novas linguagens, compondo aquilo que a dialética chama de unidade na diversidade.

O fato é que não houve pensador importante, nos últimos 100 anos, que não tenha dialogado com as ideias de Marx e as variadas versões do marxismo. Não existiria o Jürgen Habermas da ação comunicativa, o Zygmunt Bauman da modernidade líquida ou o Ulrich Beck da sociedade de risco sem leituras marxistas. Norberto Bobbio sempre o teve como um dos grandes, dedicando um livro inteiro a ele (Nem com Marx, nem contra Marx, Editora Unesp). Antes deles, não foram poucos os que reconheceram, como Max Weber, a relevância das ideias de Marx.

Em seus escritos, muito mais que em sua militância política, Marx foi um portento, que não só descortinou a estrutura do capitalismo, como compreendeu o vigor da economia na modelagem da vida social moderna, na qual o dinheiro e o consumo jogam papel preponderante, como objetivos em si. Dedicou-se, assim como os que souberam se aproveitar de suas ideias, sendo ou não marxistas, a buscar formas de superar ou ao menos regular o irracionalismo dos mercados sem controle e sem limites. Legou ao futuro uma perspectiva racional, generosa, uma homenagem ao progresso.

O debate sério sempre criticou a vulgarização das ideias de Marx, sua conversão em catecismo, sua simplificação em fórmulas desconectadas da realidade, sua dificuldade de elaborar uma teoria do Estado e da política. Parte disso se deveu aos partidos comunistas, que, na luta política, viram-se forçados a “massificar” a teoria que os inspirava. Responsabilidade ainda maior coube à força centralizadora do socialismo soviético, que impôs uma leitura oficialista do marxismo que aprisionou os comunistas durante décadas.

Paradoxalmente, a cruzada antimarxista de hoje emprega os mesmos expedientes das vertentes mais pesadas do stalinismo. Mente, deforma, difama, acusa sem critério, procura punir e estigmatizar, valendo-se da simplificação grosseira e da pressão dos aparatos estatais. O stalinismo fazia isso em nome de uma revolução igualitarista, o que atenuava de certo modo o sacrifício que pedia. O antimarxismo atual, ao contrário, apregoa uma guinada conservadora que dê um passo atrás. Mas também ele só se viabiliza se fizer dos canais oferecidos pelo Estado uma plataforma para difundir uma cópia invertida daquilo que acusa em seus adversários. É inócuo nos territórios livres da sociedade civil, onde o debate pode fluir de forma democrática.

É o que faz o antimarxismo atacar sem trégua as diferentes instâncias da sociedade civil, da imprensa às ONGs, das escolas à indústria cultural, dos partidos políticos aos sindicatos. Ele precisa deslegitimar aquilo que foge de seu controle, reforçando ao contrário os “centros dirigentes”, a palavra dos chefes, os manuais repletos de novas verdades. Cria seus mitos e seus arautos, seus filósofos, suas narrativas, suas ideias-força, que espalha pelas redes que manipula. Constrói assim um repertório simbólico e expressivo, com o qual combate a luta cultural. Denuncia toda e qualquer operação ideológica, mas é ele próprio uma ideologia.

O ataque ao “marxismo cultural” dirige-se à mobilização do eleitorado de Bolsonaro, mas também almeja espetar na agenda pública algumas estacas que delimitem um campo ideológico. Deseja demarcar um terreno de luta, separar os bons dos maus, transferir culpas e responsabilidades. Nunca antes, no Brasil, a direita conservadora chegou tão longe.

Não se trata de um ataque inócuo. Ele tem implicações sérias. Uma delas é o risco de “macarthismo”, de discriminação e caça aos “vermelhos”. Não há uma diretriz clara, mas Onyx Lorenzoni já falou em “despetizar” o Estado. Sem freios moderadores, a cruzada poderá incentivar muita gente a denunciar comunistas em cada curva do caminho, como se fossem “inimigos da pátria”.

