quarta-feira, 26 de junho de 2013

As manifestações

As manifestações

Para começar, é bom o povo ir para a rua. É saudável.
Mas como diz o ditado, tudo demais é veneno.
Lamento pela falta de habilidade do prefeito Fernando Haddad. É a sensação que tenho observando os fatos aqui do Ceará.
O sistema de transportes, no Brasil inteiro, é um oligopólio.
Nunca foi parte das propostas do PT a manutenção desses monopólios.
Seria necessário ver as planilhas de custos das empresas com o olhar dos trabalhadores e não dos empresários. É preciso ver com o olhar dos trabalhadores na hora das licitações.
Afinal, carrega-se a palavra trabalhador no nome: PT → Partido dos Trabalhadores.
Na primeira hora, após a repercussão da repressão feita pela PM, observando diretrizes do governo Alckmin, o prefeito deveria ter chamado o movimento. Deveria ter feito um chamamento desarmado e sem pré-condições.
Aliás, deveria ter chamado antes do aumento. Outro erro foi o governo federal ter solicitado que não houvesse um reajuste tempos atrás para não impactar na inflação.
Sei que o prefeito está no cargo há apenas seis meses, mas o PT já governou a cidade de São Paulo por duas ocasiões e já deveria ter um projeto alternativo para os transportes. Seja criando um imposto municipal sobre a gasolina ou um projeto de IPTU progressivo alternativo à necessidade de retirar dinheiro do orçamento para subsidiar o transporte coletivo, além de revisar os contratos e concessões.
Também revisar a planilha de custo das empresas deveria ter sido uma das primeiras providências do novo governo municipal.
O PT com certeza saberia pressionar e mobilizar a população para alcançar a aprovação das leis
Mas o PT mudou muito nestes 10 anos de poder federal.
Nunca fui filiado ao PT.
Já vesti camisa, usei “boton” no peito e carreguei bandeira. Já vibrei em atos, comícios e carreatas. Já fui a muitas festas. Já chorei também as derrotas.
Fui apresentado ao PT em 2005. Tinha 22 anos na ocasião. Era campanha pela prefeitura de Fortaleza. Dois candidatos, ambos políticos tradicionais, e um azarão, no caso a candidata PTista de Maria Luiza Fontenele. Deu PT na cabeça com a força da juventude e do movimento organizado.
Na época não votava em Fortaleza, votava em Jaguaretama, terra natal de minha mãe. Terra de minha família.
Mais que a mensagem de construção de um outro mundo possível, mais solidário, justo e humano, contagiava a alegria e os sonhos dos amigos que participavam mais diretamente na campanha.
Encontrávamos nos botecos e a conversa era rica. Detalhes da campanha, sonhos, informações e soluções.
Discutiam-se as questões surgidas nos núcleos de participação e organização. Na época, havia no PT um fórum permanente: os núcleos de bairros e de categorias. O PT era então um organismo vivo e em construção.
As discussões enriqueciam o partido. Existiam cobranças. Definiam-se rumos. Havia a participação de todos.
Com o tempo o PT tornou-se um partido como outro qualquer. Virou uma máquina para disputar e ganhar eleições. Perdeu organicidade. Perdeu-se a sensação de participação e pertencimento.
O PT hoje é um partido de donos. Como dizemos aqui no Nordeste, há os coronéis que são donos. Ou caciques. Qualquer forma cabe no mesmo conteúdo.
Tudo é decidido pelas lideranças. Eleições, acordos, conchavos e coligações são decididas pelas “lideranças”.
Por isso o PT foi surpreendido pelas manifestações.
Não há mais uma militância orgânica. As lideranças hoje têm cargos no executivo ou no parlamento. Não moram e não convivem mais na periferia. As exceções apenas confirmam a regra.
Entendo também que o que está nas ruas hoje, além de jovens que não entendem o mundo onde habitam, são malucos, delinquentes e uma classe média despolitizada e preconceituosa.
Não existem planos e nem estratégias. Não há sonhos a se conquistar. Apenas a vontade de aparecer e dizer que é contra tudo.
Sinal de uma juventude alienada, egoísta, consumista e individualista.
Gritam contra o PT. Pedem que o PT saia do poder. Querem saúde, habitação, educação, segurança e transportes. Tudo obrigações dos governos municipal e estadual. Tudo que só pode ser feito pelo governo federal sob demandas dos governos municipais e/ou estaduais, onde o PT não é o partido majoritário.
Gritam contra a aprovação da PEC-37, mas quando questionados, não conseguem explicar coerentemente o que é a PEC-37. Não sabem a raiz do problema. Repetem bovinamente o que, de maneira desonesta, é colocado pela mídia e pelos procuradores.
Não conseguem perceber que a ausência do MP nos processos investigatórios é uma decisão filosófica dos constituintes.
O MP é parte da ação penal. Sua participação conduzindo o inquérito é uma afronta ao equilíbrio da justiça.
O procurador/promotor que conduz o inquérito pode ignorar provas se for de sua conveniência para condenar/absolver o réu. A exclusividade das polícias para condução dos inquéritos garante uma parte de fora do processo no inquérito.
Maior afronta é que não ficarão todas os inquéritos sob a responsabilidade do MP. Ele quer decidir em quais participa. O MP quer a seletividade. O que é um absurdo. Se ele quer essa prerrogativa, que fique com a obrigação de presidir e conduzir todos os inquéritos. Mas o MP quer apenas os que podem repercutir na mídia. Ele quer escolher qual inquérito. Os que dão trabalho, e que são a maior parte dos trabalhos do dia-a-dia, é para continuar com as polícias.
Querem poder partidarizar e fazer política. Querem o poder de ameaçar. Querem simplesmente o poder com essa seletividade.
Basta ver as ações de nosso PGR. Não faltam denúncias nas páginas de jornais, blogs e tribunas do congresso sobre a seletividade de suas ações, com engavetamento de processos contra “autoridades”.
Voltando às manifestações, creio que elas se esvaziarão naturalmente. A direita e a mídia não têm propostas e nem sonhos para manter o povo nas ruas. Todo modismo passa.
Como em 2005, gastaram pólvora antes da hora.
2014 continuará com pleno emprego, inflação e juros em baixa, além de jovens com condições de estudar e mudar de vida.
Isso é muito para quem era miserável até o início do governo Lula.
Mas é pouco para um governo eleito com tantos sonhos.
Talvez a manifestação sirva para acordar o PT e o governo federal. Acordar para sentir o povo e enxergar onde estão os amigos e companheiros de estrada, que sempre estiveram ao seu lado.
Hora de reconhecer a importância e prestigiar os movimentos sociais. Prestigiar o MST pela luta por uma reforma agrária digna de um Brasil justo. Hora de prestigiar o serviço público contratando servidores e alterando a lei que permite a nomeação de cargos comissionados indiscriminadamente. Hora de olhar com carinho e respeito a causa indígena.
Hora também de identificar os inimigos do povo brasileiro. Hora de quebrar monopólios e alterar a estrutura deste País.
Precisamos mudar a realidade econômica da nação. Precisamos quebrar os monopólios da comunicação, dos transportes, da saúde, da educação. Precisamos frear a influência do capital financeiro e especulativo.
Podem ser bandeiras genéricas, mas não é para chamar o povo para as ruas em defesas destas bandeiras.
É para servir de norte.
O PT que conheci pensava assim.
Hora de propor mudanças que afetem positivamente a vida do povo brasileiro. Hora de chamar o povo para ruas para lutar pelas medidas necessárias e pressionar o congresso.

Hora de ser verdadeiramente “sem medo de ser feliz”.
Jeri, 21 de junho de 2013

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