quarta-feira, 17 de abril de 2013

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Era minha intenção inaugurar o blog com uma postagem sobre o aniversário de Fortaleza, mas não tive ânimo para escrever. Sábado, dia 14, comemorou-se mais um aniversário de minha cidade.
Uma data complicada, pois é resultado de uma lei.
Fortaleza tem uma origem confusa. Foi construída pelos holandeses, destruída pelos índios e reconstruída pelos portugueses. Com dificuldades de conviver com os ataques indígenas, a capitania do Ceará tem sua capital transferida para Aquiraz, sendo Fortaleza novamente capital por pressão dos moradores locais, tendo em vista possuir uma população e uma atividade econômica muito superior à Vila de Aquiraz.
Para mim é complicado ver o Ceará ser dirigido pelos Ferreira Gomes, depois de passarmos pelos governos Tasso.
Dói mais ainda ver Fortaleza governada por alguém colocado prefeito pelos Ferreira Gomes.
Mas fazer o que? Após as incompetentes administrações PTistas da Luiziane. Não posso culpar a população de Fortaleza por isso.
Houve uma comemoração insípida, inodora e incolor no aterro da praia de Iracema. Claro que não me senti compelido a ir. Não por culpa dos artistas, afinal, o show principal foi com Milton Nascimento.
A festa começou errada pela escolha do lugar. A bela praia de Iracema é para turista ver. O local indicado seria a Praça do Ferreira, no centro da cidade, com grande participação popular.
Mas a elite branca não gosta do centro. Prefere os shoppings.
Teriam também de "limpar" o centro, hoje com muita sujeira e em meio a moradores de rua, que dormem pelas calçadas.
Ontem estava naquele bate-papo regado a cerveja com meu grande amigo-irmão Maurição e relembrando fatos da Fortaleza que conheci na infância.
Lembrando dos primeiros carnavais, que assisti na Heráclito Graça. Na época meus pais moravam na rua João Cordeiro. Lembrei dos ônibus elétricos (amarelos) que iam do centro a Praça do Otávio Bonfim. Lembrei do "balão" ou rotatória da reitoria, da fábrica Fortaleza, da Praça José de Alencar, onde "pegava" o ônibus para o Henrique Jorge, onde passei a morar a partir de 1973.
Lembrando do Mercantil São José, da Mesbla, do Roncy, dos cabarés de então, dos shows do Quinteto Agreste, que ia assistir na Praça do Ferreira na adolescência.
Hoje tem supermercado em cada bairro, mas nos meus tempos de criança eram as bodegas (do "seu Chico vivo até hoje) e mercearias, com direito a anotação na caderneta. Lembro que ia com minha mãe fazer a feira no Mercado dos Pinhões.
Lembro quando Fortaleza acabava na Aerolândia e no Antônio Bezerra. A Parangaba era no final do mundo. Lembro de acordar "de madrugada" para "pegar" o ônibus para Jaguaretama no centro, na agência do Expresso Ouro Verde, pois não havia rodoviária.
Lembro da construção do Conjunto Ceará, que proporcionou o incremento numa das principais características de Fortaleza: - ser terra de imigrantes.
- Sou filho de pai originário do Barro e de mãe originária de Jaguaretama. Municípios do interior do Ceará.
Durante as décadas 60 e 70, mais da metade dos nascidos em Fortaleza compartilhavam desta característica. Eram filhos de famílias do interior. Hoje quase todos são filhos de fortalezenses
Sem rigor científico, digo que a Fortaleza dos fortalezenses localizava-se na Barra do Ceará, na Jacarecanga, no Mucuripe e adjacências. Eram locais originalmente de pescadores.
Lembro que a Av. João Pessoa era de placas de concreto, e não de asfalto. Lembro que o Henrique Jorge era longe "pra danar". Lembro de meu primeiro jogo que assisti no PV, em 1973. Feliz com a vitória do Leão sobre o tigre. Lembro de minha primeira comemoração por um campeonato no Castelão (4 X 0 sobre o ceará em 1974).
Lembro de nunca conseguir pegar o ônibus que me levaria ao centro de treinamento do BNB e sempre pegar o de linha normal Castelão (irmãos Bezerra). Sempre acompanhado pelos amigos (preguiçosos também - claro) Reginaldo e Carlão. Época de construção da Av. Dedé Brasil.
Lembro de minha primeira vez, com uma "mulher da vida", na chamada “cinzas” ou “oitão preto”, por trás da estação ferroviária. Se fui louco ou tive sorte, não sei. Sei que estou vivo e com saúde até hoje. Estudava no Colégio Rui Barbosa.
Nasci, cresci e me tornei gente nesta cidade (eu pelo menos acredito ser gente). Nunca gostei muito de frequentar a parte rica e branca de Fortaleza. Vivi e cresci numa Fortaleza diferente. Mestiça e pobre, mas verdadeira e alegre.
Saí algumas vezes para trabalhar longe, mas não consigo viver afastado desta minha terra. Campo Maior-PI, Limoeiro do Norte-CE, Jaguaretama-CE, Marabá e Tucuruí no PA. Quero bem a cada lugar que me acolheu. Vivi feliz e fiz amigos em cada uma delas, mas Fortaleza sempre falou forte.
Hoje trabalho na paz de Jericoacoara, mas venho matar a saudade dos congestionamentos, barulhos e confusões na minha bela "loura desposada do sol".
Mesmo com a "sorte" de trabalhar num banco federal desde os 15 anos, optei por continuar a viver onde cresci. O Henrique Jorge continua a ser um bairro classe média baixa e de periferia, abandonado pelas administrações públicas. Moro por aqui desde 1973. Dei algumas escapadas, mas firme e forte no "Jiquejorge"
Mas sou feliz. Vou aos botecos sem medo. Adoro o Benfica, principalmente o bar do Assis. O Raimundo dos Queijos é um barato. Desfilo com o Maracatu Solar durante o carnaval e curto cada oportunidade que minha cidade proporciona.
Depois de ir morar em Jeri, tem me faltado vontade de frequentar a orla marítima de Fortaleza.
Quem conhece Jeri há de me dar razão.
Sou feliz, principalmente porque tenho uma imensidão de amigos, a quem dedico este singelo texto.
Beijos e abraços a todos

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