segunda-feira, 28 de maio de 2018

O socialismo, por Antônio Cândido

..."O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar ao paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno”.
... Um abraço, Antonio Candido.

ANTONIO CANDIDO (1918-2017)

"O socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: 'o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana'. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na 'Ideologia alemã': as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo."

Antonio Candido, em entrevista ao jornal Brasil de Fato, 8 de agosto de 2011, "O socialismo é uma doutrina triunfante", por Joana Tavares.

Eleições em Cuba

https://jornalistaslivres.org/2018/04/como-funciona-o-sistema-eleitoral-em-cuba/

As eleições municipais/provinciais ocorrem a cada 2 anos e meio. Já as eleições gerais (para a Assembleia Nacional do Poder Popular) ocorrem a cada 5 anos. As últimas ocorreram agora, em março. Em Cuba, o sistema eleitoral é similar ao parlamentarista, ou seja, o povo elege seus deputados, que vão eleger o Conselho de Estado e o presidente. Quem escolhe os candidatos em Cuba não são partidos políticos, e sim o próprio povo, nesta última cerca de 60% se inscreveram sem estarem vinculados à partido algum. Cada circunscrição (formada por um conjunto de bairros) escolhe, em assembleias abertas, um candidato, que irá para as eleições onde todos (cidade/província/país) poderão eleger, ou não, por meio de voto facultativo e secreto. Outro dado interessante é que algumas categorias (trabalhadores, mulheres, estudantes e pequenos agricultores) têm espaços reservados ( como cotas mesmo) no Parlamento. Esses elementos formam parte do que os cubanos chamam de Poder Popular, que preserva o contato permanente entre lideranças e a base. Outro fator importante é que em Cuba a paridade de gêneros é lei e respeitada em todos os âmbitos, cargos públicos, de direção, comando. Assim, as listas de votação obedecem a paridade. Esse ano, a Assembleia Nacional eleita é formada por pouco mais de 53% de mulheres.

Os parlamentares em Cuba, de qualquer nível (provincial ou nacional), não possuem qualquer benefício, nem salário, nada. Geralmente seguem atuando em suas áreas/profissões, ao mesmo tempo em que atuam em suas funções legislativas.

É verdade que Cuba tem um único partido, o PCC. Mas sua função não é executiva, é mobilizadora e de fiscalização das ações do Estado. O PCC formula premissas políticas para o país e envolve a população nas atividades (debates, consultas públicas, etc). Até 1991, o PCC auxiliava na definição de candidatos, mas deixou neste ano de ter essa função.

Não há necessidade de filiação para candidaturas. No ano passado, por exemplo, um conhecido opositor do “Partido Cuba Independente e Democrática”, se candidatou nas eleições municipais, mas obteve votos suficientes para eleger. Na maioria das vezes isso ocorre porque as eleições começam, na primeira fase, com a escolha de delegados (do Poder Popular) nos bairros e é quase sempre aí nesta fase que os opositores ficam, já que raramente obtém votos suficientes no próprio bairro para avançar nas outras etapas.

Yuniel O’farril, que vive em Miami, faz parte de um partido com alguma representação em Cuba, mas vive em Miami, o que dificulta na hora de disputar as fases eleitorais. O bairro não o reconhece como representante. O Partido Liberal também já lançou candidatos, como Silvio Benitez, derrotado em 2007 e 2010, e que também vive em Miami.

É importante dizer que não existe proibição em Cuba de fundação de outros partidos. Não há lei alguma com essa restrição. A questão é justamente a ja mencionada não exigência de filiação partidária para a participação política. Todos os partidos em Cuba são apenas acessórios, incluindo o PCC, não podem indicar candidatos nem fazer campanha. Isso faz com que a maioria dos partidos deixem de existir em poucas semanas, porque terminam não tendo função prática. A intenção de Cuba é fazer com que partidos sejam sempre programáticos, isto é, reflitam diferentes pensamentos políticos no país, e evitar que se transformem em balcões de negócios. Assim, tb o PCC exerce a função de qualquer partido: trabalho de base, pedagógico e de agitação. E até hoje não apareceu outro partido que alcance o mesmo grau de organização e de eficiência que o PCC, apesar dos milhares de dólares injetados todos os anos pelos EUA (valores oficiais, declarados anualmente pelo presidente como “financiamento da oposição democrática em Cuba “, uma aberração em termos internacionais).