Afinal, o combate ao “marxismo cultural” vale-se de pessoas que pensam estar na esquerda a razão maior de suas agruras. Sem conseguir ver o conjunto da vida, estão predispostas a ser contagiadas pelo maniqueísmo simplista do “nós contra eles”.

O desdobramento disso será o empobrecimento da democracia e o prolongamento da crise do sistema político. Capturado pela insanidade por ele mesmo criada, o governo poderá cair na tentação de moldar suas políticas por critérios sempre mais ideológicos e sempre menos técnicos.

Na hipótese de essa parábola se completar, perderemos todos.

Marco Aurélio Nogueira é professor de teoria política e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da Unesp. Atuou como revisor técnico da tradução brasileira do Dicionário Gramsciano (Boitempo, 2017) Foto: Filipe Redondo / Agência O Globo
Marco Aurélio Nogueira é professor de teoria política e coordenador do Núcleo de Estudos e Análises Internacionais da Unesp. Atuou como revisor técnico da tradução brasileira do Dicionário Gramsciano (Boitempo, 2017) Foto: Filipe Redondo / Agência O Globo

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Sobre bandeiras e vermelhos, por Valéria Regina Dallegrave

Sobre bandeiras e vermelhos:

“Nossa bandeira jamais será vermelha”: Há aspectos revelados por esta frase que merecem reflexões mais aprofundadas.

Em primeiro lugar, o MEDO do fantasma do “comunismo”. Acontece que o brasileiro assombrado  não sabe dizer aonde vê na realidade este fantasma... Ou sabe. Acredita que qualquer mínima tentativa de justiça social é um uivo da assombração. Permitir que filhos de empregadas domésticas tenham curso superior é comunismo, dar condições de adquirir casa a quem não tem, comunismo. Dar de comer a quem tem fome, comunismo (espera, isso não é bíblico!?)...

O medo é, em boa parte, inconsciente. Foi plantado pelos Estados Unidos da América desde a guerra fria. Naquela época, acreditava-se até que os comunistas comiam criancinhas (já voltaram a acreditar!?).  Os EUA, o país por excelência do capitalismo selvagem, que divulgou, com sua indústria de entretenimento, a imagem de terra das oportunidades, agora faz um muro para impedir a entrada daqueles que seduziu. A mesma pátria que ensinou ao mundo um individualismo doentio e simplificou a vida com a divisão entre mocinhos e bandidos em filmes de bang-bang. Bem, por esta e outras fontes aprendemos que o egoísmo é regra e a solidariedade, exceção...

Aquele aprisionado pelo medo teme que o pouco que tem lhe seja tirado para dar a quem tem menos. Por trás de tudo isso, há a certeza de carestia, de que pouco há disponível para dividir. Ele não percebe que há pouco apenas porque a abundância é restrita à área vip. Acostumado a fazer parte da ralé, que precisa se estapear pelas migalhas do andar de cima, e bem disciplinado para não tentar invadir a área vip, o que melhor faz é estapear quem está ao lado, tão miserável, pobre ou classe média quanto ele...

Mas o medo também tem outra faceta: de que seja roubada a chance única na vida! A chance de, em algum golpe de sorte, tornar-se ele mesmo o acumulador de posses, o novo-rico, o Patinhas dos trópicos, o que deixa cair as migalhas lá em baixo para os esfomeados...

A grande mídia, claro, corrobora esta visão de mundo egoísta (lembre, visão de mundo = ideologia). Nos atuais tempos sombrios, ganha mais voz quem é preconceituoso, machista, misógino, homofóbico.  Além das novelas, que moldaram muito nossa visão de mundo (“vale tudo”), os jornais, ao selecionarem notícias e entrevistados, constroem uma “normalidade” padrão em que é preciso ter uma arma (ou duas?) para se defender (viva as ações da Taurus!)...

