Tenho
ficado incomodado com essa explosão de pessoas cobrando uma lei que
diminua a maioridade penal. Na realidade, lamento, porque elas buscam
uma solução mágica para um problema complexo, e isso não existe.
Muitos são meus amigos e parentes, a quem quero um bem danado e a
quem tenho muito respeito. E fico triste vendo-os repercutir esse
preconceito e essa tentativa de solução mágica.
Não
sou psicólogo, assistente social, sociólogo ou qualquer outro
profissional que trabalha na área. Sou apenas um ser humano que não
consegue ver algo e repercutir por impulso.
A
racionalidade é o que nos torna diferentes dos animais.
Isso
que chamo de racionalidade envolve algo simples como raciocinar e
pensar. Analisar e tentar entender as causas e as consequências.
Claro
que todo cidadão brasileiro fica indignado com a violência e
impunidade. Mas o que gera essa violência? E a impunidade? Ela é
causa ou consequência? Seria apenas o fato do infrator ser menor?
Na
realidade queremos justiça ou vingança?
Será
que apenas a redução da maioridade penal resolveria boa parte dos
problemas de segurança que enfrentamos? Será que é justo punirmos
um garoto de dezesseis anos que comete um crime com o mesmo rigor de
um “cabra” de trinta anos que comete o mesmo crime?
Será
que não se deveria estudar o aspecto da punição X recuperação?
Não seria necessário se mudar, além do código penal, o código de
processo penal e a lei de execução penal também?
Será
que nosso judiciário não tem culpa por essa sensação de
impunidade?
Vemos
vários casos de criminosos (nem poderia chamar assim perante a
justiça, pois não transitou em julgado) que cometem crimes e que já
respondem a vários processos por outros crimes e que estão livres, sem terem seus julgamentos conclusos.
Será
que a culpa é do judiciário ou da lei?
Porque
será que um julgamento dura tanto tempo para ser realizado? Culpa do
juiz? Em parte sim, porque muita das vezes os prazos processuais não
são respeitados. Culpa dos recursos? Também em parte sim. Culpa do
sistema judiciário? Também sim.
A
sensação de impunidade prolifera e ninguém consegue racionalizar e
passamos a agir irracionalmente e sem compromisso. Repetindo um
discurso. Normalmente explorando o medo e sempre preconceituoso,
contra pobres e favelados.
Vemos
políticos e jornalistas/radialistas brandindo um discurso a favor da
pena de morte, a favor de maiores penas, etc. Tudo oportunismo e
superficialidade em busca de um discurso que agrade as massas e venda
audiência.
A
lei penal já prevê penas severas.
Se não me engano, ela prevê
para o caso de se matar alguém pena mínima de 12 anos e uma máxima de
30 anos e que, com agravantes e atenuantes, chegam a 20 anos em
média.
Sei
que quem morreu já se foi, mas creio que para alguém condenado a cumprir uma pena
de 20 anos num presídio, 20 anos seja uma pena suficiente dura para lembrar
àquela pessoa da gravidade de seu ato. Imagine alguém que comete um
crime aos 30 anos e é condenado a 20 anos. Sairá com 50 anos e
quase sem direito a uma vida.
Onde
está o erro. Nosso código de processo penal e nossa lei das execuções penais prevê que a pessoa
saia do presídio com 1/6 da pena cumprida. Ou seja, sou condenado a
20 anos e passo apenas 3 anos e alguns meses preso. Será o caso do
goleiro Bruno. Como já cumpriu uma boa parte da pena, em breve
estará livre para trabalhar.
E
por que isso? A única explicação que consigo ver é que o Estado
não quer arcar com sua responsabilidade e despesa Para manter uma
estrutura carcerária que comporte uma quantidade enorme de presos
por tanto tempo.
E
porque não vemos políticos e jornalistas/radialistas brandindo
contra? Imaginem … será que interessa a alguém esse gasto do
Estado? Existe realmente alguma preocupação dos responsáveis ou dos que repercutem?
Por
que alguns processos duram anos para serem julgados e o criminoso
continua em liberdade?
Respondo: Porque
podem pagar a caros advogados que usam e abusam dos recursos
protelatórios. E a sensação de impunidade?
Será
que um juiz não pode negar esses excessos de garantias processuais e
dar celeridade aos processos. Ou só se faz isso para atender a um
“clamor popular” divulgado e incentivado pela imprensa.
Será
que essa veemência em favor da diminuição da maioridade penal não
é a decretação da falência do Estado em seu papel? Qual o papel
da sociedade na criação dos jovens? Nenhum? Qual o papel dos pais e
das famílias na criação dos jovens? Nenhum? Nenhuma punição para
nossos representantes do executivo que falham em suas missões?
Que
valores passamos aos nossos jovens? Quais os valores éticos que eles
internalizaram?