Em relação à Fidel, tantas vezes chamado de “ditador”, na verdade foi eleito sucessivas vezes desde 1976. A circunscrição que o lançava era a de Santiago, onde ele nasceu. De lá ele era eleito para o Parlamento, depois indicado ao Conselho de Estado e em seguida reconduzido como presidente.

Raúl, de certa forma admitindo que ninguém alcançaria jamais o status de reconhecimento de Fidel, propôs que o limite de mandatos fosse de dois. Essa medida foi aprovada e passou a valer já para ele, eleito presidente em 2007 e reeleito em 2012. Daí porque esse ano, o novo presidente eleito é Miguel Díaz Canel.

Falácia - dedicado aos coxinhas paneleiros

O que é uma Falácia:

Falácia significa erro, engano ou falsidade. Normalmente, uma falácia é uma ideia errada que é transmitida como verdadeira, enganando outras pessoas.

No âmbito da lógica, uma falácia consiste no ato de chegar a uma determinada conclusão errada a partir de proposições que são falsas.

A filosofia de Aristóteles abordou a chamada “falácia formal” como um sofisma, ou seja, um raciocínio errado que tenta passar como verdadeiro, normalmente com o intuito de ludibriar outras pessoas.

De acordo com a lógica filosófica aristotélica, a “falácia informal” difere-se da formal, principalmente pelo fato da primeira usar de raciocínios válidos, a princípio, para chegar a resultados que sejam inconsistentes e com premissas falsas.

Ao contrário das falácias formais, que são mais fáceis de identificar, as falácias informais, por apresentar uma forma lógica válida, podem ser de difícil identificação.

Falácia também pode ser sinônimo de ardil ou logro, uma atitude que tem como objetivo obter vantagem sobre outra pessoa, enganando-a. Muitas vezes está relacionado com a falta de honestidade.

Com origem no termo em latim fallacia, esta palavra indica a característica ou propriedade de algo que é falaz, ou seja, engana ou ilude.

Em alguns casos, falácia também pode indicar gritaria ou falatório, uma confusão causada pelo barulho de muitas vozes.
Falácia do espantalho

A falácia do espantalho (ou falácia do homem palha), consiste na distorção de um argumento e a tentativa de descredibilização do argumento distorcido, para refutar o argumento original (não distorcido). É uma estratégia errada porque o argumento que é refutado não é o argumento que foi inicialmente apresentado.

Vejamos o exemplo da troca de argumentos entre duas pessoas:

João: “Os menores de 21 anos deveriam ser proibidos de comprar bebidas alcoólicas”.

Pedro: “Isso é incentivar que pessoas com mais de 80 anos consumam mais e vendam álcool para os menores de 21 anos! Isso é inadmissível!”

Neste exemplo, o Pedro distorceu o argumento do João, "colocando palavras na sua boca", para tentar refutá-lo.
Falácias lógicas

Existem diversos tipos de falácias lógicas, sendo que cada uma é focada num método ou técnica diferente de tentar convencer a partir de um argumento falso.

Por exemplo, um “falso dilema” consiste na apresentação de duas opções / alternativas como únicas, quando na verdade existiria uma terceira ou várias outras hipóteses além daquela que foi apresentada.

Outro exemplo de falácia lógica é aquela argumentação que é ligada aos motivos em vez da racionalidade, como o apelo à piedade, apelo à força, apelo ao povo, entre outros apelos sentimentais.
Falácia Naturalista

A falácia naturalista é uma concepção filosófica criada pelo filósofo inglês George Edward Moore e George Robert Price.

Este conceito revela o erro de pensar que um determinado atributo ou propriedade é natural e tem origem na vertente física. Um exemplo é assumir que o bem ou o altruísmo do ser humano (ou outros comportamentos éticos) são definidos como propriedades naturais.

Além disso, esta falácia revela o conflito entre o "é" e o "deve ser".

domingo, 27 de maio de 2018

Voando no pescoço da ignorância

"Almoço, no boteco do condomínio. TV ligada no jornal Hoje.
Aviso: quanto mais irônica eu fico aqui, mais pistola eu tô na vida real.

Dois caras irritadíssimos pq estavam sem combustível - dois trabalhadores. Falavam: "foi pra isso que tiraram a Dilma?

Eu completei:

- É, tira a Dilma que tudo melhora! Primeiro a gente tira a Dilma, depois a gente se fode!

Um dos caras, que até então estava calado, abriu a boca para falar:

- Tem que acabar com esses ladrões comunistas!

Não perdoei:

- O senhor sabe o que é comunismo? Sabe como se define o comunismo?

- Comunismo é a Venezuela!

