quarta-feira, 9 de maio de 2018

A estória normal de um menino normal


Era uma vez um menino normal, que morava num bairro normal de periferia, de uma capital normal do Brasil. Era de Fortaleza, no Ceará
Estudava, brincava de futebol, triângulo, baladeira, bandeira, bila, jogava futebol de botão e soltava arraia, como todo menino normal.
Sonhava, como todo menino normal, em ser jogador de futebol. Simulava tabela com a parede. Via a bola cruzada depois de arremessada na parede. Via o goleiro vencido com a cabeçada fulminante.
Estava nesse treinamento dos sonhos quando uma vizinha avisa que um jornal publicara a relação de aprovados num concurso.
O nome do menino normal era o vigésimo segundo de uma lista.
Havia feito a inscrição para o concurso. Havia feito as provas. Também havia feito no ano anterior. Não tinha a menor ideia do que era Banco do Nordeste do Brasil S.A.
O menino normal não compreendia o significado do feito. Fora aprovado entre seis mil candidatos.
A mãe numa felicidade incompreensível para o menino normal com seus 14 anos. O pai, todo orgulhoso, falando das providências para conseguir a documentação exigida.
Na lembrança o fato de que teria de tirar uma foto 5X4 para a carteira de identidade. Tudo muito estranho.
E roda da vida acelerou o giro.
No dia 19 de junho de 1978, data de seu 15º aniversário, o menino normal assinaria a documentação e começaria a trabalhar no BNB.
Assim, de maneira prematura, foi encerrada a carreira futebolística. Com certeza o Fortaleza Esporte Clube ainda lamenta o fato.
O menino normal tinha um pequeno mundo normal: a família em Jaguaretama e o quarteirão onde residia no Henrique Jorge, bairro onde cresceu, além dos livros, que sempre foram boas companhias.
Depois desse dia o mundo do menino normal perdeu as fronteiras de então.
Quantas pessoas diferentes. Quantos conceitos diferentes. Quantos mundos diferentes. Quantos amigos inimagináveis.
Pois é. Cresceu nessa mistura: - uma família; - uma rua e seus amigos; e os novos amigos, que rapidamente se tornariam mais uma família para ele.
Mas não era uma família normal.
Era uma família nascida do acaso, mas decidida a se fazer e se ver como família.
E o mundo continuou a girar.
Em 1981 espalharam a família do BNB, todos com idade entre 17 e 18 anos, pelo Nordeste.
O menino normal se sentiu felizardo e feliz.
Apesar de ter apenas 17 anos de idade, foi designado para a agência do BNB em Campo Maior-PI. Ficava "a uma noite" de casa. Se nas sextas à noite “pegasse” o “Expresso de Luxo” que vinha de Teresina, chegaria em Fortaleza às 06hs da manhã do sábado. Voltaria no domingo à noite.
Mas o mundo sempre traz presentes.
Em Campo Maior encontrou mais amigos. Foi adotado por duas irmãs proprietárias da pensão onde viveu. D. Lourdes e D. Socorro. Mulheres maravilhosas. O menino normal ganhou duas mães. A mãe estava longe.
Conheceu os favores da política. Voltou um ano depois para Fortaleza e foi trabalhar no Banco do Estado do Ceará. Uma cessão só explicada pelas amizades do pai.
Mas queria voltar para casa, no caso o BNB. E um ano depois foi lotado em Limoeiro do Norte-CE.
“Era” de Jaguaretama e ficou feliz. Estava entre Jaguaretama e Fortaleza.
Ah! E em Limoeiro do Norte foi uma felicidade só. Brincou e também fez amigos. Muitos amigos.
Limoeiro do Norte, além das estórias e amizades, também trouxe filhos e um casamento.
Voltou para a cidade linda e que amava (Fortaleza) para trabalhar numa área inimaginável. Passou num concurso interno para programador de computador.
Uma chance para viver minha cidade querida e com os amigos que amava.
De volta a Fortaleza, amou e viveu. Foi pai. Fez família. Desmanchou família. Fez família novamente. Ganhou filhos. Foi pai novamente. Desfez e refez família. E nesse ínterim, viveu.
Com o desgoverno FHC, o BNB tornou-se um peso e um desprazer. Pediu para ser demitido em 1997.
E a roda do mundo girou.
Viveu uma época difícil. Sem emprego e com quatro filhos. Cursava agronomia e contava com a força e certeza da companheira, que segurou a “onda”.
Conheceu o lado bom da vida. Teve ajuda da mãe, dos irmãos e dos amigos. Aquela família do BNB e alguns agregados, chegaram a recuperar um “velho” fusquinha como presente. Teve ajuda dos cunhados e dos sogros. Uma barra. Mas vida que segue.
Uma reconhecimento especial aos filhos que resistiram bravamente e, mesmo crianças, não cobraram por não mais irem à praia ou às pizzarias.
O pai compra uma terra complicada, apostando no agrônomo que se formava.
O mundo gira e ele, pai, morre dois dias após apresentação da dissertação.
E agora?
Ainda sem trabalhar, bolsa do mestrado findando e com obrigações a quitar com os empregados da fazenda.
