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As diversas faces do antipetismo, por Matheus Pichonelli
O
ódio, o antipetismo e o caráter
Como
diria o poeta, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Ao
fim da votação, tentei analisar, no último post, a tendência de
acirramento no discurso tanto de eleitores petistas quanto de tucanos
nesta segunda fase da eleição. Escrevi, e mantenho, que o esforço
para dividir o “campo inimigo” entre petralhas e tucanalhas era
parte de uma politização de arquibancada, redutora do espaço para
o diálogo e da assimilação do contraditório. Este era (é) um
ponto.
Não
significa que os projetos se equivalem ou que as ofensas sejam
distribuídas de maneira equitativa. Apenas que, quando se
manifestam, criam o campo propício para o ódio recíproco. E
eliminam qualquer exame de consciência ou autocrítica, mutilados
durante os picos de polarização.
Um
dos elementos deste acirramento, de fato, tem como origem o
antipetismo, um fenômeno tão difuso quanto complexo. Da mesma forma
como existem muitos PTs dentro do PT, de Olívio Dutra a Cândido
Vacarezza, de Eduardo Suplicy a Agnelo Queiroz, existem muitos
antipetismos dentro do antipetismo. Erra quem pensa que ele é apenas
um fenômeno de uma elite egoísta e incapaz de aceitar a ascensão,
no país, de grupos historicamente marginalizados. É também, mas
não só. Se o fosse, não haveria explicação, por exemplo, para o
discurso anti-PT que se assentou em representantes das classes
populares. Há banqueiros que rejeitam o PT, mas há também
motoboys, faxineiros, taxistas e porteiros. E isso só mostra que a
questão é mais complexa do que apenas o abismo histórico entre as
classes.
A
reação difundida, e aparentemente reforçada em 2014, é explicada,
em parte, pelo esgotamento do atual modelo de desenvolvimento e pelo
alegado cansado em relação aos episódios de corrupção
envolvendo o atual governo.
Em
condições normais, quando os ventos da economia não são tão
favoráveis, o apelo por mudanças passa a ser replicado e
direcionado à figura do grupo no poder. Entre 1998 e 2002, quando a
economia patinava, Fernando Henrique Cardoso também encarnava os
males do país. Era o culpado tanto pela política macroeconômica
quanto pela gripe, pelo calor, pelos calos, cravos e espinhas dos
eleitores. Com uma diferença: a grita era contra ele, figura
pública, e não contra o PSDB, seu partido. Da mesma forma havia o
anti-malufismo, e não o anti-PPB (hoje PP), o anti-brizolismo, e não
o anti-PDT, o anti-carlismo, e não o anti-PFL (hoje DEM).
Com
o PT é diferente: com a exceção, talvez, de Lula, o apoio ou
ojeriza ao partido vem sempre antes de seus representantes. Por quê?
Porque é o partido mais conhecido, mais organizado, mais falado e,
ainda hoje, mais temido por sua capacidade de mobilização popular,
ainda que menor em relação a outros tempos.
Parte
dessa dimensão é explicada pela própria origem da legenda. Surgido
do anseio de movimentos populares no fim da ditadura, o PT se
distingue por ter tomado impulso nas comunidades eclesiais de base,
nos sindicatos e nas universidades, e não em fragmentos de bolo mal
repartido dentro da própria burocracia do Estado (o PSDB é uma
facção do PMDB; o PSD, uma facção do DEM; o PDT, do antigo PTB, e
por aí vai).
No
PT, a imagem do partido é mais forte que as suas lideranças. Estas
batem no peito para defender a bandeira. Usam broches com a estrela.
Vestem vermelho. Irritam e são irritados, sobretudo com a má
vontade da cobertura midiática. E transformam o PT em um partido
mais exposto que os demais. Mais exposto, mais falado, mais admirado.
E mais odiado, esteja ou não no poder.
Nas
rodas de conversa, é comum ouvir eleitores dizendo que jamais
votariam, ou que não novamente no PT, após alguma administração
considerada desastrosa em sua cidade ou estado. Entretanto, quando a
administração desastrosa é conduzida por alguma liderança de
outro partido, a crítica se restringe à liderança - muitos nem
sequer associam a bronca ao partido. Não se ouve “PMDB nunca mais”
ou “Fora PTB”. A grita anti-PSDB existe, mas não está na boca
do povo: restringe-se à militância de esquerda.
A
força do PT, portanto, é também seu ponto fraco à medida que a
população atravessa períodos de desencanto e desânimo com o
próprio sistema político. Para quem não gosta de política, o PT é
hoje “A” política. A política em sentido pejorativo.
Em
ano de eleição, a sigla se torna um alvo preferencial não apenas
de quem acompanha o noticiário político e fundamenta seu voto como
um contraponto, por exemplo, ao papel do Estado como indutor da
economia e da redução das desigualdades, um papel hoje defendido
com mais ênfase pelos governos petistas do que por outras bandeiras
- para estas, Estado forte se resume a loteamento e a inchaço da
máquina pública, o que nem sempre é mentira. Mas o PT não é alvo
só de liberais. É alvo também de quem se afasta do debate sob a
fumaça da ojeriza à política, aos políticos e a tudo o que vem de
Brasília. Os que se dizem desestimulados com a política e passam
quatro anos dizendo que todos os políticos são sempre iguais são,
muitas vezes, os mesmos que fazem campanha contra o PT em ano
eleitoral. Muitos, sem saber exatamente o porquê, reforçam o coro
apenas juntando cacos do que ouve aqui e ali sobre “velha
política”, “roubalheira”, “quadrilha”.
O
que não significa, repito, que a rejeição não tenha fundamento.
Mas, como é o partido mais conhecido, mais amado e mais odiado,
qualquer erro estratégico ganha dimensão significativa sobre o
debate político. Quando os erros se repetem, a gritaria sai do
controle. Basta lembrar, por exemplo, que a candidata à reeleição
afirmou mais de uma vez que o histórico de seu governo era seu
melhor plano de governo, até agora pouco detalhado. Em tempos de
acirramento, a autoconfiança pode ser interpretada como mero
descompromisso. Ou arrogância. O eleitor, portanto, tem o direito de
rejeitá-la, sem necessariamente ser representante da elite ou da
vassalagem à elite. (Vale lembrar que, dentro do antipetismo
existem, inclusive, ex-petistas. Uma delas por pouco não foi para o
segundo turno).
Dito
isso, volto ao enunciado inicial: uma coisa é uma coisa, outra coisa
é outra coisa. Uma coisa é o diálogo inviável que a polarização
PT x PSDB produziu desde meados dos anos 1990. Outra é a lógica do
antipetismo, que ainda precisa ser estudada a fundo.
Outra,
muito outra, é a manifestação de ódio produzida, mais uma vez,
diante do resultado das urnas. Como já havia acontecido em 2010, o
mapa da votação que mostra apoio maciço ao partido no Norte e no
Nordeste virou motivo para certos eleitores tirarem do armário o que
guardam de pior nos outros dias do ano. Uns retiram o próprio
egoísmo e, enclausurados em regiões mais abonadas, passam a
defender um estranho pacto social que flutua entre a demofobia e o
separatismo: “os pobres que se lasquem”. É o primeiro passo para
achincalhar os moradores do Nordeste e os beneficiários de programas
sociais, como se estes fossem seres autômatos incapazes de dissociar
o voto da suposta migalha.
Nesses
casos, a manifestação não é resultado apenas antipetismo ou do
atavismo político. É resultado da presunção. E essa é antes uma
questão de caráter do que de opinião política.
Como diria o poeta, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
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