-Não. Venezuela é um país do norte da América do Sul que faz fronteira com Colômbia, Brasil e Guiana. E tem princípios bolivarianistas, que nada têm de comunistas, porque quando Bolívar morreu Karl Marx tinha 3 anos. O senhor sabe conceituar comunismo?

- Ah, isso não importa, porque é tudo...

Aí eu aumentei a voz:

- Pelo visto, o senhor não tem a menor noção do que está falando, então eu vou lhe ensinar: comunismo é definido pela ausência da propriedade privada dos meios de produção. Algo que está longe de acontecer aqui. Caso o senhor não tenha entendido o que isso significa, o comunismo determina que indústria e agricultura pertence tudo ao estado. E tudo quanto é indústria e lavoura aqui é propriedade privada. Então não fale mais besteira!

Os outros dois que defendiam a Dilma se calaram e estavam com aquele sorrisinho indisfarçável no rosto.

- O que a gente está vendo aí na TV é o resultado de uma política bem capitalista, de atrelar os custos de uma commodity central como os combustíveis ao dólar.

- E está errado? NOS ESTADOS UNIDOS É ASSIM.

- Meu senhor, faça as contas. Nos Estados Unidos todo mundo ganha em dólar. Se lá a gasolina é taxada em dólar, está certo. Aqui, todo mundo ganha em real. E quando você precisa de cinco reais para comprar um único dólar, você aumenta em cinco vezes os seus gastos com combustível. Não é comunismo nem capitalismo, é matemática. Se o senhor acha certo pagar mais pelo mesmo produto, enquanto tem outras pessoas enchendo o rabo de dinheiro, então não há mais o que falar!

- Ah, mas o petróleo brasileiro é de má qualidade, tem que ser refinado nos EUA

- É. Aí, quando o Brasil descobriu o pré-sal e analisou o petróleo do pré-sal e descobriu que é um dos petróleos de mais fácil refino, e quando Lula e Dilma começaram a investir em refinarias no Brasil para refinar o petróleo do pré-sal para nacionalizar a produção de combustível, e assim reduzir o custo total do combustível, apareceu um monte de informadão pra dizer que a Petrobrás era um antro de ladrão. Agora esse governo golpista vendeu a preço de banana as jazidas de um pré-sal que não tem nem como ser avaliada, pois não se sabe ao certo a quantidade de petróleo que tem lá, os informadões aplaudem, e ainda pedem gasolina atrelada ao dólar. Mas a errada sou eu, que sou mulher e não devia estar discutindo nada disso. Certo está o senhor...

Aí o tiozão se calou. E os outros dois, que só ouviam, pediram mais informações. Um deles concluiu, antes de o tiozão, calado e puto da vida, sair do boteco:

- Quando a pessoa sabe do que está falando, não tem nem como discutir falando besteira, né?

Então, é ótimo viver no meio do mato sem ter que lidar com coxinha burro. Porque se eu cruzar com mais, eu sou capaz de voar no pescoço."

Letícia Sallorenzo via Pablo Amaral Mandelbaum
Recebido via "zap"

sábado, 12 de maio de 2018

Um ditador fanfarrão e um exército de papel

DESPERTAR DE SENTIMENTOS OCULTOS, por Raphael Silva Fagundes
Um ditador fanfarrão e um exército de papel

por Raphael Silva Fagundes para o Le Monde Diplomatique
Maio 9, 2018

Se houver um golpe militar hoje, seria muito mais para manter Temer no poder que para colocar um Bolsonaro no Planalto da Alvorada. O exército do deputado resume-se em seus seguidores, na maioria, adolescentes em desequilíbrio hormonal. Os militares não estão alinhados a interesses morais. Isso é mera retórica. Coitados se pensam que seu general fanfarrão um dia irá conduzir uma ditadura militar

Bolsonaro só adquiriu um apoio expressivo da população porque é o primeiro candidato à presidência da República a defender claramente a ditadura militar. É algo novo na nossa democracia recente.

Muitos dizem apoiá-lo por não ser corrupto, no entanto, existem outros políticos que não estão envolvidos em casos de corrupção, como a deputada Manuela D’Avila e Guilherme Boulos, mas não receberam o mesmo tratamento do público. Por quê?

Não é por que estes últimos estão ligados a causas polêmicas, como o aborto, LGBTs etc.. Não é, também, porque Bolsonaro seja, supostamente, o deputado defensor do cidadão de bem e da família tradicional. Até porque, existiram vários candidatos que usaram, em suas plataformas políticas, esse tema, como Enéas, Levi Fidelix, Eymael e outros. Mas todos foram motivo de risos. A diferença, do deputado federal, representante máximo do que chamo de “direita vulgar”, para os outros, é que nenhum dos anteriores defendiam claramente o regime militar de 1964-1985.

