As
manifestações
Para
começar, é bom o povo ir para a rua. É saudável.
Mas
como diz o ditado, tudo demais é veneno.
Lamento
pela falta de habilidade do prefeito Fernando Haddad. É a sensação
que tenho observando os fatos aqui do Ceará.
O
sistema de transportes, no Brasil inteiro, é um oligopólio.
Nunca
foi parte das propostas do PT a manutenção desses monopólios.
Seria
necessário ver as planilhas de custos das empresas com o olhar dos
trabalhadores e não dos empresários. É preciso ver com o olhar dos
trabalhadores na hora das licitações.
Afinal,
carrega-se a palavra trabalhador no nome: PT → Partido dos
Trabalhadores.
Na
primeira hora, após a repercussão da repressão feita pela PM,
observando diretrizes do governo Alckmin, o prefeito deveria ter
chamado o movimento. Deveria ter feito um chamamento desarmado e sem
pré-condições.
Aliás,
deveria ter chamado antes do aumento. Outro erro foi o governo
federal ter solicitado que não houvesse um reajuste tempos atrás
para não impactar na inflação.
Sei
que o prefeito está no cargo há apenas seis meses, mas o PT já
governou a cidade de São Paulo por duas ocasiões e já deveria ter
um projeto alternativo para os transportes. Seja criando um imposto
municipal sobre a gasolina ou um projeto de IPTU progressivo
alternativo à necessidade de retirar dinheiro do orçamento para
subsidiar o transporte coletivo, além de revisar os contratos e
concessões.
Também
revisar a planilha de custo das empresas deveria ter sido uma das
primeiras providências do novo governo municipal.
O
PT com certeza saberia pressionar e mobilizar a população para
alcançar a aprovação das leis
Mas
o PT mudou muito nestes 10 anos de poder federal.
Nunca
fui filiado ao PT.
Já
vesti camisa, usei “boton” no peito e carreguei bandeira. Já
vibrei em atos, comícios e carreatas. Já fui a muitas festas. Já
chorei também as derrotas.
Fui
apresentado ao PT em 2005. Tinha 22 anos na ocasião. Era campanha
pela prefeitura de Fortaleza. Dois candidatos, ambos políticos
tradicionais, e um azarão, no caso a candidata PTista de Maria Luiza
Fontenele. Deu PT na cabeça com a força da juventude e do movimento
organizado.
Na
época não votava em Fortaleza, votava em Jaguaretama, terra natal
de minha mãe. Terra de minha família.
Mais
que a mensagem de construção de um outro mundo possível, mais
solidário, justo e humano, contagiava a alegria e os sonhos dos
amigos que participavam mais diretamente na campanha.
Encontrávamos
nos botecos e a conversa era rica. Detalhes da campanha, sonhos,
informações e soluções.
Discutiam-se
as questões surgidas nos núcleos de participação e organização.
Na época, havia no PT um fórum permanente: os núcleos de bairros e
de categorias. O PT era então um organismo vivo e em construção.
As
discussões enriqueciam o partido. Existiam cobranças. Definiam-se
rumos. Havia a participação de todos.
Com
o tempo o PT tornou-se um partido como outro qualquer. Virou uma
máquina para disputar e ganhar eleições. Perdeu organicidade.
Perdeu-se a sensação de participação e pertencimento.
O
PT hoje é um partido de donos. Como dizemos aqui no Nordeste, há os
coronéis que são donos. Ou caciques. Qualquer forma cabe no mesmo
conteúdo.
Tudo
é decidido pelas lideranças. Eleições, acordos, conchavos e
coligações são decididas pelas “lideranças”.
Por
isso o PT foi surpreendido pelas manifestações.
Não
há mais uma militância orgânica. As lideranças hoje têm cargos
no executivo ou no parlamento. Não moram e não convivem mais na
periferia. As exceções apenas confirmam a regra.
Entendo
também que o que está nas ruas hoje, além de jovens que não
entendem o mundo onde habitam, são malucos, delinquentes e uma
classe média despolitizada e preconceituosa.