E se a norma fosse a solidariedade e o egoísmo, a exceção!? Quantas boas notícias de gente que se solidariza com o próximo são descartadas diariamente? Há ideologia em tentar mudar o mundo para melhor!? Mas quem aceita toda esta construção artificial de uma “normalidade” não está mergulhado, afogado, dissolvido em uma ideologia criada por outros!?

Fica por último, mesmo, a questão que parecia a principal, a cor da bandeira.

Por que o vermelho é tão polêmico? É verdade que algumas bandeiras usam a cor como simbologia para a revolução comunista, mas há quem a use como representação da fraternidade (liberté, egalité, fraternité). Na bandeira da Espanha, o vermelho, entre outros significados, é homenagem à valentia e às conquistas do povo espanhol. Nas bandeiras da Costa Rica, do Chile e da Itália, o vermelho pode ser interpretado como o sangue de heróis e mártires que lutaram pela independência de suas nações.

A interpretação mais curiosa do uso da cor (além de trazer o tema religioso, presente em diversas bandeiras), vem da Inglaterra, representada por uma cruz vermelha sobre fundo branco. A cruz simboliza São Jorge, padroeiro da Inglaterra. Segundo a lenda, o santo, para salvar uma princesa,  enfrentou e matou um dragão, com o sangue deste fez a cruz sobre o escudo...

Já a bandeira brasileira que, como todos sabem, não tem a presença do vermelho, foi inspirada na bandeira do império, na qual o verde e o amarelo nada tinham de beleza simbólica. O verde era a cor da casa real dos Bragança (família de D. Pedro I) e o amarelo, da casa dos Habsburgo-Lorena, família de Dona Leopoldina, primeira esposa do imperador. A interpretação dada a estas cores, mantidas no modelo republicano da bandeira, atribui o verde às matas, o amarelo ao ouro, o azul aos céus e rios, e o branco à aspiração pela paz. As estrelas seriam os Estados brasileiros e o lema “ordem e progresso” veio do pensamento positivista.

A ausência do vermelho pode ser um traço da hipocrisia nacional. É como se não tivesse acontecido derramamento de sangue na construção de nossa pátria.  Nem Canudos, nem Caldeirão. Nem Tiradentes, nem Inconfidência. Nem Balaiada ou Guerra do Paraguai. Nem Candelária, nem Marielle Franco e tantos já esquecidos. Nem genocídio indígena, nem escravidão. Nem, é claro, as torturas e mortes no período da ditadura militar, sobre as quais talvez não nos seja mais permitido falar. Nossos mortos não tem direito à justiça. Nem os vivos...

É que há quem não tolere o vermelho, e tenha escolhido permanecer deitado em berço esplêndido.  E agora o verde das matas é hasteado por quem adota a estratégia de desmerecer a força e o valor das florestas (e de seus guardiães, os índios). Estamos em época de combater teorias científicas aceitas pelo mundo inteiro, que alertam sobre os danos possíveis ao planeta ao se menosprezar a preservação das matas. O ouro amarelo (e verde como o pau-brasil), já foi levado pelos europeus. O recente ouro-negro das descobertas do pré-sal, que quase financiou melhorias na saúde e na educação, agora é entregue às multinacionais. A aspiração à paz é substituída pela ameaça de guerra contra a Venezuela. A “ordem” é para ser obedecida, o “progresso” é para poucos, à custa de muitos, inclusive da poluição dos rios por mineradores e industriais irresponsáveis. Nos resta, à maioria dos brasileiros, o céu (cinza?), que pode ser contemplado pelos moribundos, caídos de fome e de vergonha ao chão...

Por fim, quero lembrar a frase de Augusto Comte que inspirou nosso lema “ordem e progresso” :  “L'amour pour principe et l'ordre pour base; le progrès pour but”, ou “o amor como princípio e a ordem como base; o progresso como meta”.  Como podemos observar, faltou amor. Vai ver é por que ele é vermelho...

Alguns podem até não gostar disso, mas nosso sangue jamais será verde-amarelo.

Valéria Regina Dallegrave