Não é, também, porque Bolsonaro tenha, supostamente, a fórmula mágica para a solução dos problemas da segurança. Mas sim pelo fato de a ditadura militar despertar uma memória falsa, onde se sustenta a ideia de que na época dos quartéis não havia violência e nem corrupção. Uma memória que não reconhece as circunstâncias do tempo, além de omitir o fato da propagação dos grupos de extermínio, os pais das milícias que dominam várias regiões do Rio de Janeiro. Esconde-se, também, o fato desse ter sido o período embrionário do crime organizado, cujo parto deu à luz ao Comando Vermelho.

Hoje, o Exército é a instituição mais confiável para a população.[1] Isso porque não houve punição para os torturadores como houve nas outras regiões da América Latina. Os militares ficaram relacionados a uma situação de segurança e não de inconstitucionalidade. Também porque “o governo militar interferiu ativamente” na Justiça e na polícia, “para torná-las parciais e submetê-las às suas diretrizes políticas”.[2] Ou seja, houve uma desmoralização dos poderes. A partir daí, a ideia de que o Exército é o único capaz de botar ordem se difundiu.

Revisando os costumes em comum

Não podemos romantizar a cultura popular, muito menos os seus costumes. O historiador inglês Edward Thompson, de muita influência no Brasil, mostrou, através de inúmeras pesquisas, que havia uma resistência popular no século XVIII perante a capitalização das relações de produção. Houve uma economia moral que serviu como instrumento de luta, reagindo à nova cadência de trabalho e de tempo imposta pela burguesia.[3]

Mas os costumes nem sempre agirão contra o capital, muito pelo contrário. Em muitos casos, a cultura popular pode ser cruel. A história dos linchamentos comprova o que estou dizendo. O comportamento coletivo, costumeiramente, não desemboca em movimentos sociais, e, na maioria dos casos, são conservadores, principalmente em meio à pobreza doutrinária e política. Há uma motivação conservadora na ação coletiva, enganosamente restauradora.

Foi esse tipo de economia moral que deu vitória a Marcelo Crivella no Rio de Janeiro, mesmo com a revista Veja tendo estampado em sua capa, uma semana antes da eleição, a imagem de Crivella preso. A moralidade que o Psol representa vai de encontro com a economia moral conservadora que quer a restauração de uma época “mitológica” de paz e harmonia.

Mas o que queremos dizer é que a economia moral da coletividade está atrelada à ditadura militar. É muito improvável encontrar alguém que defende a ditadura que não seja conservador moralmente, e vice-versa. A retórica militar era moralista e isso ficou na memória. Portanto, se a causa da crise for moral (corrupção da política e da cultura, como a mídia e a direita vulgar sustentam), a solução militar torna-se instigante.

Mais consumidor que cidadão

Quem nunca se importou com política resolveu participar. Mas a cultura do privado é muito mais forte que a pública. Por conta disso, é a partir do interesse particular que se pensa o público, consequência natural de uma cultura que, apesar de ser democrática (ou, por ser democrática?), não estimula o pensar político.

O poder aquisitivo que os governos petistas deram à população estimulou a compra e a preservação da riqueza material. Aumentou-se o consumo, mas o nível cultural ficou estagnado, principalmente no que tange uma conscientização política. Prova disso, é o fato de tanto a esquerda quanto a direita aumentarem suas fileiras por meio de um discurso moral.

O maior problema social, na visão dessa direita vulgar, passou a ser tudo o que afeta a liberdade de consumir (por isso que o conceito de “economia moral” vem a calhar). Logo, a retórica política de tortura ao prisioneiro, de liberação do porte de arma, militarista etc. tornou-se mais interessante que uma retórica política voltada para a geração de empregos e distribuição de renda. Pensa-se mais no que se compra do que no que se produz, muito mais no produto que no trabalho para tê-lo. É a preservação da condição de consumidor, não a de cidadão.