Vai trabalhar em Jaguaretama como professor no ensino médio e depois como extensionista num programa de ovinocaprinocultura.
Angustiado, o pensamento de concurso público volta a ser uma hipótese razoável.
Já era 2005.
Mas também já era agrônomo formado e mestre em zootecnia.
Anteriormente tinha abandonado a faculdade de direito com 2/3 dos créditos concluídos. Descobriu que não tinha estômago para encarar as questões jurídicas. Desacredita numa justiça justa.
Em junho o menino normal vai à Belém e faz provas para concurso do IBAMA.
Ressaltar o prazer do reencontro e o convívio com a família do primo Fernando.
O menino normal é ateu, mas crê em energia. A prova do IBAMA seria às 13hs do domingo. A farra foi de meio dia do sábado às 02hs da manhã do domingo. Foram 2 litros de uísque.
Haja ENGOV, ANADOR e SONRISAL para encarar concurso público.
Também em 2005 fez prova para o INCRA, mas em Fortaleza.
Passou no IBAMA para a segunda chamada e INCRA para a primeira.
Também ele não esquece a fundamental participação de amigo da família BNB no recurso apresentado no concurso do IBAMA. Foi o 0,5 ponto que faltava para a nota de corte. Bravo companheiro Reginaldo.
Novamente vai para um mundo desconhecido.
Marabá-PA é a primeira parada para assumir o cargo no INCRA em 2006. Muitos amigos. Gente do Brasil inteiro e novas concepções de mundo.
Trabalho de avaliar imóveis e relatórios para criação de assentamentos rurais. Desanda a fazer longas caminhadas nas matas do sudeste paraense. Conhece um mundo desconhecido até então.
Chamado para o IBAMA em 2007, que se tornaria ICMBio, agora é a vez de construir amizades em Tucuruí-PA. E foi feito. E mais andadas nas matas na implementação da Reserva Extrativista Ipaú-Anilzinho.
O menino normal amou o Pará e lembra com carinho cada amizade construída.
Pois é.
Volta ao Ceará e trabalha por dois anos na Secretaria Especial de Aquicultura e Pesca. Conhece o Ceará. Conhece o mundo dos pescadores artesanais. Vai à quase todas as cidades com colônia de pescadores.
Volta para casa. Volta ao ICMBio. Agora em Jericoacoara. São quatro anos na equipe gestora do Parque Nacional de Jericoacoara. Mais amigos e boas e belas lembranças.
Ainda em Jeri, surgem trabalhos esporádicos com avaliações de imóveis em outras unidades de conservação no País. Conhece o Parque Nacional do Catimbau-PE, a Estação Ecológica de Murici-AL, o Parque Nacional da Lagoa do Peixe-RS e o Parque Nacional de Itatiaia-MG, entre outros.
Jaguaretama-CE, Campo Maior-PI, Limoeiro do Norte-CE, Marabá-PA, Tucuruí-PA, Jericoacoara-CE e Beberibe-CE. Tantos lugares chegados só com a mala e cuia. Tantos lugares e amigos feitos. Todos deixados com a “saudade” do reencontro. Tantas lembranças boas. 
Fica a suspeita de que o menino normal é comum. Faz e espalha amigos no mundo.
Vida que segue: um ano em Marabá-PA e outro em Tucuruí-PA. Quatro em Jericoacoara e três em Beberibe.
Um resumo com “duas” palavras: felicidade e amizades.
E a vida continuou girando. Conheceu lugares. Fez amigos e, fundamentalmente, cresceu e aprendeu.
Depois de quatro anos em Jericoacoara, o menino normal está há três em Beberibe.
Cuidou de um parque nacional. Cuidou de pescadores e embarcações na secretaria da pesca e hoje cuida de gente na Reserva Extrativista Prainha do Canto Verde.
Luta pela preservação da comunidade da Prainha do Canto Verde, em Beberibe-CE. Luta por um mundo mais justo. Luta para que todos tenham o direito de ser feliz.
E o menino normal, que cresceu num mundo normal, é normalmente pai e avô. É feliz pelo reencontro próximo com os trinta amigos, que há quarenta anos se encontraram aleatoriamente e se fizeram família.
Realmente não sei quantas histórias teria para contar sobre o menino normal, mas tenho uma certeza: este menino normal, ainda vivendo numa periferia normal, de uma capital normal, jamais imaginaria as voltas que o mundo poderia dar.


Quem Me Levará Sou Eu


Dominguinhos

Amigos a gente encontra
O mundo não é só aqui
Repare naquela estrada
Que distância nos levará
As coisas que eu tenho aqui
Na certa terei por lá
Segredos de um caminhão
Fronteiras por desvendar
Não diga que eu me perdi
Não mande me procurar
Cidades que eu nunca vi
São casas e braços a me agasalhar
Passar como passam os dias
Se o calendário acabar
Eu faço voltar o tempo outra vez, sim
Tudo outra vez a passar
Não diga que eu fiquei sozinho
Não mande alguém me acompanhar
Repare, a multidão precisa
De alguém mais alto a lhe guiar

Quem me levará sou eu
Quem regressará sou eu
Não diga que eu não levo a guia
De quem souber me amar



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