Numa
sociedade onde a individualidade e o consumismo são valores “padrão”
podemos cobrar o quê dos jovens?
E
os exemplos a que são expostos diariamente?
Ser
esperto e sabido é uma virtude nos dias de hoje.
O garoto cresce
vendo o pai se vangloriar de corromper um agente público, de furar
uma fila, de andar numa via proibida, de ganhar algo de um político
em troca do voto.
Tudo escondido, claro, mas o filho cresce
incorporando esses valores.
Numa
sociedade onde a corrupção só tem um culpado, e, mesmo assim, só
quando esse culpado é inimigo ou adversário político de alguém
poderoso, como exigir valores éticos dessa juventude?
O corruptor nunca é incomodado.
Imaginem
uma sociedade com gerações se sucedendo e morando em favelas, com
péssimas condições para a criação dos filhos e sem a perspectiva
de verem seus filhos terem as condições necessárias para mudarem seus próprios
futuros e vendo diariamente exemplos de crimes e impunidades. Que
valores podem ser incorporados nesta situação?
Imaginem
nossos dirigentes e representantes falando em nome de um povo que
desconhecem e não sabem o que pensam. Moram longe e protegidos do
mundo comum. Falam de transporte e não andam em coletivos. Falam em
saúde e não vão a hospitais públicos. Falam de tudo e sobre todos e vivem
noutro mundo.
Gosto
muito do blogueiro Leonardo Sakamoto.
Em um de seus posts ele trata da diminuição da maioridade penal. Ele sugere a hipótese de que se um garoto de seis anos consegue se vestir sozinho, também já tem condições de responder penalmente.
Em um de seus posts ele trata da diminuição da maioridade penal. Ele sugere a hipótese de que se um garoto de seis anos consegue se vestir sozinho, também já tem condições de responder penalmente.
Quando
a maioridade for diminuída para dezesseis anos, haverá garantias de
que o crime diminuirá? Poderíamos então fazer outra campanha e
baixar para quatorze.
Se
um garoto de dezesseis anos que vai para a prática de um crime não
tem medo de morrer, ele temerá ficar preso? Só lembrando que ele provavelmente só passará de três a quatro anos efetivamente preso.
Não
vejo nenhum problema em se diminuir a maioridade penal. Apenas não
concordo com essa campanha como se fosse
uma panaceia para a insegurança.
Parece
que o governo de São Paulo, que não consegue resolver seus problemas de
segurança, procura repercutir um crime onde um menor estava
presente e onde três adultos também participaram, e onde um deles estava
dirigindo um "audi" da mãe.
Junto
com a redução da maioridade penal deveria vir a discussão sobre as diferenciações
das penalidades, sobre o sistema prisional, sobre o processo penal, sobre as
responsabilidades do judiciário e do Estado na criação desse
estado emocional de insegurança.
Pergunto
se a criminalização seria somente para pobres e favelados ou
valeria também para filhos de gente importante que causassem
acidentes dirigindo carro ou jet-sky? Valeria também para nossos
filhos, irmãos e primos que fizessem alguma besteira? Nunca devemos esquecer que estamos no Brasil.
E
o mais importante. A pena tem duas funções: o afastamento da
sociedade (proteção) e o aprendizado.
E com certeza não teremos isso com garotos de dezesseis anos encarcerados em nosso atual sistema carcerário.
E com certeza não teremos isso com garotos de dezesseis anos encarcerados em nosso atual sistema carcerário.
Sobre
o assunto fica a sugestão de leitura:
O Problema no Brasil, neste contexto, é que temos um sistema penitenciário que não recupera ninguém, apenas enjaulam quem descumpriu a lei, os que vão preso é claro rsrs. Creio que o objetivo d aprisão de um infrator seja, além de um ato punitivo, uma forma que o estado teria de recuperar aquele infrator de modo a reativá-lo no meio social. A redução da amaioridade penal eu vejo com fundamento, considerando que quem cometeu um crime que seja punido, considerando ainda que um menor que comete crime tem sim capacidade de arcar com as consequencias de seus atos e o deve. Alerto sempre que não adianta muita coisa se não houveram condições de recuperação dos infratores no sistema prisional, caso contrário continuará do mesmo jeito: o criminoso preso violento e sai mais violento ainda. Até porque o preso perigoso sabe que saindo da prisão não vai ter oportunidade de emprego, ninguém vai confiar nele como cidadão digno ele recorrerá ao crime novamente como sempre. O problema do Brasil é que a maioria das coisas é um faz de conta e como sempre o cidadão de bem é que é prejudicado. O povo que paga o salário dos deputados e demais governantes, o povo que paga a despeza que os presos geram para o estado, é tratado indiferença, nesse paos do ''faz de conta''
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