A preferência do mercado

Sendo assim, portanto, porque o mercado prefere muito mais um Alckmin que um Bolsonaro? Talvez pelo o que este representa. Essa economia moral não é tão boa assim para o mercado, principalmente para a indústria cultural que lucra bilhões com o discurso da diversidade passiva, isto é, uma diversidade conduzida pelos padrões imperialistas, que define as formas legítimas de luta.[4]

Isso nos leva a uma conclusão totalmente desmistificadora. Se houver um golpe militar no Brasil hoje, seria muito mais para manter Temer (ou sua política) no poder que para colocar um Bolsonaro no Planalto da Alvorada. O exército do deputado federal resume-se em seus seguidores, na maioria, adolescentes em desequilíbrio hormonal. Os militares não estão alinhados a interesses morais. Isso é mera retórica. Coitados se pensam que seu general fanfarrão um dia irá conduzir uma ditadura militar.

Os interesses são econômicos e multinacionais. E, expressamente, estão atrelados à chamada “retomada da economia”, apoiada pelas empresas e corporações midiáticas. Esse modelo de crescimento visa o sucateamento dos serviços públicos por meio da privatização e da venda dos recursos naturais, acompanhados de um argumento eufemista da chegada de um “capital novo”.

Bolsonaro pode até não ser racista, homofóbico etc.. mas o problema é que ele acaba libertando essas vozes. Lógico que se assumisse o poder agiria em prol do mercado e tudo que diz ficaria apenas na promessa (a boa e velha fanfarronice). Mas o problema é o que sua imagem pode desencadear. Os racistas querem Bolsonaro, assim como os homofóbicos etc.. É como Trump que não é claramente racista, mas suas falas ambíguas desperta sentimentos ocultos, levando pessoas a acenderem tochas e gritarem palavras racistas e xenófobas.

A alternativa militar não está descartada, como acredita o cientista político Francisco Fonseca, professor da PUC-SP,[5] contudo, ela irá ratificar o consórcio golpista e o aniquilamento dos serviços públicos, jamais colocar um candidato tão polêmico que possa prejudicar os rumos da política neoliberal.

*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Iraguaí.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Nordestinidade: a opção pelo atraso

Nordestinidade: a opção pelo atraso 

por Durval Muniz de Albuquerque Jr. (professor)
Essa semana o jornalista Paulo Henrique Amorim, através de seu blog Conversa Afiada, chamou atenção para um dos sucessivos atos falhos que os promotores do golpe de 2016 estão cometendo: a jornalista de economia do grupo Globo - uma Cassandra que previa o fim do mundo seguido de um apagão, todas as manhãs, durante o governo Dilma, que foi a fada madrinha do golpe, prometendo verdadeiros milagres de “crescimento econômico” ao toque da varinha mágica do impeachment da presidenta eleita com 54 milhões de votos, que nos infelicita toda manhã com seus penteados e suas ideias -, em um dos seus inúmeros comentários sobre “economia”, deixava claro que o problema da economia brasileira era as regiões Norte e Nordeste. Se não fosse esses dois estorvos a forçar para baixo os índices de crescimento da indústria, a “recuperação”, prometida para o dia seguinte do golpe, já teria acontecido. A comparação entre os índices de crescimento industrial de Santa Catarina com os de Pernambuco, Bahia e Ceará, só faltou tomar como explicação que os catarinenses são mais eugênicos, são brancos, europeus e, portanto, ao contrário dos afrodescendentes da Bahia ou dos mestiços e caboclos do Ceará, são mais afeitos ao trabalho, são mais inteligentes, empreendedores, são menos preguiçosos e, além de tudo, mais diligentes e sábios politicamente porque não votam na gentalha petista, coisa para nordestino que vota com o bucho e não com a cabeça.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