Não
existem planos e nem estratégias. Não há sonhos a se conquistar.
Apenas a vontade de aparecer e dizer que é contra tudo.
Sinal
de uma juventude alienada, egoísta, consumista e individualista.
Gritam
contra o PT. Pedem que o PT saia do poder. Querem saúde, habitação,
educação, segurança e transportes. Tudo obrigações dos governos
municipal e estadual. Tudo que só pode ser feito pelo governo
federal sob demandas dos governos municipais e/ou estaduais, onde o
PT não é o partido majoritário.
Gritam
contra a aprovação da PEC-37, mas quando questionados, não
conseguem explicar coerentemente o que é a PEC-37. Não sabem a raiz
do problema. Repetem bovinamente o que, de maneira desonesta, é
colocado pela mídia e pelos procuradores.
Não
conseguem perceber que a ausência do MP nos processos
investigatórios é uma decisão filosófica dos constituintes.
O
MP é parte da ação penal. Sua participação conduzindo o
inquérito é uma afronta ao equilíbrio da justiça.
O
procurador/promotor que conduz o inquérito pode ignorar provas se
for de sua conveniência para condenar/absolver o réu. A
exclusividade das polícias para condução dos inquéritos garante
uma parte de fora do processo no inquérito.
Maior
afronta é que não ficarão todas os inquéritos sob a
responsabilidade do MP. Ele quer decidir em quais participa. O MP
quer a seletividade. O que é um absurdo. Se ele quer essa
prerrogativa, que fique com a obrigação de presidir e conduzir
todos os inquéritos. Mas o MP quer apenas os que podem repercutir na
mídia. Ele quer escolher qual inquérito. Os que dão trabalho, e
que são a maior parte dos trabalhos do dia-a-dia, é para continuar
com as polícias.
Querem
poder partidarizar e fazer política. Querem o poder de ameaçar.
Querem simplesmente o poder com essa seletividade.
Basta
ver as ações de nosso PGR. Não faltam denúncias nas páginas de
jornais, blogs e tribunas do congresso sobre a seletividade de suas
ações, com engavetamento de processos contra “autoridades”.
Voltando
às manifestações, creio que elas se esvaziarão naturalmente. A
direita e a mídia não têm propostas e nem sonhos para manter o
povo nas ruas. Todo modismo passa.
Como
em 2005, gastaram pólvora antes da hora.
2014
continuará com pleno emprego, inflação e juros em baixa, além de
jovens com condições de estudar e mudar de vida.
Isso
é muito para quem era miserável até o início do governo Lula.
Mas
é pouco para um governo eleito com tantos sonhos.
Talvez
a manifestação sirva para acordar o PT e o governo federal. Acordar
para sentir o povo e enxergar onde estão os amigos e companheiros de
estrada, que sempre estiveram ao seu lado.
Hora
de reconhecer a importância e prestigiar os movimentos sociais.
Prestigiar o MST pela luta por uma reforma agrária digna de um
Brasil justo. Hora de prestigiar o serviço público contratando
servidores e alterando a lei que permite a nomeação de cargos
comissionados indiscriminadamente. Hora de olhar com carinho e
respeito a causa indígena.
Hora
também de identificar os inimigos do povo brasileiro. Hora de
quebrar monopólios e alterar a estrutura deste País.
Precisamos
mudar a realidade econômica da nação. Precisamos quebrar os
monopólios da comunicação, dos transportes, da saúde, da
educação. Precisamos frear a influência do capital financeiro e
especulativo.
Podem
ser bandeiras genéricas, mas não é para chamar o povo para as ruas
em defesas destas bandeiras.
É
para servir de norte.
O
PT que conheci pensava assim.
Hora
de propor mudanças que afetem positivamente a vida do povo
brasileiro. Hora de chamar o povo para ruas para lutar pelas medidas
necessárias e pressionar o congresso.
Hora
de ser verdadeiramente “sem medo de ser feliz”.
Jeri, 21 de junho de 2013
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado por contribuir com seu comentário. O mesmo será liberado após a moderação.