Uma pitada de futebol I
Hoje vejo serenidade na montagem do time. Arrotar grandeza nunca fez
um time ser grande.
A grandeza histórica, nos moldes capitalistas, resulta de trabalho,
resultados e história.
Lembro de quando caímos pela primeira vez para a série C. Tínhamos
no ataque Artuzinho e Edmar, ex-seleção. Mas com atrasos nos
pagamentos.
Prefiro um trabalho construído aos poucos, mas com planejamento e
serenidade.
Um time só coloca em campo onze jogadores. Porque se contrataria
trinta jogadores para o início de temporada?
Deveríamos contratar uma base para lapidarmos a partir dela,
utilizando jogadores da base. Mas surge o primeiro problema: não
temos bons jogadores na base.
Não posso culpar a atual diretoria com exclusividade. Mas também
não posso absolvê-la. Afinal, já são passados dois anos dessa
gestão.
Estou confiante de que construiremos uma boa base, mas é um trabalho
que apresentará resultados em dois ou três anos.
Com relação aos profissionais, não creio que haverá alguma
contratação que se imporá pelo individual. Creio que o treinador
prefere que o destaque seja o coletivo. Também acredito que seja o
pensamento do César Sampaio, gerente de futebol. Também aposto
nesta visão.
Temos uma torcida impaciente e que é literalmente incendiada por uma
imprensa ávida por manchetes. Mas futebol não se faz com manchetes.
Houve uma grande mudança no futebol profissional, e muitos não se
deram conta.
Os grandes clubes tornaram-se nacionais e de massa nas décadas 1950
e 1960. Era um outro Brasil. Eram outras leis. Eram outras
tecnologias. Ouvia-se futebol pelo rádio. Era a época do “passe”
do atleta que pertencia ao clube.
Quem não se atentar a isso quebrará. Dívidas imensas nos grandes
clubes.
Hoje temos contratos com direitos e obrigações. Hoje temos
empresários para meninos com dezesseis anos, que ainda jogam na base
e alimentando esperanças de fuga da miséria para a família via
futebol.
Temos um monopólio nas transmissões pela TV pela rede globo, onde o
futebol é apenas um negócio.
Temos futebol sendo transmitido do mundo inteiro e mais uma grande
diversidade de esportes.
Hoje temos uma violência nos grandes centros urbanos e a proibição
da venda de bebidas alcoólicas nos estádios.
Há uma pressão latente, exacerbada na última campanha eleitoral
tricolor que dificulta a racionalização da torcida do Fortaleza.
Nem viram o time jogar e só falam em contratar.
Não há uma compreensão do mercado. Nem todo jogador se mostra
disposto a vir jogar aqui por não acreditar que seja um bom negócio
jogar a série C.
Muitos ainda creem numa maior valorização se disputar o campeonato
paulista.
Ano passado, Dudu Cearense estava esquecido pelos grandes times e
reapareceu por aqui. Jean Mota despercebido em São Paulo também
brilhou no Leão e hoje está no Santos.
Fortaleza é a quinta capital do País, mas o Leão tem um número de
sócios torcedores ridículos, o que não nos capacita para maiores
voos.
Não se faz futebol apenas com boa vontade, na base do coração. É
necessário planejamento, organização e trabalho.
Fortaleza 08/01/2017
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