A estória normal de um menino normal


Era uma vez um menino normal, que morava num bairro normal de periferia, de uma capital normal do Brasil. Era de Fortaleza, no Ceará
Estudava, brincava de futebol, triângulo, baladeira, bandeira, bila, jogava futebol de botão e soltava arraia, como todo menino normal.
Sonhava, como todo menino normal, em ser jogador de futebol. Simulava tabela com a parede. Via a bola cruzada depois de arremessada na parede. Via o goleiro vencido com a cabeçada fulminante.
Estava nesse treinamento dos sonhos quando uma vizinha avisa que um jornal publicara a relação de aprovados num concurso.
O nome do menino normal era o vigésimo segundo de uma lista.
Havia feito a inscrição para o concurso. Havia feito as provas. Também havia feito no ano anterior. Não tinha a menor ideia do que era Banco do Nordeste do Brasil S.A.
O menino normal não compreendia o significado do feito. Fora aprovado entre seis mil candidatos.
A mãe numa felicidade incompreensível para o menino normal com seus 14 anos. O pai, todo orgulhoso, falando das providências para conseguir a documentação exigida.
Na lembrança o fato de que teria de tirar uma foto 5X4 para a carteira de identidade. Tudo muito estranho.
E roda da vida acelerou o giro.
No dia 19 de junho de 1978, data de seu 15º aniversário, o menino normal assinaria a documentação e começaria a trabalhar no BNB.
Assim, de maneira prematura, foi encerrada a carreira futebolística. Com certeza o Fortaleza Esporte Clube ainda lamenta o fato.
O menino normal tinha um pequeno mundo normal: a família em Jaguaretama e o quarteirão onde residia no Henrique Jorge, bairro onde cresceu, além dos livros, que sempre foram boas companhias.
Depois desse dia o mundo do menino normal perdeu as fronteiras de então.
Quantas pessoas diferentes. Quantos conceitos diferentes. Quantos mundos diferentes. Quantos amigos inimagináveis.
Pois é. Cresceu nessa mistura: - uma família; - uma rua e seus amigos; e os novos amigos, que rapidamente se tornariam mais uma família para ele.
Mas não era uma família normal.
Era uma família nascida do acaso, mas decidida a se fazer e se ver como família.
E o mundo continuou a girar.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O pobre de direita

O pobre de direita é um figurante de burguês

O pobre de direita se acha liberal mesmo não tendo capital e propriedade.

Ele é contra os direitos trabalhistas pois espera um dia ter capital e propriedade para ser um explorador da força de trabalho dos outros.

Ele é contra os direitos sociais pois acha que isto irá reduzir os seus lucros futuros, quando ele for capitalista e puder explorar os trabalhadores, sendo que ele é trabalhador mas não se reconhece como tal.

Ele é contra o Estado pois acha que quando ele tiver capital e propriedades não vai querer que o Estado estabeleça limites ao seu desejo de ficar rico explorando os trabalhadores.

O pobre de direita é o produto melhor elaborado pelos mecanismos de produção de ideologia burguesa para a defesa dos burgueses que tem capital, que tem propriedade e que estão na gestão do Estado para não pagar impostos, para receber subsídios e incentivos fiscais, para ganhar dinheiro comprando títulos da dívida pública e terem o controle dos meios de comunicação de forma a propor o mundo dos ricos como o objeto a ser defendido mesmo que a riqueza da burguesia fosse fruto da exploração dos também pobres de direita.

Ele passa a vida toda sonhando ser burguês, mas sem capital e propriedade e sendo explorado.

Entretanto, ele é muito útil para a burguesia, pois já que não tem nem capital, nem propriedade capitalista ele se torna o cão de guarda da classe que um dia sonha ser.

Sendo assim, ele vai para as ruas defender o capitalismo e vê nos trabalhadores esclarecidos e organizados os seus inimigos de classe.

O pobre de direita além de ser um figurante de burguês é terreno fértil para o fascismo.

Portanto, o pobre de direita é um figurante de Burguês que no momento de crise do capitalismo se comporta como um pitbull da burguesia na defesa de um governo de conteúdo fascista.

Como o pobre de direita tenta ser o espelho dos valores que ele acha que a burguesia tem, passa a ser machista, racista, homofóbico, etc.

Ele acaba sendo o portador dos principais preconceitos que a burguesia gerou e perpetuou como parte do seu sistema de dominação, porque precisa do racismo para pagar bem menos aos trabalhadores afrodescendentes.

Ser machista por que os salários das mulheres é bem menor que os salários dos homens. Enfim, ele nega sua origem social e tenta ser o que não tem, pois se trata de um trabalhador sem consciência de classe.

Por isso se endivida para ter uma imagem diferente do seu real poder de compra.

São chamados de emergentes porque querem negar sua classe assumindo a aparência de burguês.

Ele come sardinha e arrota caviar, enquanto late sempre mais alto para mostrar à burguesia que está protegendo a propriedade do burguês, enquanto dorme fora da mansão que sonha um dia ser sua.

Ao envelhecer não vai ter emprego e muito menos vai poder pagar um plano de saúde.

Desta forma vai precisar de proteção social, porém passou a vida toda defendendo que bastava deixar a mão invisível do mercado agir, que o egoísmo sendo potencializado se chegaria ao bem estar coletivo, onde todos teriam chance de um dia ser rico, bastando apenas seu esforço individual e sua capacidade de assumir riscos.

O pobre de direita é um figurante de Burguês que late como pitbull e se cala sobre sua própria exploração.

por José Menezes Gomes
Professor do curso de Economia e do Mestrado em Serviço Social da UFAL